domingo, 15 de maio de 2016

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Hamlet diversas vezes faz referência à razão corrompida em sua essência, que atinge a raiz dos seres, como diante de Ofélia: ''------- Enxertem virtude na velha cepa, pois o sabor acre perdura no ar '' (III. I. II. 7.8 ). Por esta lógica anti-racionalista, chegamos ao seguinte ponto: estamos perante a mais absoluta ausência de questões políticas reais e imediatas. O sex-appeal das atuais eleições americanas só se sustenta por um holograma midiático diário obcecado com o vazio dos candidatos, cujas picuinhas são transformadas por belas bocas cheias de batom em assuntos sérios. Assim é que o americano comum terá que votar num candidato que é um nêutron, ou terá que votar num outro porque é um princípio ativo que crescerá, transformar-se-á e converter-se-á num poderoso líder democrata ou republicano. Equacionada a questão dessa maneira, ''ela '' decidiu que votaria pela segunda alternativa. Votaria no princípio ativo . Disse que votar num candidato porque ele era um ''neutro'' era votar na praga, no flagelo. Preferia votar num homem que supunha ser um herói e constatar depois que ele havia se tornado um monstro ou se revelado uma farsa (um frouxo), do que votar num candidato que não prometia nenhum heroísmo, apenas o bom e velho adubo monótono do crescimento econômico enquanto vício de engenharia ortodoxa. Ela era ainda mais precisa: prefiro um herói fracassado, e mesmo um anti-herói de berço, como parece ser o caso, do que um candidato que simplesmente alcança o poder e permanece impassível e compenetrado em suas metas imutáveis. Disse à ela que ''Uma poderosa estrutura política com uma quantidade enorme de heróis particulares era uma forma sábia de descrever o Renascimento, mas que uma poderosa estrutura política governada por homens sem rosto era uma forma superficial de descrever a Máfia (.) '' 'O voto dela iria, portanto, para o princípio ativo : ''Ele tem um rosto (.) '', ela disse. ''Uma palavra mais '', protestei: ''pois pouco votam apenas por ditames tão brandos de logica. O sentimento pessoal de fato entra aqui com um forte apelo. Ela tinha afeição pelo seu candidato: acreditava que alguma coisa havia penetrado nele de noite, enquanto dormia. Pensava que ele já havia percorrido uma grande distância desde aquele bilionário principiante que costumava bancar o promotor distrital dentro da própria empresa e conseguia manchetes por morder as canelas de um bando de vadias. ''Será possível '', eu me perguntava ''que ela veja algo de compassivo, restaurador ou sábio naquela fisionomia hilariante (?) '', eu mesmo simpatizava um pouco com a figura dele (admitia), mas da mesma forma que simpatizava com a figura de Judas ou de Mussolini. Algo de vigoroso, de enérgico e até mesmo de solitário (?) Era o que ela pensava. Mas era sobretudo o que ela sentia, já que não havia muito sobre o que pensar. E talvez ela estivesse errada, mas preferia pensar assim e votar errado do que votar de outro modo, tentando sustar uma possibilidade falsa e demagógica com uma realidade excessivamente sóbria. Na verdade, quando o que está em jogo é de tão puco monta quanto a presidência dos Estados Unidos, é natural querer (ao menos por um momento) votar no candidato que tem a personalidade mais ''carismática'' e ''dominadora''. O desejo de atualização unido ao temor da moda neutraliza assim a atualização e encoraja a moda. Assim ela espera obter a realização de um de seus desejos profissionais: uma graça não-ignóbil de balé permanente da inteligência crítica. E isso realmente teria acontecido, caso o desenvolvimento dos meios de comunicação de massa não tivessem introduzido no jogo um novo elemento: o ciclo IGNORÂNCIA-INFORMAÇÃO-CONSENSO-MODA-REPÚDIO. Apenas a velha tese política da ''cara nova '', que mais de uma vez na história fez NY pôr fim num certo estado de coisas (ficando estabelecido que, nesse caso, as subdivisões entre classe hegemônica e proletariado seguem aqui linhas de separação de águas que não têm necessariamente relação com a realidade econômica. Não, nenhuma... Eis então porque pode ser interessante seguir, ao longo de uma ou duas décadas, o nascimento, a permanência e o desgaste de uma série de modas políticas que nunca levaram à nada. Tal permanência (ou repetição cíclica, se preferir) é testemunhada por tiques, citações, insultos, intrigas, baixarias, aberrações, complôs e manipulações de gêneros variados, envolvendo todos os seguimentos da sociedade. A  volubilidade do eleitorado inculto e sua dolorosa incapacidade para fazer germinar idéias próprias, sugestões próprias, linhas de pesquisa próprias, temáticas próprias, problematizações próprios, dá uma noção da miséria do povo americano. Como já sucedeu uma vez, quando o que estava em jogo era igualmente de pouca monta, , a América elegeu Jack Kennedy. Claro, como se recordarão, J. Kennedy não era então imensamente popular em N.Y. . Tinha um duvidoso passado liberal e parecia imprevisível. N.Y. votou nele, mas não gostavam dele. Em New York preferiam votar apenas para pôr fim num certo estado de coisas. O obscuro episodio da palavra ''alienação'' serve para se demonstrar o que se queria de fato: um ''termo'' venerável, um dado econômico que os especialistas pudessem manipular por conta própria sem traumas, que de repente virasse moeda corrente de toda uma geração de políticos. Não é isso , pois, metade do que chamam de ''' bem-estar'' de uma sociedade liberal (?) : ter alguma coisa nova para se discutir o tempo todo nos noticiários e durante as refeições (?)

K.M.

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