De como me tornei um poeta de Direita, de Esquerda ou de Centro, de acordo com quem esteja falando comigo.... Evidentemente, não existia a grandiosa cidade do meu sonho. Apenas uma situação em que o candidato adversário devia obter dinheiro da máquina republicana e os votos da Direita e da Esquerda. Todo homem que conseguisse governar a mente de um candidato como aquele (eu pensava) devia ser um gênio indiscutível, mas eu não via nenhum: apenas uma combinação de qualidades que desembocavam na confiança cega, a mesma que a Igreja um dia elogiou como virtude suprema, ainda que um ''lógion'' (dito de Jesus) declarasse: '' Estote ergo prudentes sicut serpentes '' (Sedes prudentes como as serpentes), e a própria Bíblia, como é sabido, realçasse a ''calliditas '' (prudência da vida, esperteza) e a ''astutia '' (astúcia) da serpente. E onde é que melhor eram desenvolvidas e cultivadas essas propriedades necessárias, mas menos dignas de louvor? Num debate, não mais do que isso, Senhoras e Senhores. O candidato adversário não tinha se tornado em vão um dos maiores polemistas da América: a serpente havia atocaiado-o, tornando-o como que o resumo e a soma condensada do ''moralmente horroroso'' ----- uma semana mais tarde, estava ele fazendo as mesmas acusações, estourando os mesmos fogos de artifícios, e suas palavras agora eram aplaudidas por mais de meio partido. Tratava-se do progresso sem tréguas do desenvolvimento de uma imagem forte, cuja força propulsora ultrapassava de longe o horizonte do indivíduo; nesse desenvolvimento , o indivíduo, no máximo, conseguia marcar passo e tentava compreender a si mesmo tanto quanto necessário para não deixar-se tragar cegamente e expor-se à ruína da fé cega. Pois o debate é uma arte sumamente difícil, mas de baixo nível, visto depender de os interlocutores serem escrupulosamente parciais: descreviam-se ali os fatos fantasiosamente e jogava-se a suspeita de fantasia para os fatos do oponente. No caso: eu. E ninguém na América parecia ser melhor nesse jogo que meu adversário, assim como ninguém (eu pensava) era mais espetacularmente inadequado para vir a se tornar o próximo Presidente. Para sermos justos, devemos dizer também que ninguém estava mais espetacularmente adequado para estragar minha campanha: o contato com a Serpente havia dado a meu adversário o conhecimento da ''metade fria'' do jogo político, e agora o proclamava aos quatro ventos: a personalidade dele era a mais elevada instituição que poderíamos encontrar no espaço de um programa de auditório: nenhum outro ator no mundo podia projetar lampejos simultâneos de que está representando os papéis de Comodoro do Iate Club, Joseph Goebbles, Robert Mitchum, Maverick, Savanarola, etc... Mas onde não havia luz para compreender aquelas Trevas, alguém precisava esforçar-se na escuridão e desmascarar o falso brilho do ''olhos de peixe'' da enorme votação minoritária. A iridescência do tumor maligno da América, pois as células cancerosas são bizarras num boletim médico, mas belas sob um microscópio ----- parecem um shopping center todo iluminado de noite. Claro, os meus votos não provinham do gênero de moças que querem arrumar um emprego no Bell Telephone; mas se eu o derrotasse, teria sido a Loja quem o havia derrotado, e não eu, pois uma secreta admiração pela Loja tinha aberto meu caminho através da justa cólera de todos nós, cidadãos americanos da era atômica, apáticos sobre o monturo de concreto e aço refrigerado em que vivíamos, rindo de nosso adversário, rindo com ele, e dizendo : ''A grandiosa cidade do sonho americano que arda em chamas (!) Deixaremos um grande fogo a consumir.. certo (?) e nosso adversário vai por um mau caminho, um pouco solene, um pouco vazio como todos nós, demasiado otimista e opinioso (.) ''. Bem, concidadãos eleitores, invoquemos o Senhor. Eu me sentida em 1960, quando subi naquele palanque. Juro! Alto, culto, inteligente, um pouco apagado, indiferente, ligeiramente chato como orador, a cabeça repleta de fatos e estatísticas, uma chama baixa no estômago (meio Big-Mac e dois dedos de coca) e o ar nem um pouco perplexo de quem sabe que está totalmente por fora do negócio real. Isso resultava (pensava naquele momento) do reconhecimento esquizofrênico de que eu era um homem isolado numa torre de marfim , tentando lutar com as relações entre milagres (pois de que outro modo poderiam os políticos aparecer por cima ?) e de que o significado da aquisição do poder para sair por aí e salvar o mundo ( pois é essa a glória secreta e a ambição de um político de envergadura) só pode ser apreendido falando a respeito de tudo o que não tem relação alguma com milagres, ou sociedade, ou mesmo com a gente, mas que, pelo contrário, se traduz em estatísticas, programas, relatórios de situação e truques de tribunos, e serenas ovações bem cronometradas, e alegações, apertos de mão e, pior de tudo, dizer a mesma coisa dia após dia, até que nossas almas comecem a morrer, porque a repetição (Senhoras e Senhores) mata qualquer alma, e mesmo quando já declina e os gestos ficam vazios e a retórica mais cacête, ainda assim permanece algo revelador, naquelas grandes regiões celestiais do profundo vácuo cerebral, lutando com a maravilha de como se cria um milagre: ----- A Revelação do Espírito ( eu disse ao microfone) fornece apenas verdades gerais, meu povo, que muitas vezes em nada esclarecem a situação concreta; como a vida humana não se realiza exclusivamente, nem sequer em parte considerável, nas alturas das Verdades Eternas. No âmbito civilizado basta aparentemente ''ter razão'' e um pouco da ''inteligência dos Senhores da Luz ''. Lux in tenebris lucet, quae tenebras comprehendit (.), então estarão desfeitas as Trevas, pois então estará satisfeito o desejo que as Trevas têm da Luz. As Trevas tem, no entanto, seu intelecto próprio, que deve ser levado muito a sério. Tudo o que as Trevas pensam por si mesmas é tenebroso: por isso elas somente podem ser aclaradas por algo inesperado, imprevisível, involuntário, oceânico e incompreensível.
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