quarta-feira, 8 de junho de 2016

DÉCIMO SEXTO CONTO AMERICANO.

------ Pois que procurem por mim mais tarde, Rostiff, mas com um papo ''melhorzinho'' (.) ------, a expressão de Rostiff mudou, e ele riu. ---- Você fala como se estivesse trabalhando num filme (.) ----, ele disse. ------- Pode ser, mas só trabalho em filme de bandido, tipo ''Procurado pela Justiça'' (.) ----, respondi, e ele se foi, rindo. Fui para o anexo e atravessei a entrada do hotel em direção à saída principal. Parei para colocar meus óculos escuros, por causa das olheiras, pensando : ''Última parada antes das primárias da Califórnia'', mas só quando entrei no carro lembrei de olhar o cartão da Srta. Lindsay Javits: ''Idle Valley Road, certo ?''; Certo: Idle Valley mudara muito desde o tempo em que existia um arco na entrada da minha propriedade, um cassino e as garotas de vida alegre por trezentos dólares a noite. Muito dinheiro devia ter sido desviado de lá depois de fecharem o cassino. Agora, meu clube era dono do lago e da entrada do lago, e se eu não quisesse que você entrasse lá, não adiantava se jogar na água gritando. Mas, espiritualmente, eu tinha tanto a ver com Idle Valley quanto uma rodela de cebola numa banana split. A sensação de prisão que eu sempre experimentava lá tinha origem na quantidade de seguranças particulares e na qualidade superior e aristocrática do meu estilo literário. Os seguranças eram duros e impassíveis com qualquer um, verdadeiros Pinkertons com uma tendência para lançarem-se sobre qualquer visitante não registrado no livro da portaria. Um desejo de ação violenta imediata se desprendia de seus vultos à distância. Jamais seriam felizes se não houvessem ordens a cumprir. Estavam ali para defenderem meu quartel-general provisório em Los Angeles do populacho e evitar que eu fosse assassinado por algum negro malvado. Fazia sentido até certo ponto: meu adversário político, por exemplo, estava em apuros maiores ainda que os meus, pelo menos enquanto eu não apresentasse sintomas de ''Já Ganhei ''' incuráveis. Justamente na teça-feira à tarde houve uma marcha anti-Trump em Los Angeles em defesa dos Direitos Civis que ele prometera abolir, enquanto eu bebia e conversava com a Srta. Lindsay . Ela me fazia sentir como se tivesse mordido alguém e fosse levado ao depósito municipal de cães, espumando de raiva, para ser abatido. Falei sobre isso com ela e ela pareceu achar que eu usava minha imaginação para estragar o divertimento de certas pessoas. Liguei um pouco a tv e ficamos assistindo os vts de algumas lutas do UFC. Mas não eram bons lutadores: o tempo de Mirko Crocop e Anderson Silva havia acabado e nenhum discípulo à altura surgiu, apenas um bando de dançarinos contorcionistas trabalhando sujo no chão... o público vaiava. A Srta. Lindsay se levantou com suas botas de cano alto, caminhando a passos largos sob o teto da sala; sobre a minissaia,vestia um longo casaco de camurça polonesa, arrematado com pele de carneiro. Seu lindo chapéu de veludo, flexível, inspirava-se em retratistas holandeses do ´seculo XVIII, e estava puxado para o alto da cabeça. O rosto, de um branco puro e uniforme, alargava-se na base. A garganta estava sempre levemente ressoando ou murmurando algum resíduo ornamental de feminilidade: essa ligeira ondulação observava-se também nos quadris e na parte interna das coxas; a primeira junta de seus dedos revelava, igualmente, os mesmos sinais de superabundância sensual. Definitivamente, a televisão era desnecessária, e os comerciais entre as lutas eram capazes de adoecer mentalmente até mesmo uma cabra criada entre arames farpados e cacos de garrafa de cerveja. Seguindo-a, admirando-a, pensando, introduzi o assunto principal: ------- Sabe, Victoria, a minha opinião nada significa. Certas coisas acontecem todo dia. As pessoas mais improváveis cometem os crimes mais improváveis. Adoráveis velhinhas envenenam famílias inteiras. Garotos bem comportados