DUMB SHOW...
Nem reality show, nem talk show, mas Dumb-show. O Dumb-show era uma espécie de pantomima ambígua e sugestiva da primeira geração de dramaturgos elisabetanos, com origem nos gêneros teatrais medievais, que encenavam desde burlas até assuntos bíblicos. Na sua forma característica, o Dumb-show devia ser exagerado na expressão, marcado por um denso simbolismo, gestos tipificados e apelo alegórico. Esse gênero foi transposto para o ambiente do teatro londrino de modo gradual e comedido. Em Gorboduc, de Thomas Norton e Thomas Sackville, encenado em 1561-2 no Inner Temple, o Dumb-show era uma representação alegorizada que trazia uma espécie de ''mensagem cifrada''. No nosso Hamlet atual, por sua vez, onde o sangue de centenas de gerações divinas entrou em ebulição, há um homem que dedica sua vida à enlouquecer um povo com sua mensagem, alegando aos que não a compreendem que até os sons irracionais do globo devem ser outras tantas álgebras e linguagens que, de algum modo, têm suas chaves correspondentes, sua severa gramática e sua sintaxe cósmica, e que assim as mínimas coisas do universo podem ser espelhos secretos das maiores. Enquanto a crítica (que aqui é o coro) se pergunta sobre sua função dramática, e assim frequentemente se perde, o Dumb-show de nosso Hamlet continua fervendo com a força dos acontecimentos que ocorrem, sincronicamente, a milhares de quilômetros de onde ele se encontra, ameaçando tornar-se cada vez mais implacável, de crescer continuamente não em liberdade, mas em força, devendo exigir mais e mais, cada vez mais, antes de o coro ter recebido dele alguma coisa. ------ Esse é outro aspecto do horror (nos diz ele, H.) : violência, náusea, ambição, artimanha, raiva, rancor, musgo, Direita, Centro e Esquerda, e tudo com pretensas origens na paixão e na lealdade à Deus, no idealismo profético, nos princípios da vidência ocultista, onde jazem todos os elementos para construir o novo mundo e atrair os favores da Cidade Celeste (.) ------, aqui, prossegue o personagem, aparentemente inspirado por um versículo de São Paulo (I, Coríntios, XIII, 12) : ''Videmus nunc per speculum in aenigmate: tunc autem facie and faciem. Nunc cognosco ex parte: tunc autem cognoscam sicut et cognitus sum (.) '' (miseravelmente traduzido por mim, temos: ''No presente não vemos Deus senão como um espelho, e sob imagens confusas: porém então o veremos cara a cara. Não o conhecemos agora senão imperfeitamente: mas então o conheceremos como uma imagem clara, da maneira como eu sou conhecido (.) ''. Esse, acredito, o interesse essencial do personagem. Tudo nele é claro; tudo, pelo menos, se esforça por aceder à claridade que é a essência da extensão, e sua própria narrativa, como os objetos, os acontecimentos e os seres, ali se arruma uma disposição progressiva, em linhas de séries, em figuras voluntárias, insuspeitadas, inauditas, com uma arte que facilmente poderíamos comparar ao cubismo. Joyce, Faulkner, Huxley, muitos outros já atormentaram o ''tempo'' dessa maneira em suas obras, a fim de exprimir as vicissitudes da mera duração pessoal e virar o tempo do avesso. Aqui, nosso Hamlet (que segundo Ofélia, age ironicamente como se fosse o próprio coro ) faz referência a um teatro de marionetes rebeldes (puppet-show), em que o ''intérprete'' é uma VOZ que fornece acompanhamento verbal à ação dos bonecos e ao que eles em e ainda vão ver, elucidando a ação para um público que talvez nem exista. ------ Muito afiado (!) - ele nos diz, zombeteiro : ------ Mas Ofélia, por vezes, usa o termo ''keen'' diversamente, referindo-se ao ''fio'' afiado da minha ironia, ao passo que eu o uso no sentido do desejo sexual: o ''fio do desejo sexual'' e no sentido do risco : ''o fio da navalha '' (.) ----, mas não parece que o objetivo de nosso Hamlet seja (aqui) exatamente pintar suas obsessões de herói de propaganda ou o itinerário psicológico que o anima: se o passado, o futuro, o que está na frente ou atrás tendem, na sua narrativa, a se depositar na superfície lisa do presente, por um jogo sutil e calculado de perspectivas clarividentes e aproximações astrológicas, é para obedecer (cegamente) ao espaço sem sombras e sem espessura de Deus, no qual tudo deve expandir-se ---- para que tudo possa assim ser descrito -- como na simultaneidade de um quadro.
K.M.
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