Durante o vôo para San Francisco, percebi que todos permaneciam bastante céticos em relação a mim. Eu, por sinal, também não poderia contentar-me com uma paz de espírito feita de coisas como a ''Evolução da Lua '', os ''Espíritos do Fogo'', os ''Filhos da Vida'', com a ''Atlântida''; mas o órgão da Flor de Lótus da percepção espiritual e a mistura de Abraão com Zaratustra, ou a vinda conjunta de Jesus e Buda num único Ser cósmico gigantesco, me eram no momento muito caras. No ar, eu desenhava mentalmente a Califórnia em chamas: uma enorme gravura de estilos arquitetônicos, desde o egípcio ao colonial de Cape Cod. Para os estrategistas do meu oponente, eu estava usando os inumeráveis esboços políticos necromânticos que fizera de gente que viera até Los Angeles para morrer por uma causa; todos aqueles pobres diabos que só podiam ser agitados espiritualmente pela promessa de milagres econômicos; e, depois, apenas por uma boa dose de violência policial . Mas, afinal (pensava), eu também fizera minhas promessas de milagres econômicos, apenas não havia mentido tanto quanto meu adversário; e, agora, uma multidão marchava à sombra do meu estandarte para Los Angeles, numa grande frente unida de excêntricos e fanáticos, enquanto eu tinha optado em ir para San Francisco, hospedar-me no Hilton. Ora, era a mais bela cidade dos Estados Unidos, mas, como todas as cidades americanas, era uma vítima da guerra espiritual não declarada que a tinha feito vir perdendo a beleza ao longo dos anos. Empresas de construção civil monstruosas, em combinação com monstruosos corretores de imóveis, edificaram monstruosas caixas de Kleenex de vinte, trinta, quarenta andares, por toda a zona central, e o novo panorama, no século XXI, desde o Telegraph Hill, tinha cacos de vidro do tamanho de montanhas espetadas na suave paisagem italiana de San Francisco. O Hilton não andava longe de ser um paralelepípedo das dimensões de uma quadra e, visto da rua, parecia ter as proporções e a forma de um cubo de açúcar. No avião, eu pensava em tudo isto como a perda irreparável de companheiras de bordo devoradas pelos Cíclopes. Imaginava o cenário humano da Califórnia como um campo de batalha . Depois, me indagava pela jornalista que tinha visto pela última vez tomando um avião em Idlewild, com suas longas pernas claras, cabelo preto cortado curto, sua maquiagem, seus brincos e seus óculos.... eu dizia à ela, na ocasião, que através das vibrações e ecos psico-magnéticos de tudo quanto pensamos, sentimos e dizemos ao longo do dia, nós nos comunicamos (enquanto estamos dormindo) com os seres da hierarquia Cósmica; mas, que agora, nossas cabriolas diárias eram tão vis, nossas preocupações tão mesquinhas e egoístas, a linguagem humana se tornara tão degradada, as palavras tão toscas e danificadas, estúpidas e obtusas, que os seres mais elevados ouviam unicamente murmúrios, grunhidos e comerciais de TV ------ coisas do nível de comida de cachorro. ------ Que prazer (eu perguntara à ela) estes seres elevados podem ter com semelhante mostra de materialismo, desprovido de poesia e altos propósitos (?) Resulta daí que tudo que podemos ouvir enquanto dormimos são rangidos, assobios, conversa mole, o sussurro das plantas e o barulho do ar condicionado. Assim, nos tornamos incompreensíveis aos espíritos elevados da Hierarquia (.) --, obviamente, este tipo de conversa não podia ter lugar ali, pois um Power Astroject de campanha não é o veículo apropriado para transações metafóricas, no fim das contas era mais uma das câmaras de extermínio da mente humana do ´seculo XXI (lentamente, a ventilação renunciou a uma parcela microscópica de si mesma e a aeromoça trouxe minha garrafa de 43 gelada; plástico verde e plástico cinza-prateado: os copos. Minhas narinas não inspiravam qualquer odor de materiais que já tinham existido uma vez como elementos da natureza: madeira, metal, pedra, dessas que o tempo desintegra como elementos embebidos em água. Meu estômago: búfalo, bode. Mas Rostiff (um de meus assessores) era