segunda-feira, 20 de junho de 2016

VIGÉSIMO NONO CONTO AMERICANO.

Eu aprendera a ser cuidadoso nos caminhos da vida pública de Nova York, que estavam muitas vezes sujos. Por dentro das cercas de ferro, a grama quase sumira, queimada pela sujeira dos cães. Mas as sicômoras, à véspera de cobrirem-se com nova folhagem, os troncos sustentando as suas características manchas brancas e castanhas, constituíam uma visão bastante agradável em meio àquela desolação. Mais além, as pedras vermelhas do Friends Seminary, e as pedras grosseiras e quentes, largas, mal talhadas mas sólidas , da Igreja Episcopal St. George. Outro dia, Sarah me contou que o próprio J. Pierpont Morgan fôra porteiro lá. ------ Na antiga Cracóvia do tempo da Polônia austro-húngara (ela disse) os velhos que liam a respeito de Morgan nos jornais, falavam dele com muito respeito como Piepernotter-Morgan. Na St. George, aos domingos, o deus dos agentes e corretores de câmbio podia respirar aliviado, por algum tempo, em meio à cidade barulhenta (.) ----, nos meus pensamentos, não sentia nenhuma indulgência para com os protestantes brancos da América, incapazes de manter uma ordem perfeita. Tratava-se de uma rendição de covardes: hoje em dia, os únicos que conseguem ganhar dinheiro com fundos de hedge são os gestores, que cobram uma fortuna por um trabalho medíocre. Não são mais uma classe forte governando: a aposta mais corajosa de Wall Street dos últimos anos foram os duzentos milhões de dólares para minha campanha. Mas isso, aparentemente, não os estava fazendo mais fortes. Pelo contrário, estavam sempre prontos, de uma maneira secreta e humilhante, a descer de suas alturas especulativas, misturando-se ao populacho minoritário, e a gritar com eles. O encanto acabara no ano passado. ------- Jacob Burckhart dizia que povos atrasados deviam ser conhecidos de cima de um cavalo (.) ------, eu disse à Sarah, rindo: ---- Os Pikertons eram assim. O primeiro Pikerton foi escolhido pelo próprio Abraham Lincoln para organizar o serviço secreto no país (.) -------, mas, para mim, ler os jornais no meio da minha campanha presidencial era um pesadelo de amor não correspondido com o eleitorado: meu adversário político prometera acabar com o IRS e eu não tinha sido capaz de retrucar nada além de que aquilo jamais prosperaria. ------- Se o país de cada um vive como uma mulher nalguma parte da vida onírica inconsciente de cada um de nós (eu disse à Sarah) , se por baixo de todas as nossas críticas e repugnância pela vulgaridade da América, mau uso do poder e pomposa estupidez, existe ainda algum caso amoroso otimista com as potencialidades secretas desta nação, alguma fé profunda e muda de que a natureza da América é fundamentalmente boa,, e não má, bem, diria que essa fé foi alvejada a tiros na último mês de campanha (.) -------, entretanto, sugeri à ela que havia ainda algum interesse em tentar ser racional, mesmo que fosse apenas para descobrir a inexistência de lógica na situação: ---- Nos últimos vinte anos o mundo financiou um défict comercial crescente dos Estados Unidos. Países emergentes acumularam trilhões de dólares em reservas internacionais e fundos soberanos enquanto a América mergulhava num défict nunca antes visto. Importamos com tanta volúpia que um leigo qualquer pensaria que estávamos possuídos por um assomo de astúcia econômica. E agora, quando muitos propagandearam estarmos sonhando nosso bom desempenho, alguém veio bater à porta: O Menino Carrasco de Pollock (.) ---, pelo menos, na ausência de pessoas capazes de explicar o assunto, aquilo era uma tentativa direta de compreender sobre o quê o problema transpirava. ----- Insisto, porém (continuei) que a lógica que eu emprego aqui aproxima-se muito da argumentação teológica, pois estou tentando falar racionalmente sobre um mistério. A abertura comercial nos fez perder muitos empregos qualificados na indústria em benefício da elite financeira do país. Portanto, é possível imaginar o tipo de Paraíso que Wall Street enxerga nesse terreno baldio: torres envidraçadas na névoa marinha, a relva importada do Japão coberta pelo sereno da manhã, as piscinas rodeadas de gardênias onde as garotas de programa expõem seus belos corpos ao sol; e todos os escuros serventes mexicanos bordando camisas turísticas enquanto murmuram ''Sí, Señor '' : montes de ''wetbacks'' cruzando a fronteira em busca da nossa crescente desigualdade de renda e achatamento salarial progressivo. O Paraíso...


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