Nos meses seguintes, quando o touro que havia dentro do meu oponente resfolegava com excessivo ímpeto e prometia falar de novo sobre terrorismo internacional, e sobre as Medalhas de Honra que pretendia distribuir aos Mariners, enviavam o Senador socialista para acalmá-lo. A Internacional socialista, como a cabeça da Hidra, ainda não morrera, afinal de contas. Era a bandarilha mais opaca de que se tinha notícia para tentar vergar o boi. Pobre oponente... tentara me desprestigiar em Cleveland, dizendo: ------ Cada dia que passa, esse K. fica mais parecido com Harold Stassen (.)-------, contudo, ele não era tão vaidoso quanto parecia, e sabia (inteligentemente) perder uma pequena batalha com tanta facilidade quanto uma esposa feia e sem perspectivas aceita facilmente o divórcio. Olhando para mim de uma posição bem abaixo da tribuna dos oradores, era indiscutível para ele, suas lindas esposa e filha, que eu tinha uma figura tão atraente quanto a de um homem que tivesse acabado de ganhar as quinhentas milhas de Indianápolis e aparecesse de surpresa numa festa. Ele, por sua vez, também estava até elegante, respeitadas as proporções. Comecei então meu discurso. Naquele instante, toda a América percebia que a voz modulada especialmente para as grandes multidões tinha mais dignidade do que nunca. Em todo caso, não era uma grande VOX com a grandeza da voz de Churchill; não havia, na minha, aqueles acentos de majestade, nem os vendavais de complexidade da minha escrita, nenhuma guerra de estilo entre o modo e a obrigação de dizer a verdade, mas era uma voz equilibrada e máscula que conquistava votos. Meu discurso (segundo a imprensa ) tinha sido muito bom no início: ------- Ora, meus compatriotas americanos, a maré tem corrido contra a liberdade... Nosso povo tem seguido falsos profetas midiáticos... Devemos fazer e faremos com que a ma´re corra de novo favorável à liberdade... cada alento e cada pulsação de nossos corações só poderão ter uma única determinação, que é a liberdade.... Esta noite, há uma violência incontrolável e imprevisível em nossas ruas, corrupção nos mais altos cargos, ausência de objetivos entre nossa juventude, , inquietação e doenças horríveis entre os velhos... desespero entre os muitos que olham para além do êxito material, em busca de um significado mais profundo para suas vidas (.... ------, mas acho que, enquanto meu discurso prosseguia, meu espírito perdeu-se de novo numa conjectura de que, mesmo assim, meu oponente era capaz de derrotar-me. Ora, ele era um impostor ---- minha idéia de liberdade não estava sequer próxima da idéia de liberdade dele, nem da velha idéia de William Knowland, nem da ainda mais frágil idéia dos Pinkertons, nem do geist obtuso do F.B.I. Meu oponente era um demagogo, mas também era bastante sincero. E aí estava a maldita dificuldade: um homem que inventou seu próprio mastro de bandeira para içar e manhã na sua torre e arriá-la ao pô-do-sol ---- tinha um instinto certo para chegar ao âmago das doenças que afligiam a América: sabia como levar uma espécie de bálsamo ilusório e fantasioso aos eleitores desvairados do interior, ou , igualmente, aos semi-loucos da mídia política; em todo caso, ainda teria muito o que aprender sobre os negros e os latinos, essas duas quimeras de sua imaginação. Mas uma coisa era certa: podia me derrotar. Em suas últimas projeções midiáticas, apresentava-se como o ganha-pão, o marido e o sustento dos sub-privilegiados da psique; acenderia uma chama em muitas almas áridas vitimadas pelo desemprego, oferecendo uma libertação das frustrações bem mais profunda do que a política. Independente do teor alucinatório de seu discurso, ele podia derrotar-me; poderia bater-me nas eleições por uma infinidade de causas, mas não por dilúvios ou ciclones naturais (essas eram armas só minhas), e sim por epidemiais de recuos estratégicos ou epidemias de culpas... quantos trabalhadores sindicalizados , cheios até o nariz com exortações de que meu adversário era bom para o negócio dos salários, se levantariam para dizer: ''JÁ FUI FELIZ COM MENOS (!)''. Com efeito, eu sabia que ele poderia ganhar por que qualquer coisa segredava essa informação dentro de mim ; uma parte de mim, o Demônio, se quiserem, desejava fazer essa constatação de forma crônica. Pois se meu oponente fosse eleito presidente, uma nova oposição se formaria, uma clandestinidade ------- o tempo das milícias e exércitos secretos poderia estar próximo de novo.... Mas quando o Demônio se calava, meu pensamento lúcido dizia: ''Meu Deus, concedei à América mais oito anos de Kalki-Maitreya (.) '', e logo uma náusea subia em qualquer recanto da minha garganta, o meu estômago não era suficientemente forte para suportar essa segurança; e se era verdade para mim, era verdade para os outros, verdade, talvez, para metade ou mais dos votos de uma nação. Entretanto, e o totalitarismo ? E a guerra ? Sim, e a guerra? E logo a resposta vinha de todos os lados: talvez fosse melhor estar um pouco mais próximo da morte do que esta agonia da alma, morrendo cada noite no cerco de plástico da nova arquitetura política e das novas cidades exaustivamente repensadas (sem resultado algum para a segurança pública ) , sim, melhor, se a morte tivesse grandeza e pudéssemos olhar na cara do inimigo, deixando-o com uma maldição. Que benção (!), conhecer o rosto do inimigo logo no primeiro quarto do ´seculo XXI (!!!
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