filho de pais australianos e estava fascinado com a América e tinha todos seus comentários na ponta da língua, alguns provincianos demais, outros de pura perspicácia. Finalmente, ele pôs o dedo em algo que eu nunca decifrara totalmente de maneira satisfatória: ------- Porque é (perguntou ele) que todas as coisas novas que vocês constroem na América, incluindo o recheio deste jato aqui, tem o ar de enfermaria de crianças microcefálicas ? ------, tomei um bom gole de licor dourado, e disse: ---- Rostiff, eu já lhe contei como levava minha garotinha para ver os castores lá no Colorado, certo (?) Ao redor do lago inteiro o Serviço Florestal afixava cartazes de história natural a respeito do ciclo vital do Castor. Os castores não ligavam a mínima para isso, . Continuavam a mascar, nadar e ser castores. Mas nós, castores humanos, ficamos sempre chocados com nossas próprias descrições de nós mesmos. Faz-nos um mal imenso ouvir o que ouvimos de nossa própria boca. De Kinsey, Masters ou Eriksen. .. Lemos a respeito de crise de identidade, alienação, etc... e isso tudo nos afeta, certo (?) ----, e assim era, de fato, o interior de nosso avião: como uma enfermaria para criancinhas microcefálicas, toda de plástico, fórmica, sei lá, uma saleta na ala da microcefalia... e se eu fosse o Barão Giulio Andrea Cesare Evola, poderia ter respondido: ''Porque não queremos voltar atrás, porque os nervos cresceram em todos os sentidos errados. Porque contraímos hábitos que nos sufocaram de morte. Sou eu quem lhe diz, meu caro, fazemos assim porque nascemos todos com microcefalia, somos uma nação de doentes mentais, estamos nauseados a ponto de começar o dia vomitando por todos os lados, de modo que construímos nossas vidas com materiais que cheiram a vômito, polietileno e baquelita e vidro sintético e estireno. Agora, quanto ao seu ensaio para o Los Angeles Times que voce me mandou -- acho que está bem aqui na minha pasta ------- , no qual voce oferece uma interpretação econômica de excentricidades pessoais. Nele, você argumenta que pode haver uma relação, na etapa particular do capitalismo que estamos vivendo, entre a diminuição das oportunidades de investimento e a procura de novos papéis ou envoltórios de personalidade . Voce mesmo citou Schumpeter: ''Estes dramas podem parecer puramente íntimos, mas são talvez determinados economicamente... quando as pessoas pensam que estão sendo tão sutilmente inventivas ou criativas, refletem simplesmente uma precisão geral da sociedade em matéria de crescimento econômico ''.----, na verdade, era muito fácil para mim citar grandes idéias dessa natureza: as conhecia todas, essa minha fraqueza volúvel, meus opositores a invejavam doídamente. Queriam apenas um lugar no panteão seleto da Mente Divina para exercerem uma função preponderante como Albert Schweitzer ou Arthur Koestler ou Sartre ou Wittgenstein em suas respectivas épocas e circunstâncias. Rostiff acreditava em análises jornalísticas vitoriosas, equivocando-se em preferir ''idéias'' ao invés da poesia: fôra preparado pela universidade e o meio social para dedicar-se ao universo mesmo através do submundo dos mais elevados valores culturais. Bem (eu pensava) isso era capitalismo americano lucrativamente empregado. Ganháramos quase todas as guerras, certo ? E em tantos lugares diferentes que podíamos imaginar as nossas estadias em hotéis caros antes mesmo de chegarmos até eles. Não parecia um privilégio hoje em dia, porque ninguém mais explodia as coisas por aí. Essa era a natureza de um povo promíscuo. Voando no jato, rumo ao Oeste, ainda não no San Francisco Hilton, mas sabendo que estaria lá, são e salvo, imune à qualquer atentado à bomba, entrei naquele bate-papo com Rostiff, um jornalista australiano ou coisa que o valha, que antes de descermos do avião repreendeu-me por ter lido o livro de Buchanan ''Who Killed Kennedy (?)''. Ele queria saber porque um homem da minha inteligência se dava ao trabalho de ler tais porcarias.
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