Meu quartel-general estava, obviamente, a grande distância de qualquer senhora republicana úmida embaixo: ocupava o trigésimo quarto e o trigésimo quinto andares do M.M. Nymphenburg Tower, e não era fácil para ninguém penetrar ali. Os elevadores principais requeriam uma espera de mais de quarenta minutos para quem quisesse subir. O trajeto alternativo era subir primeiro à loja de artigos de Sky-Surf, enfiar-se pela cafeteria e alcançar o ascensor de serviço. Uma lata de cem litros semi-cheia de detritos do almoço e lixo hospitalar estava espetada na parede ao lado da porta do elevador de serviço. Uma vez que se chegava lá, o trigésimo quarto e o trigésimo quinto ofereciam um espetáculo de imundície ao visitante. Mas um quartel-general político (consolava-me) nunca é asseado: pilhas de papel, copos de plástico amarrotados, carbonos de máquina de falsificar notas de dólar, manuscritos espalhados pelo chão, cartas de baralho sujas de sangue, uma pistola automática, paletós em cabides de arame farpado, telas pintadas pela metade abandonadas em cavaletes de ossos humanos e narguilés cheios de ópio ------ Um quartel-general político (pensava eu ingenuamente) é igual à redação de um pequeno jornal; Mas meu quartel-general era (de fato) mais sujo que a maioria deles. Havia acumulação de detritos literários como o de lixo na orla de uma maré cheia na praia. Os braços da minha cadeira estavam cobertos de cinzas de cigarro, e os sofás tinham o aspecto de sofás de cem dólares para casais de classe-média baixa recém-casados, com a sujeira de um dia de mudanças. O ar tinha o cheiro asfixiante de spray de desodorante com guimbas de cigarro na sala de espera de uma grande estação de metrô. Ninguém no trigésimo quarto e trigésimo quinto andares tinha alguma coisa que ver com o ambiente circundante. ''Um quarto (consolava-me mais uma vez) é apenas um lugar com uma mesa, onde se faz algum tipo de trabalho (.)''. Ali, em horas de notação com a consciência dos sentidos, eu me admirava no espelho, pensando o quanto eu era americano... entre outras coisas . E, de repente, soava, atrás da porta, a vinda metafisicamente abrupta do moleque de recados pró-Trump. Ele jamais o confessara e eu sentia que (a cada vez) o poderia matar por interromper de súbito algo que eu nem sequer estava pensando. Voltava para ele sempre com um olhar de ódio, escutando por antecipação, numa tensão de homicídio eminente, a voz que ele ia usar para me dizer alguma coisa falsa, por trás da qual escondia seu verdadeiro voto. Ele sorria do fundo do escritório e dava-me as boas-tardes em voz alta. Odiava-o como ele me odiava, como odiávamos todos o Universo. Em primeiro lugar, assim que ele saía e eu voltava aos meus papéis, consolava-me adotando o ponto de vista de que os Estados Unidos eram uma terra feliz e materialmente de sucesso, e que eu não precisava ficar enchendo minha cabeça com problemas a todo minuto, e era perfeitamente possível ( no momento) dispensar a cultura dos bem-educados e bem-nascidos sem ideais e aspirações. O famoso Santayana concordava comigo em parte: os bem-educados e bem-nascidos que os tinham, não podiam realizar seus ideais e sentiam-se muito infelizes. A América bem-educada e bem-nascida tinha a desvantagem da pobreza de espírito, da fraqueza de caráter, e da escassez de talento. A jovem América da propaganda política do meu oponente aspirava apenas ao conforto, aos holofotes das premiações midiáticas, à velocidade automobilística, aos aeroportos, à boa disposição de ânimo, à saúde e bom humor demente, futebol americano e funerais militares festivos e emocionantes. E então, ao descer até a ruano final da tarde, percebia que o Sonho Americano tinha apenas grandes cinemas lotados e mais nada; era uma rua irreal, baixa, barulhenta, em que a realidade daquelas vidas que nunca chegavam a realizarem-se atava-me, com um carinho visual vazio e sem sentido, a cabeça num tampo branco de reminiscências falsas. Eu era o navegador desconhecido de si mesmo, vencendo tudo onde jamais estivera na vida; e era uma brisa nova esta sonolência com que eu podia andar naquele momento, curvado para frente numa marcha sobre o impossível. A época de agradável exuberância e de dar duro, e de artes práticas e técnicas estritamente ao serviço da vida material, havia encontrado seu atoleiro final. Até mesmo meu adversário político não era mais feito apenas de negócios: sentia agora impulsos metafísicos sempre que olhava para sua esposa tomando banho na banheira de hidromassagem.
Nenhum comentário:
Postar um comentário