quinta-feira, 2 de junho de 2016

DÉCIMO TERCEIRO CONTO AMERICANO.

Por algum tempo, fôra uma história interessante: claro, meu adversário, ou sua organização, ou ''alguma'' organização, continuava a arrebanhar delegados e, à distância de alguns meses da eleição geral, havia agora a sensação de que seria mais fácil chegar a um acordo com ele, de que seria mais fácil modera-lo, ou modelá-lo, do que eliminá-lo. Em antigos tempos idos, J.P. Morgan teria sem dúvida despachado alguns jovens brilhantes para a costa sul do Pacífico com um saco cheio de notas de cem dólares. Agora, porém, na posse dos meios de comunicação de massa, a transação podia ter lugar publicamente, na cara de toda a nação. A revista Life havia colocado meu oponente na capa de junho, com um Stetson cinzento-prateado, uma lavada, bem passada camisa de trabalho azul desbotada, boné vermelho, e cinturão, enquanto sua montaria, um potro chamado Sonic Storm, deixava que uma das mãos do candidato lhe segurasse o bridão e a outra pousasse no focinho. Era, fielmente, Hopalong Cassidy sem as gordas bochechas e nádegas de bebê, prometendo a sequência da campanha vitoriosa: a imagem do candidato K. seria agora combatida pelo xerife Donald Trump, o Pistola Prateada do Oeste. Um daqueles retratos que valem mais que dez mil discursos ------- prometia angariar milhões de votos. Era também um modo de afirmar-se afirmando o Partido, que agora prometia ajudá-lo, como fizera com aquela capa. Mas, dentro da revista, por sobre as cabeças de vinte milhões de leitores, outra mensagem havia sido enviada para o candidato: ''' Os interesses financeiros de Ohio, Illinois, Texas, Los Angeles e San Fracisco ----- todos centros de riqueza independentes dos vínculos orientais ------ vem acumulando um estranho tipo de dinheiro especulativo e intensa pressão local a favor de D. Trump. Mas... há uma diferença entre essas espécies de dinheiro... o dinheiro antigo ainda tinha muito poder político, mas o novo e estranho tipo de dinheiro acumulara um nefasto poder de compra, que podia comprar qualquer coisa, inclusive políticos... Quando se chega a uma convenção não se compram delegados. Mas faz-se pressão sobre as pessoas que controlam os delegados ------- as pessoas que devem ao dinheiro antigo sua segurança financeira. Mr. Trump representa um valioso impulso para o Partido Republicano reerguer-se na América. Ele ainda não representa claramente tudo o que um sério contendor para a Presidência dos Estados Unidos deve representar. ''CORAGEM SEM PROFUNDIDADE'' e ''UM HOMEM DE SOLUÇÕES INCOMPLETAS'', são os epítetos mais comuns entre seus críticos. Chegou o momento de refutá-los abertamente, com inteligência, se puder (.) ''. Li a reportagem da revista no trajeto para a casa de Sylvia, lento devido ao ''rush'' do fim da tarde. A reportagem seguinte era ''Los Angeles na Literatura'', que me fez lembrar de ''O Dia do Gafanhoto'', de Nathaniel West. ------ Já leu (?) --, perguntei à Rostiff. ------- Não , mas posso cuidar disso. Tento alternar leituras fáceis com leituras difíceis. Estou lendo agora ''O Grande Sono'' (.) ---, Rostiff estava impossível naquela tarde. -------- Fácil (respondi) mas brilhante. Raymond Chandler é melhor do que Dostoiévsky. Meu Deus, Rostiff, sempre que viajamos para fazer campanha, eu tenho essa sensação de que as coisas estão virando um mar de lama. Fico pensando se depois disso vou conseguir arrumar ao menos um emprego de detetive particular, como Marlowe. Quem era aquela atriz loira de rosa ? Monumental! Agora, abra a porta do carro que preciso vomitar. Bebi demais no bar do Hilton . -----, enfim, falei-lhe livremente e deixei-me levar pelas súplicas do meu estômago. Apesar do meu excêntrico nonsense, e do dele, havia uma lógica oculta na nossa conversação. ---- Mas vai vomitar aqui, no meio da avenida (?!) --, perguntou-me ele, sobressaltado. -------- Posso vomitar em cima de você, se preferir. ABRE (!) -------, às vezes, dizia a mim mesmo que conversar com Rostiff era um boa análise para mim: ele sabia extrair de mim o que eu realmente estava pensando. Enquanto vomitava, pensei que um assessor como Durnwald não queria me ouvir quando tentava trazer as idéias de Aleister Crowley para dentro da campanha. ------- Absurdo (!) ----dizia -- Simplesmente absurdo (!!) Vai arruinar todos