domingo, 5 de junho de 2016

DÉCIMO QUINTO CONTO AMERICANO.

Ali estava eu de novo, sozinho no bar do Hilton, como uma espécie sumamente curiosa de santo. Se fosse ator de profissão, estaria interpretando o Delfim para a Joana d´Arc de de Ingrid Bergman. Num exame superficial, eu poderia parecer um homem simplesmente fraco e teimoso, reclamando da temperatura do licor com a bar-tender. Poderia, inclusive, passar a falsa impressão de me ter estragado, quando jovem, por falta de oportunidades em que fosse posto à prova. Nada mais distante da realidade. ------- Mas você não passa de um menino (.) ------, disse a bar-tender, passando um pano nos copos, com aquele sorriso de plástico que as pessoas usam quando na verdade estão se segurando para não falar demais. ------ É verdade que não escrevi muito até aqui, mas tudo que escrevi é maravilhoso. O bastante para me tornar Presidente. Meu fracasso como escritor dá o que pensar. Provavelmente sou o fracassado mais invejado do planeta. Scott Fitzgerald dizia que o fracasso é o único sucesso verdadeiro nos Estados Unidos e aquele que 'o faz'' estará para sempre no coração de seus compatriotas. ---- O Sr. costuma pensar em seus concidadãos de verdade (?) ------- , ela me perguntou, como uma arma que nunca falha numa negociação e é tão mortal quanto o espadim de um bravo ou o anel de veneno de Lucrécia. ------- Existem umas poucas coisas que preciso desabafar com você hoje, meu bem (.) -------, eu disse, fingindo não ter ouvido sua pergunta. ------- Tenha paciência... vou trazer uns aperitivos para o balcão (.) ------, ela era magra e alta, com um conjunto branco de linho branco, e lenço em volta do pescoço. Seu cabelo era de um dourado pálido de princesa de contos de fada; olhos azuis, profundos, sob pestanas longas e claras. Foi até a mesa do outro lado do bar e começou a tirar as luvas. Pensei nos três tipos de loiras encontradas na teoria do romance policial americano: as metálicas que são tão loiras quanto um zulu albino, com uma disposição tão macia quanto um pedaço de asfalto queimado; as loiras pequenas e engraçadinhas, que andam perto do chão e riem agitadas... Mas aquela do bar era do terceiro tipo: a loira imponente como uma estátua, que nos abraça à distância com um simples olhar azul-gelado. Quando ela voltou com mais bebida, recomecei a falar: ------- Eu sou um poeta maldito... Uma ''entidade''. Gertrude Stein costumava distinguir entre uma pessoa que é uma ''entidade'' e uma pessoa que tem uma ''identidade''. Um homem de valor, um raro, é uma ''entidade''. Identidade é só o que lhe dão socialmente, sabe (?) Seu cachorrinho, por exemplo, sempre lhe reconhece quando a Srta. chega no seu apartamento de noite: portanto, você tem uma identidade. Uma entidade, ao contrário, é um poder impessoal , místico e temível. É como T.S. Eliot dizia à propósito de William Blake. Um homem como Tennyson foi envolvido por seu meio ambiente ou incrustado de uma opinião parasitária, mas Blake estava nu da cabeça aos pés, e percebeu e revelou o homem nu, do centro de seu próprio cristal. Não havia nada de ''identidade'' nele e isso o tornou um artista terrível. Um maledetto. E isto é uma ''entidade''. Uma identidade, em si mesma, é mais fácil: pode servir-nos uma bebida, sorrir-nos um lindo sorriso, enfeitiçar-nos com um olhar, procurar prazeres humanos, esquivar-se às condições rigorosas de um puthuy. Mas Deus, diz o Livro de Jó, ''inspira cânticos durante à noite '' (.) -----, eu havia comentado com ela a teoria das loiras americanas, um pouco antes, e ela se mostrou bastante interessada: disse que havia também um tipo de loira-anêmica, com algum tipo não fatal mas incurável de palidez, que às vezes se torna charmoso e às vezes não. Achei curioso, comentei: ----Sei dose trata: ela é bem lânguida, bem sombria e fala macio sobre qualquer coisa. Você não pode tocar um dedo nela porque, em primeiro lugar, ela te deixa acuado, e, em segundo lugar, ela está lendo The Waste Land ou Dante no original, ou Kafka ou Kierkegaard, ou estudando provençal. Sim: ela adora música e quando a Filarmônica de Nova York toca Hindemith, ela é capaz de dizer qual dos seis contrabaixos vai aparecer num quarto de compasso depois. Toscanini também conseguia isso. Agora são dois. Essa talvez não conte, pois é uma entidade. Mas... deixe-me dizer-lhe: existe ainda aquela outra entidade loira maravilhosa que vai fazer hora com três gangsters da pesada e depois se casar com alguns multimilionários, vinte milhões por cabeça, e terminar a vida com uma ''villa'' rosa-pálido em Cap d´Antibes, uma limousine com piloto e co-piloto, e um rebanho de sólidos aristocratas, sendo que a cada um deles ela irá tratar com uma afeição distraída, como se fosse um velho duque dizendo boa-noite ao seu mordomo(.) ----e Quando notei que ela não conversaria mais comigo, naquela tarde, pareceu-me repentinamente uma criatura inclassificável, uma entidade: não se encaixava mais em nenhuma categoria de loira americana. Não era mais deste mundo: tão remota e clara quanto a água da montanha, tão ilusória como sua cor. Ainda olhava para ela quando reapareceu na beira da piscina, através da vidraça. Não é que eu tivesse me tornado excessivamente vaidoso; é que, por muito tempo, sofri da escassez de ocasiões para ser vaidoso e, agora, não estava tão empenhado numa ´seria luta política pela Presidência dos Estados Unidos quanto num rito de puberdade. Era inacreditável que eu, esse agradável jovem sem origem conhecida, tão satisfeito consigo próprio, tão civilizado, tão culto, tão razoável e verdadeiro, tão inocente das manhas, dos rancores, dos caprichos de humor barato e da audácia dos magarefes sobrepujados, fosse agora, de fato, o homem do Partido Democrata escolhido para ser seu candidato oficial. Mas havia uma lacuna fatal no meu estilo, era justamente culto demais em comparação com meu adversário, digamos, soberbo demais, à maneira que um jovem diretor da Madison Avenue parecerá petulante ao lado do vigor desabrido e grosseiro de um presidente de uma corporação do aço. Me faltava a veemência e um malabarista político como JFK; não, eu tinha , antes, a grande boca sem papas na língua do Cristo, palhaço em transe .

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