quarta-feira, 11 de maio de 2016

DÊ-ME SEU PERDÃO...



Como sempre, a atitude de Hamlet para  com Laerte está marcada de ambiguidade. Quando, na cena anterior, lamenta diante de Horácio ter iniciado o conflito com Laerte, ele lembra, mesmo assim, que ficara repugnado com a ênfase do discurso de Laerte. Agora, se não há (strictu sensu) duplicidade, o discurso de Hamlet soa estranhamente artificial, lançando mão do argumento da ''loucura'' e da perda da identidade própria, que o teriam levado a cometer os crimes anteriores. A primeira questão é que espécie de loucura é a de Hamlet, pois não é a perda total da razão,  a alucinação pura e simples que encontramos em Ofélia (NYT). Somente isso torna seu argumento falso em parte. Conhecemos bem a teatralidade de Hamlet, e eis aqui talvez mais um de seus momentos. O que é notável é seu estilo ''lógico'', desfiado por meio de frases condicionais e que, em certa medida, repete a lógica do ergo (logo) dos coveiros, um estilo que não traz nenhuma atenuante emocional, nenhuma palavra de piedade. Sua frieza é óbvia, beira o autismo, e não dá de modo algum a medida do pesar de Hamlet. Essa percepção, contudo, deve ser colocada num contexto em que Hamlet esteja talvez consciente da trama montada, o que faz de seu pedido um discurso fadado ao fracasso.

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RECOGNIZANCE...

Em termos jurídicos, a ''recognizance'' é um contrato que cientifica o reconhecimento de um débito, e o ''statute'' assegurava o débito incidindo sobre as terras do devedor. 

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FINE...

''Fine'' é uma ação que leva a um acordo que se chamava ''Finalis Concordia''.

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RECOVERY...

A ''Recovery '', por sua vez, era um processo para obtenção da posse.

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FINAL...

Todos estes eram procedimentos necessários para efetivar a transferência de domínios. No fim da sequência, contudo, ''Fine'' passava a ter sentido de ''Final''.

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Nada disto deveria ser tratado telepaticamente, e sim à maneira do dinheiro: clássica. 

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