terça-feira, 28 de junho de 2016

TRIGÉSIMO TERCEIRO CONTO AMERICANO.

Deixe-me agora explicar: sou o membro de um grupo minoritário, e como tal, quando quero falar existencialmente, falo não como um homem que faz parte de uma determinada categoria, como um negro ou como um judeu, mas como um homem que concebe sua existência de ''certa maneira''. Portanto, é próprio do contexto da minha existência viver com duas noções opostas de mim mesmo, ao contrário dos hipócritas: uma maravilhosa e outra horrorosa; uma excepcional, outra insignificante; uma boa e outra má; E o único processo de que disponho para aliviar a insuportável tensão que cerca qualquer sentido da minha própria identidade, é definir minha natureza através dos meus próprios atos: descobrir minha coragem ou minha covardia por ações que envolvam coragem; descobrir meu discernimento julgando minha própria imparcialidade; minha lealdade, sendo posto à prova; minha originalidade, criando ali onde ninguém jamais criou. Um negro ou um texano, um candidato à presidência ou uma dona de casa ninfomaníaca são, desde que em si contenham duas noções opostas de si mesmos, membros de um grupo minoritário. O que caracteriza esta definição é estarem as emoções próprias enclausuradas para sempre nas cadeias de ambivalência ----- a expansão de uma emoção libertando eternamente seu oposto ------ , o ego em trânsito perpétuo de uma torre de marfim para uma feira-livre e desta para aquela. Hoje nos deparamos com o perigo de que a distância entre as elites econômicas e tecnocráticas e a massa da população torne-se demasiado grande para que possa ser superada. Uma eminente morte do espírito público paira sobre a vida da América, e há um vazio tecnocrático canceroso no centro que exige a vibração de um circo elétrico. No limite, o centro de nosso motivo permanece um enigma: o vago sentimento de que as elites são corruptas, incompetentes e complacentes deve ser capitalizado pelo nosso discurso, mesmo que ele soe um pouco leviano no começo. Algo do animal enterrado da vida moderna cresceu bestialmente na América enquanto a expansão da atividade financeira não trouxe nenhuma melhoria proporcional ao desempenho econômico , facilitando, pelo contrário, uma imensa desterritorialização de riquezas. A doutrina da primazia dos acionistas será contestada com veemência, a qualquer custo, pois essa não é a vida americana que eu imaginei no pequeno assento de pelúcia do meu jato particular, quando tinha 33 anos, voando velozmente sobre a corrente do Atlântico profundo.







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