quarta-feira, 8 de junho de 2016

DÉCIMO SÉTIMO CONTO AMERICANO.

De volta à Los Angeles, meu séquito consistia em cinquenta ou sessenta pessoas excitadas: alguns delegados de outros estados que não desejavam perder seu homem-partido de vista, mais meia-dúzia de policiais radiantes por lhes tocar aquela missão. Os carros diminuíam a marcha na avenida para me ver; um deles parou. Uma mulher bonita saiu de dentro dele e me aplaudiu. Mas havia algo estranho na maneira como ela fez aquilo, que me fez lembrar dela imediatamente, numa noite perdida entre garrafas... em Denver. Sentado sem roupa na extremidade de uma cama de motel (recordava-me), eu discutia com aquela mulher também nua os julgamentos dela sobre mim: ------ Não percebo como alguém pode ser extremista (ela disse) e continuar acreditando na Constituição. E para aqueles poucos anarquistas ontológicos mal-orientados, que fingem acreditar na Constituição, mas, secretamente, não crêem, bom, talvez sejam extremistas a seu modo, porém eu não vejo qualquer necessidade de legislar contra eles, caso você vença as eleições.... apenas os lamento do ponto de vista filosófico. O mesmo posso dizer da Enciclopédia de Ciência Unificado, ou da Lei de Desenvolvimento Interaliado de Trotski, ou dos pontos de vista de Chiaramonte sobre Platão, ou e Lionel Abel sobre teatro, ou de Paul Goodman acerca de Proudhon, ou de quase todos em relação à Kafka ou Kierkegaard (.) --------, ela falava com uma piteira metálica de haxixe entre os dentes, e meu pênis, que jazia à sua frente no lençol amaciado pelo travesseiro, exprimia todas as flutuações do meu interesse; e enquanto ela bufava e expunha seus pontos de vista numa gagueira relinchante, meu membro seguia seu trajeto ascendente com uma ou outra interrupção motivada por algum autor mal abordado. Vendo-a novamente agora, na rua, eu tinha certeza que mulher alguma jamais sentiria animosidade em relação à um homem que havia se mostrado tão ''atencioso''. Mas ela parecia sem jeito comigo, ali na rua. Parecia pressentir as peculiaridades da minha perspectiva política momentânea. De repente, ela gritou: ------ Vá em frente, Mr K. (!!) ----, e, para minha surpresa, havia cólera e exultação na sua voz, como se estivesse declarando: ''NÓS TODOS TE AJUDAREMOS A FAZER O PAÍS ANDAR PARA TRÁS (!!) ''. Minha única reação foi desviar meu olhar do dela e sorrir modestamente, reatando minha marcha na avenida. Pareceu-me um pouco febril. Certamente não me admirava mais. Poderia ser o Presidente dos Estados Unidos em menos de seis meses, podia encaixar a bala de prata do atirador político de tocaia, não importava: agora eu era mais amado e mais detestado que qualquer outro homem na América, e por dentro de tudo isso eu era apenas eu, o homem que regulava os botões da torre de transmissão de manhã cedo para transmitir um pouco melhor minha ladainha, e agora era de se presumir que tivesse que fazer alguns ajustes a mais....


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