cometem vários assaltos e se metem em tiroteios. Gerentes de bancos de longa reputação ilibada são flagrados em desfalques monstruosos. Romancistas de sucesso, atores premiados, atletas consagrados, populares e supostamente felizes, se embebedam e mandam suas esposas e namoradas para o hospital. (.) ------, era excitante, para mim, observar a maneira como ela me ouvia atentamente, com uma intensidade de devoção religiosa. Ela ajeitou-se no sofá. um projetor sobre ela, uma película prateada de suor reforçando sua pátina intelectual própria, e os óculos, aqueles óculos de armação escura, assumiram uma estranha vida própria, aquela austeridade torturada, aquele idealismo ingênuo, ofendido e intransigente, que, naquele momento, a tornava momentaneamente a Irmã Maior de todos os carrancudos e solitários partidários do meu adversário político. ------ Encontrei esse bilhete na caixa de correios do meu edifício (ela disse). Está assinado por você. (.) ----, olhei para o pedaço de papel na mão dela, estava amassado e manchado de licor. Nele, havia um pequeno parágrafo escrito à lápis, e ela leu para mim: ''NÃO ME ENVERGONHO DE ESTAR APAIXONADO POR MIM MESMO. TALVEZ ISSO NÃO SEJA DEVIDO APENAS À AUSÊNCIA ABSOLUTA DE RIVAIS À MINHA ALTURA. Assinado: Scott Fitzgerald. P.S:. Eis porque nunca concluí o Grande Magnata (.) ''. ------ Isso lhe diz alguma coisa, Mr. K. (?) ------, perguntou-me ela. ------ Faço uma vaga idéia. Sempre fui um grande admirador de S. Fitzgerald. Antigamente costumava dizer que ele tinha sido o melhor escritor bêbado desde Coleridge, que se dopava com ópio. -----, falando com voz suave e humilde, eu irradiava a sinceridade superficial de um imaginário namorado dela, decidido a passar com ela alguns momentos agradáveis. Não deixei de recordar-lhe Arthur Miller: ---- A mesma mistura de vasta solenidade e juventude intacta, uma espécie altiva de ''Ora, bolas '' e ''Oh, que merda eu fiz dessa vez'(?)'' na voz (.) -------, ela disse. Realmente, a vista de Idle Valley, para quem gostasse de vistas, era admirável. E eu era muito bom em pôr os outros apreciando vistas para poder ausentar-me. Fiz tudo isso em menos de dois minutos, para poder atender o telefonema de Rostiff: ----- Mas porque hei de incomodar-me com pesquisas ? Já se enganaram sobre mim tantas vezes, e vão se enganar de novo. O homem é superior à máquina. .. o grande ponto a se recordar é que a América é um país espiritual, estamos todos (ainda que inconscientemente) afundados na crença em Deus. Estou pronto a declarar publicamente que essas eleições darão uma grande alegria ao Partido. -------, e segui bombardeando os ouvidos de Rostiff com meu desesperado otimismo cego do momento , ativado em mim unicamente pela presença de Victoria na sala de visitas, como se estivesse discursando entre fazendeiros idosos, agentes imobiliários do interior e estudantes ruivas com óculos de aro de prata. Aplausos imaginários no final do telefonema. Aclamações, zumbido no ouvido. ------- Estou jovem demais para desistir da Presidência e velho demais para voltar a trabalhar (.) -----,risos, aclamações alucinatórias, vibrantes dentro dos meus tímpanos. -----Sou um homem modesto e severo comigo mesmo... certo (?) ----, enquanto eu caminhava de volta para a sala, delegados imaginários davam-me tapinhas entusiásticos nos ombros. Ao reencontrar Victoria na sala, percebi que ela comportara-se como uma hábil ginasial que abiscoita todos os tentos antes que a bola volte . ----- Não é lindo lá fora (?) -----, comentou ela. Olhei, sim, era realmente lindo. Mas uma olhadela apenas era suficiente para mim, naquele momento. Assim eu economizava segundos preciosos. A questão era apenas saber o que fazer com os segundos ganhos por meio dessa economia. Aplausos. Aclamações imaginárias. Risos e enlêvo pela maneira como Victoria seguia despejando seus anátemas humanistas sobre mim.


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