sábado, 14 de maio de 2016

Criar foi sempre coisa distinta de comunicar.



Criar foi sempre coisa distinta de comunicar. O importante talvez venha a ser a criação de vacúolos cada vez mais cintilantes de não-comunicação, interruptores, abismos, blackouts por onde escorrer subconsciencias alertas, para escapar do controle. Eu não me lembro bem exatamente PORQUÊ voltei a falar, uma vez que já pensava assim desde os dezessete; mas eu me lembro QUANDO e ONDE: foi em meados de 2010, a escada do restaurante estava enfeitada com rosas nos tres lances inteiros. Vasos nos aparadores e suportes cheios de flores flagrantes... e sujeitos de olheiras, gordos, experimentando uísque escocês . Por volta da meia noite, anunciaram o jantar. No menu, carnes frias, saladas, parma, galantinas tremendo em reclusão geleificada e uma infinita variedade de ''à las'' servidas em mesas laterais, deixando a vasta expansão de carvalho entalhado com talheres de prata, porcelanas e rendas para as flores que despejavam de altas épernes de prata no centro até o buquê ao lado de cada prato; frutas, bolos em pirâmides ou camadas ou apenas delícias sólidas, geladas e ornamentadas; molhos, tortas, geléias, creme, charlottes russes ou bolo esponja feito em casa cobertos com geléia de framboesa circundando um verdadeiro Mont Blanc de chantilly pontilhado com as estrelas de cerejas vermelhas; torres de nougat e caramelo, sorvetes de água e sorvetes de creme servidos em cestinhos entretecidos de casca de laranja cristalizada com étalas de rosa ou de violetas açucaradas por cima... Diversos vinhos em jarras de cristal lapidado, cada uma com seu nome gravado na folha de uva de prata pendurada na alça; champanhe gelado habilmente servido por garçons em cálices riscados a ouro ou de cristal da Boêmia... Iluminando tudo, velas de cera em candelabros de cristal, e na mesa, em candelabros de prata. Quando os últimos clientes estavam indo embora, apareceu um prato de quiabos quentes, uma xícara de café forte e lembranças encantadoras de uma noite na praia para alimentar meu cérebro até que eu chegasse em casa, de táxi. Cheguei em casa e escrevi (o baseado queimando no cinzeiro: ------ Existe a forma, a forma fantasmagórica, que inclui toda a evolução , toda metamorfose, todo ente heideggeriano, todos os brotos de germinação e todos os rizomas, todos os brotos de aborto, de difração, de deformação, de morte e renascimento, de semente, de âmnio, matriz e pós-nascimento. Existe clima e atmosfera, frente fundo, as profundezas aquáticas e as recessões astrais: existem estações, climas, temperaturas, passeios e hecceidades; existem categorias e departamentos, lógica dentro da lógica, certezas firmes como o gelo, e depois bancos de névoa, limo e dunas, lodo e detritos, ou apenas ozônio vertendo do gargalho de uma garrafa sem tampa. E, como se tudo isso já não bastasse, existem o louco número, as memórias pleistocênicas, as fugas e os subterfúgios placentais. Lembranças penduradas por um fio de cabelo que ao morrer dá origem à insetos; rostos que queimam em luminol, lançando luz histérica sobre problemas celulares; nomes refluindo a fontes letais, reverberando como harpas torcidas; palavras embutidas em linfa que caem em frutas quentes e formam cascatas selvagens em distantes países sem nome; pássaros que pousam entre seus olhos apenas para chamuscar as asas e vapores que sobem das artérias e congelam em teias de mica fosforescente, que nenhuma dinamite pode explodir. Um pouco adiante assoma o rosto da amada. Devagar, como febre, a nebulosa chega. Um luar que satura o céu vazio. Profundezas entalhadas cintilam entre paredes de precipício. A glossolalia final sobe ao trono.

K.M.

Nenhum comentário:

Postar um comentário