Mas que outro adversário nos havia de soprar tanta sorte ? Perdido no tráfico desesperador de propostas dos especuladores do sul e piratas do petróleo e da indústria, oferecendo um sinistro programa de sugestões a um pobre eleitor acuado no país inteiro, procurando raciocinar com ele, com a segurança doméstica de uma meia suja, que assim conservaria algo do passado , pela destruição do presente; desperdiçando a substância de sua campanha em discussões pseudo-técnicas; se sondando reconciliações e novas rivalidades com os abatidos ultra-conservadores ----- aquele pretenso candidato conservador não passava, talvez, do tipo de demagogo mais esperado pela publicidade de Direita, com um leve acento anti-cristão, uma voz melodiosa, nenhum óculos, e uma inocência total do sentido de contradição, um espírito tão ingenuamente conservador que na sua torre privativa içava a bandeira americana num mastro eletrônico enquanto tomava sorvete. Subia para o escritório às cinco da manhã, descia no final da tarde, comandando as células foto-elétricas daquele mastro, daquela esposa, daqueles assessores, daquela campanha... Bem, mas não era possível votar num homem daqueles. Desde o começo, ele vinha apertando os botões errados. O mandato presidencial viria, portanto, para mim. Assim decidiria o povo americano, mudando de opinião às vésperas do pleito. No entanto, o voto na minha candidatura seria um voto prenhe de pressentimentos sombrios, de temor de futuras consequências funestas, pois havia muita coisa em mim que não despertava qualquer confiança, e algumas dessas provas eram de natureza íntima Eu havia registrado em meu nome uma quantidade absurda de coisas em letras de forma, e isso também era uma prova íntima... úteis para enterrar qualquer parcela infinitesimal do cérebro desprevenido e cotidiano que sucumba no gás de cada frase precedente . Entretanto, todas as idéias salvacionistas, altruístas e sintetizadoras do meu programa de poder, a dominação bem harmonizada que minha experiência política acumulara no decorrer dos últimos anos estavam, de certo modo, insertadas naquelas páginas. E era impossível sentir algum mínimo prazer com algumas de minhas constatações: '' EU SIGO ALGO QUE A AMÉRICA NÃO VÊ -- A AMÉRICA DE QUE NOS VANGLORIAMOS NAO EXISTE -- HÁ UM HORROR EM EXPANSÃO NA VIDA AMERICANA ---, após a publicação do meu livro, ginasianos e jornalistas escreveram redações prolixas sobre cada um de meus parágrafos. O estômago da nação estava revoltado comigo. Todos concordavam que meu estilo era uma ameaça . O meu livro havia sido escrito, apesar de tudo, em inglês, e num inglês bem mais ou menos. Na verdade, eu não era um escritor, e no prefácio ja alertava à leitora sobre o fato; nem possuía o desejo de o ser: eu era apenas um engenheiro de comunicações de ordem mais avançada, um vírus editorial em rápida expansão,cuja pretensão passava muito longe, acima de qualquer sonolento ideal de reconhecimento literário. Limitava-me a usar as palavras em grupos interligados que cercavam os pensamentos políticos da América como se cerca o gado. Meu estilo consistia em despejar palavras conectivas e agregadas e que, como tal, deveriam ser ligadas por hífens. Exemplo : '' TENHO-SIDO-SEMPRE-UM-SONHADOR-IRÔNICO, INFIEL- QUALUQER DE-MINHAS-PROPOSTAS. GOZANDO-SEMPRE-COM-OUTROS-NOMES, A-DERROTA-DE-TODOS-OS-DEVANEIOS, ASSISTENTES-CASUAIS-DO-QUE-QUALQUER-PESSOA-PRETENDA-SER. AS-FRASES-SAO-A-ÚNICA-VERDADE. COM-A-FRASE-DITA, ESTÁ-TUDO-FEITO. PREFIRO-NÃO-NOMEÁ-LAS ASSIM-ExTRAIO PRAZERES -MAIS -VASTOS -E VARIADOS '' -----, a essência da minha prosa era (obviamente) totalitária: não definia, nem comunicava nada além da comunicação em si. Apenas oprimia. E obstruía, acima de tudo, de modo que eu fazia o possível por obscurecer a consciencialidade sobrevivente com frases que, muitas vezes, não eram mais que um amontoado de estruturas de poder. Ou, alternativamente, a prosa totalitária derramava sobre a audiência uma baba de alta complexidade, tão depravada que inspirava admiração pela desvergonha. Então, essa baba revelava-se o núcleo da promiscuidade daqueles que não tinham sentimentos humanos. Mas o verdadeiro horror (eu dizia) era descobrir, pouco a pouco, que alonga odisséia americana rumo à liberdade , democracia e emancipação para todos, podia ser consumada de modo tal que a utopia ficaria para sempre soterrada e convertida em liberdade de inferno, ambos degradados de estilo, sem individualidades, vazios de coragem e inspiração, o medo racionalizado e instrumentalizado como único campo de batalha real. Os americanos teriam todo o dinheiro que quisessem para comprar artigos de alta tecnologia e ler livros tão ruins quanto ''The Conscience of a Conservative ''. O sonho esperançoso da democracia --- que o homem comum possua dentro de si riquezas dignas de um senhor, já terá evoluído então para uma anômala forma midiática, e a libertação da existência americana pela luz do intelecto puro não terá tido lugar. Apenas os edifícios, como a torre do meu oponente, continuarão a ser edificados: habitações cada vez maiores para todos, empregos e limpeza de favelas, limpeza das ruas e renovações urbanísticas periódicas, onde cada vez mais carros à disposição, até que fiquemos todos com o ar de um povo que perdeu a guerra , como se a América tivesse sido arrasada à bomba e reconstruíssemos de novo tão depressa e barato quanto à improvisação de barracos o permitisse. De quem prevalecerá a visão ? Que cérebro tenebroso poderá condenar as gerações ainda por nascer a olharem fixamente para edifícios sem rosto no meio da rua, enquanto o totalitarismo infiltra-se sabiamente de fora, como devir de contágio pestilencial da inconsciente coletivo, pelas formas informes e o ar aprisionado de uma sociedade que perdeu o sentido e a noção de que uma democracia só poderá tornar-se grande se se convertesse numa busca por estilo. E a democracia americana florescia sem nenhum estilo.
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