terça-feira, 28 de junho de 2016
Tirania Economicista
Tirania Economicista
"Há uma tirania à qual jamais nos poderemos submeter: é a das leis económicas. Porque, sendo um facto que ela é totalmente estrangeira à nossa natureza, é-nos impossível progredir nela. Ela torna-se insuportável porque é de um grau demasiado baixo. É aí que se encontra o critério; é aí que é preciso escolher mesmo sem pedir provas. Ou temos ou não temos o sentido da hierarquia dos valores, e qualquer discussão é impossível com aqueles que invertem esta hierarquia"
(Ernst von Salomon)
Identidade e Capitalismo Não Se Misturam
Identidade e Capitalismo Não Se Misturam
"O capitalismo basicamente quer que as pessoas sejam engrenagens intercambiáveis, e diferenças entre elas, tais como as raciais, usualmente não são funcionais. Quero dizer, elas podem ser funcionais por um período, como por exemplo se você quiser uma força de trabalho super explorada ou algo assim, mas essas situações são anômalas. A longo prazo, você pode esperar que o capitalismo seja anti-racista - simplesmente porque ele é anti-humano. E a Raça é em verdade uma característica humana - não há razão para afirmar que deveria ser uma característica negativa, mas ela é sem dúvida uma características humana. Assim, portanto, identificações baseadas na Raça interferem com o ideal básico de que as pessoas devem estar disponíveis simplesmente como consumidoras e produtoras, engrenagens intercambiáveis que comprarão todo o lixo que é produzido - esta é sua função última, e quaisquer outras propriedades que elas possam possuir são irrelevantes, e normalmente um incômodo."
(Noam Chomsky)
O efeito econômico da saída do Reino Unido da União Européia será uma perda de 0,2 ou 0,6 % no crescimento de longo prazo. Nada mais.
K.M.
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França sai no ano que vem. O bom torpor liberal já foi longe demais.
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Tenho engrenagens no meu sistema vocal. Elas me avisam quando estou pronto para assumir o controle da conversa.
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TRIGÉSIMO TERCEIRO CONTO AMERICANO.
Deixe-me agora explicar: sou o membro de um grupo minoritário, e como tal, quando quero falar existencialmente, falo não como um homem que faz parte de uma determinada categoria, como um negro ou como um judeu, mas como um homem que concebe sua existência de ''certa maneira''. Portanto, é próprio do contexto da minha existência viver com duas noções opostas de mim mesmo, ao contrário dos hipócritas: uma maravilhosa e outra horrorosa; uma excepcional, outra insignificante; uma boa e outra má; E o único processo de que disponho para aliviar a insuportável tensão que cerca qualquer sentido da minha própria identidade, é definir minha natureza através dos meus próprios atos: descobrir minha coragem ou minha covardia por ações que envolvam coragem; descobrir meu discernimento julgando minha própria imparcialidade; minha lealdade, sendo posto à prova; minha originalidade, criando ali onde ninguém jamais criou. Um negro ou um texano, um candidato à presidência ou uma dona de casa ninfomaníaca são, desde que em si contenham duas noções opostas de si mesmos, membros de um grupo minoritário. O que caracteriza esta definição é estarem as emoções próprias enclausuradas para sempre nas cadeias de ambivalência ----- a expansão de uma emoção libertando eternamente seu oposto ------ , o ego em trânsito perpétuo de uma torre de marfim para uma feira-livre e desta para aquela. Hoje nos deparamos com o perigo de que a distância entre as elites econômicas e tecnocráticas e a massa da população torne-se demasiado grande para que possa ser superada. Uma eminente morte do espírito público paira sobre a vida da América, e há um vazio tecnocrático canceroso no centro que exige a vibração de um circo elétrico. No limite, o centro de nosso motivo permanece um enigma: o vago sentimento de que as elites são corruptas, incompetentes e complacentes deve ser capitalizado pelo nosso discurso, mesmo que ele soe um pouco leviano no começo. Algo do animal enterrado da vida moderna cresceu bestialmente na América enquanto a expansão da atividade financeira não trouxe nenhuma melhoria proporcional ao desempenho econômico , facilitando, pelo contrário, uma imensa desterritorialização de riquezas. A doutrina da primazia dos acionistas será contestada com veemência, a qualquer custo, pois essa não é a vida americana que eu imaginei no pequeno assento de pelúcia do meu jato particular, quando tinha 33 anos, voando velozmente sobre a corrente do Atlântico profundo.
sábado, 25 de junho de 2016
TRIGÉSIMO SEGUNDO CONTO AMERICANO.
