Na reunião seguinte com os jornalistas houve mais pistas para o mistério da minha personalidade. Era evidente que eu desenvolvera um profundo afeto pelos poderes mágicos da televisão, um afeto tão imenso que se sobrepunha a qualquer pretexto que pudesse haver para sentir um afeto igualmente grande pelos meus eleitores. Estes ficavam ocultos num canto da minha mente enquanto eu discursava por uma gigantesca torre de televisão. Dois terços dos meus delegados talvez estivessem sentados diante daquela torre, contemplando-me humildemente. O resto da humanidade não era visível da tribuna. A reunião prometia ser tão ordeira quanto um ''rodeo'', mas em comparação com a reunião do meu adversário , parecia um pouco menos cancerosa: as máquinas eram mais decisivas que os homens, concluía-se. Era evidente que o Establishment estava (naquele momento) a serviço do mais sutil, do mais ardiloso e sofisticado dos tiranos: eu era um imperador a que todas as máfias legítimas e ilegítimas, todos os sindicatos, uniões, corporações e instituições podiam curvar o joelho. Reiteradamente, durante meu discurso, eu prometera unificar a nação contra o medo da morte (meu estímulo ao medo era assustador e recorrente), mas em momento algum parecia estar-me referindo à república baseada nas tradições estabelecidas por George Washington, Abraham Lincoln e Teddy e Frank Roosevelt; pois se minha ideologia era liberal, minha metodologia era totalitária: para minha igreja política entrariam apenas Adlai Stevenson e Frank Sinatra, a União dos Operários Siderúrgicos, a CIA, os ossos de Martin Luther King e o Pentágono. ------ Aí está a interrogação, meu povo (!) ----- bradei ao microfone ------ A alienação dos americanos tem sido usada pelo meu adversário em referência à uma extraordinária variedade de perturbações sociais (incluindo a perda mística do eu ), os estados de angústia, a anomia, desespero, despersonalização esquizofrênica, excesso de maquiagem, desenraizamento, apatia, desorganização emocional, solidão, atomização lírica, nirvana bio-tecnológico, isolacionismo, pessimismo, perdas de verão, etc... entre os grupos (descritos por ele como alienados) estão as mulheres, os trabalhadores industriais, os trabalhadores de gravata, os trabalhadores migratórios, os artistas, os suicidas, os drogados, a gente idosa mentalmente perturbada, os veteranos sem perna, a jovem geração de negros como um todo, os delinquentes armados de faca, as audiências dos programas de auditório, os viados vítimas de preconceitos e massacres, os crioulos vítimas de racismo, os muçulmanos fanáticos, os burocratas, os políticos radicais, os deficientes físicos, os reclusos, os vagabundos profissionais e os hackers... mas o que é ainda mais inquietante é a realidade política que essa retórica reflete: a estagnação da renda dos trabalhadores e da classe-média americana; a pressão de Wall Street para que as empresas terceirizassem os valiosos empregos da base industrial; mexicanos, chineses e a sensação de que o corpo do americano médio está ficando cada vez mais vazio por dentro, que que sua psique está sendo varada por uma ferida intelectual cujas dimensões se alastram como um incêndio florestal incontrolável. No mínimo, o saldo é a convicção de que somos todos falsos, pois os republicanos também apoiaram a desregulamentação financeira e os acordos comerciais que minaram a economia americana. E agora querem culpar o lavador de pratos no Hilton de Estambul ? Acreditamos que o problema da América seria resolvido permitindo aos ricos conservarem uma porção maior do seu próprio dinheiro. Mas para promover um crescimento equitativo é necessário implementar políticas que administrem os efeitos da globalização. Não se pode comportar-se como um alienado à frente da nação, à menos que você esteja querendo levar uma parte do bolo para casa. Neste caso, sua mente presidencial se converterá num consórcio de monstruosas desproporções, de retratos galantes de si mesmo duplicados em um milhão de eventos, de vinte metros de altura cada um (.) ----, naquele momento, a atividade da mais alta inteligência política da América não melhorava em nada (inevitavelmente) o entendimento da audiência. E eu me perguntava por dentro , lastimoso, o que poderia vir a ser na meia hora imediatamente após meu discurso, senão uma pessoa bem comportada que janta no restaurante do hotel. Seria atendido por serviçais e chefes e maitres e criadas, e garçons e os pequenos ''botones'' que se vestiam como recepcionistas de hotéis europeus e enchiam meus copos de água gelada e cristalina e tiravam as migalhas do linho com uma larga lâmina prateada. E não haveria nada que eu pudesse fazer a respeito do meu desejo de redistribuir os supostos benefícios do livre-comércio senão soltar um débil soluço, simbolizando que o mercado sempre canalizava os ganhos para quem de fato os merecia. Cânceres e aneurismas, coronárias e hemorragias cerebrais, infartos e epidemias exóticas logo viriam em socorro dos operadores de planos de saúde que lucravam com a atividade de gerenciamento em vez de basear sua rentabilidade na prestação de cuidados médicos reais para os doentes. Assim , sentei-me naquele cenário de talheres de prata e chamas de brandy, e contemplei longamente a soberba cintilação dos recaldeiros.
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