nós com esse negócio de alma e ocultismo na política (.) --, depois que vomitei entre os carros, voltei ao livro de Nathaniel West : ------- West previu o fim da era venturosa de Los Angeles, assim como Henry Miller previu o da de San Francisco. Viu a cidade dos anjos se transformar numa cidade do desespero, um lugar onde as esperanças são esmagadas pelo peso da multidão enlouquecida pelo cinema. O livro dele foi um aviso. E meu discurso de amanhã citará algumas passagens do livro. -----, eu disse, e ele coçou a cabeça. Sabia o que isso queria dizer, e Sylvia, ao ler trechos do meu discurso no papel, apiedou-se surpreendentemente do meu adversário. Apesar de tudo, não me era possível sentir pena dele. Nunca fora fácil para mim compreender sentimentos como a piedade. Para mim, a piedade era auto-piedade disfarçada. Auto-importância. Ainda mais se tratando de um candidato do Partido Republicano, que abrangia todas as gamas do espectro que combatia nos recessos mais remotos do meu espírito aristocrático: desde o duque de Windsor a Jerome Zerbe, de Thomas E. Dewey a Lowel Thomas, de Drue Heinz a Tex e Jinx, De Maine a Nassau, de New York ao sul da França, de Allen Dulles a Henry Luce, de Igor Cassini a Joe Alsop, de Sullivan e Cromwell a Cartier´s, e de Arthur Krock a Tuxedo Park. Segundo Sylvia, meu adversário era muito forte, mas, quando chegasse o momento, abrir-se-iam portas para mim, fechar-se-iam portas para ele, figuras exóticas e imprevisíveis seriam introduzidas no pandemonium eleitoral americano, o F.B.I seria obrigado a recuar, cabeças seriam removidas do meu caminho, uma pitada de incenso aqui, um grão de velhacaria ali --- eu seria eleito Presidente. Ainda segundo Sylvia, os melhores entre os profissionais do meu oponente eram homens formidáveis, mosquitos, vírus editoriais, alguns esgalgados e ossudos, outros, gorduchos e flácidos, com o semblante duro e desagradável de investigadores de seguro contra incêndio, homens de ação para o F.B.I, ou como jovens e brilhantes procuradores distritais, aquele olhar seco e fixo do caçador, cheios de indignação e vacuidade moral. Mas o total do pessoal à serviço dele (continuou Sylvia) que eu vi naquela torre, recordou-me diretamente uma excursão dirigida através das instalações do F.B.I, no Edifício do Departamento de Justiça em Washington DC; aquela mesma sucessão de rostos andróginos inexpressivos para nos guiarem, o cabelo penteado para trás ou repartidos de lado, brilhando como querosene em ursinhos de pelúcia, os olhos mortiços, os narizes nada sugerindo, as bocas funcionais, os queixos sólidos, os movimentos econômicos e precisos. Uma sucessão desses mesmos homens (contou-nos ela) foi quem me levou, certa vez, através dos corredores do F.B.I. e leu para mim e minha namorada da época os letreiros eletrônicos em voz alta, dando-nos breves lições sobre a função do F.B.I. : proteger-nos do inimigo externo e do inimigo interno, todas as afirmações feitas em simples prosa organizacional, do gênero usado nos folhetos de boas-vindas de novos operários às grandes companhias, de soldados a novos comandos, de calouros ao colégio, de leitores de revistas às editoras. A excursão ao F.B.I era formada basicamente de pais e filhos americanos. As esposas eram ríspidas, mal-humoradas, do gênero talhado para usar saias grossas de algodão e casacos xadrez bege, as irmãs e as filhas magricelas e feias. Todos ali tinham os olhos chumbados, sem brilho, tanto os guias quanto os excursionistas. A maioria dos rapazes tinha entre 15 e 18 anos e, quase sem exceção, exibiam os rostos neutros, dissimulados, típicos de guris que um dia matarão um velhote chato com uma explosão, uma velhota chata com uma faca de açougueiro, amarrarão a irmã com os fios desemcapados de uma tomada e se esconderão num bosque durante três dias. O clímax da excursão foi uma ''demonstratio'' feita pelo agente do F.B.I. sobre como usar uma metralhadora automática. Durante dez minutos seguidos, ele coseu dezenas de alvos à bala, usando um tiro de cada vez, depois rajadas de dez e vinte, logo cartuchos completos, e tudo com gestos suaves e graciosos de um trabalhador braçal cravando rebites numa placa de aço. Havia solenes aplausos depois de cada rajada de tiros... concluiu Sylvia.

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