quinta-feira, 12 de maio de 2016


Entram os dois palhaços:

----- Ele está louco. Deixem-no.

----- Bom, tu te lembras bem de todos os detalhes? Como fomos conduzidos à Ele ?

----- Menos pelo fio de uma anedota do que por uma arte refinada das imagens...

(Aqui, os trechos de canção dos palhaços são uma versão alterada de algumas estrofes do poema de Thomas Lord Vaux , ''The Aged Lover Renounceth Love '', que apareceu nos Sonetos de Shakespeare; e a cena a que assistimos aqui nada mais é do que uma imagem central que se constrói pouco à pouco, por uma superposição de detalhes, de figuras, de lembranças, pela metamorfose e a inflexão insensível de um esquema em torno do qual tudo o que a leitora lê se organiza e anima).

----- Quanto a isso basta. Agora, o outro assunto.

----- O ''OITO'' ?

----- Sim. No escuro, tateando, acharás o que procura.

(Era um oito em pé, incendiado: dois círculos desiguais, um maior um pouco que o outro, tangentes. Os centros incendiados. Era esse oito que viria a assombrar a narrativa como um motivo de obsessão para os pesquisadores).

Voltam os palhaços:

----- Para pôr em evidência a esbelteza de seu corpo, o Senhor usará esse oito. E para fixar as coisas e as pessoas que ele pretende assombrar com a impassibilidade de seu olhar absoluto. 

------ Aquele olhar imóvel que atribuímos a alguns pássaros e que evocam retratos antigos.

(Aqui , lentamente, por sucessivos toques, vemos a elaboração prévia do instante em que pôde realizar-se a ''notícia'': ela circulará inicialmente através da narrativa toda, e estará por trás de cada coisa e sob o rosto de cada pessoa: ela é a própria transparência da claridade fria graças à qual veremos tudo, pois é também o vazio no qual tudo se torna transparente).

----- Ontem estive com o Senhor e ele continuou falando das vantagens do deserto, de estudar a própria mente ouvindo sua própria voz dentro dela, e de como era possível ouvir sua própria voz dentro da mente de outra pessoa.

----- Olhos e ouvidos, entrando e saindo da mente dos outros. 

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