Na reunião seguinte com os jornalistas houve mais pistas para o mistério da minha personalidade. Era evidente que eu desenvolvera um profundo afeto pelos poderes mágicos da televisão, um afeto tão imenso que se sobrepunha a qualquer pretexto que pudesse haver para sentir um afeto igualmente grande pelos meus eleitores. Estes ficavam ocultos num canto da minha mente enquanto eu discursava por uma gigantesca torre de televisão. Dois terços dos meus delegados talvez estivessem sentados diante daquela torre, contemplando-me humildemente. O resto da humanidade não era visível da tribuna. A reunião prometia ser tão ordeira quanto um ''rodeo'', mas em comparação com a reunião do meu adversário , parecia um pouco menos cancerosa: as máquinas eram mais decisivas que os homens, concluía-se. Era evidente que o Establishment estava (naquele momento) a serviço do mais sutil, do mais ardiloso e sofisticado dos tiranos: eu era um imperador a que todas as máfias legítimas e ilegítimas, todos os sindicatos, uniões, corporações e instituições podiam curvar o joelho. Reiteradamente, durante meu discurso, eu prometera unificar a nação contra o medo da morte (meu estímulo ao medo era assustador e recorrente), mas em momento algum parecia estar-me referindo à república baseada nas tradições estabelecidas por George Washington, Abraham Lincoln e Teddy e Frank Roosevelt; pois se minha ideologia era liberal, minha metodologia era totalitária: para minha igreja política entrariam apenas Adlai Stevenson e Frank Sinatra, a União dos Operários Siderúrgicos, a CIA, os ossos de Martin Luther King e o Pentágono. ------ Aí está a interrogação, meu povo (!) ----- bradei ao microfone ------ A alienação dos americanos tem sido usada pelo meu adversário em referência à uma extraordinária variedade de perturbações sociais (incluindo a perda mística do eu ), os estados de angústia, a anomia, desespero, despersonalização esquizofrênica, excesso de maquiagem, desenraizamento, apatia, desorganização emocional, solidão, atomização lírica, nirvana bio-tecnológico, isolacionismo, pessimismo, perdas de verão, etc... entre os grupos (descritos por ele como alienados) estão as mulheres, os trabalhadores industriais, os trabalhadores de gravata, os trabalhadores migratórios, os artistas, os suicidas, os drogados, a gente idosa mentalmente perturbada, os veteranos sem perna, a jovem geração de negros como um todo, os delinquentes armados de faca, as audiências dos programas de auditório, os viados vítimas de preconceitos e massacres, os crioulos vítimas de racismo, os muçulmanos fanáticos, os burocratas, os políticos radicais, os deficientes físicos, os reclusos, os vagabundos profissionais e os hackers... mas o que é ainda mais inquietante é a realidade política que essa retórica reflete: a estagnação da renda dos trabalhadores e da classe-média americana; a pressão de Wall Street para que as empresas terceirizassem os valiosos empregos da base industrial; mexicanos, chineses e a sensação de que o corpo do americano médio está ficando cada vez mais vazio por dentro, que que sua psique está sendo varada por uma ferida intelectual cujas dimensões se alastram como um incêndio florestal incontrolável. No mínimo, o saldo é a convicção de que somos todos falsos, pois os republicanos também apoiaram a desregulamentação financeira e os acordos comerciais que minaram a economia americana. E agora querem culpar o lavador de pratos no Hilton de Estambul ? Acreditamos que o problema da América seria resolvido permitindo aos ricos conservarem uma porção maior do seu próprio dinheiro. Mas para promover um crescimento equitativo é necessário implementar políticas que administrem os efeitos da globalização. Não se pode comportar-se como um alienado à frente da nação, à menos que você esteja querendo levar uma parte do bolo para casa. Neste caso, sua mente presidencial se converterá num consórcio de monstruosas desproporções, de retratos galantes de si mesmo duplicados em um milhão de eventos, de vinte metros de altura cada um (.) ----, naquele momento, a atividade da mais alta inteligência política da América não melhorava em nada (inevitavelmente) o entendimento da audiência. E eu me perguntava por dentro , lastimoso, o que poderia vir a ser na meia hora imediatamente após meu discurso, senão uma pessoa bem comportada que janta no restaurante do hotel. Seria atendido por serviçais e chefes e maitres e criadas, e garçons e os pequenos ''botones'' que se vestiam como recepcionistas de hotéis europeus e enchiam meus copos de água gelada e cristalina e tiravam as migalhas do linho com uma larga lâmina prateada. E não haveria nada que eu pudesse fazer a respeito do meu desejo de redistribuir os supostos benefícios do livre-comércio senão soltar um débil soluço, simbolizando que o mercado sempre canalizava os ganhos para quem de fato os merecia. Cânceres e aneurismas, coronárias e hemorragias cerebrais, infartos e epidemias exóticas logo viriam em socorro dos operadores de planos de saúde que lucravam com a atividade de gerenciamento em vez de basear sua rentabilidade na prestação de cuidados médicos reais para os doentes. Assim , sentei-me naquele cenário de talheres de prata e chamas de brandy, e contemplei longamente a soberba cintilação dos recaldeiros.
TRIGÉSIMO PRIMEIRO CONTO AMERICANO.
As necessidades das crianças sempre superam qualquer consideração de ordem estética. Como agora podemos ver claramente, eu represento uma ameaça para o mundo. Óbvio: gosto do som que a a palavra ''ameaça'' produz nos ouvidos da audiência, até porque se trata de uma ameaça generalizada, não apenas para este ou aquele lado do conflito. Segue-se a inevitável especulação: ------ Quem é esse K. (?) ------ , pois tanto os israelitas quanto os muçulmanos, tanto os americanos quanto os russos, estavam agora profunda (e amargamente) intrigados comigo. ------- Como ele conseguiu seu poder, afinal de contas (?) ---, as perguntas, no geral, cobriam todos esses pontos rotineiros. E a única resposta que fazia sentido era que eu estava metido numa guerra mental imaginária para empurrar as coisas do mundo para um clímax militar real. A ampliação mental progressiva me levava até ao cume e ao abismo de tal momento, e então as probabilidades tornavam-se muito fortes no sentido da guerra nuclear total. ------ A civilização tal como nós a conhecemos (eu disse à Sarah) desaparecerá (.) É possível que toda a vida, tal como a conhecemos, também desapareça. E assim, minha cara, estaremos todos de volta ao seio do mistério primordial, sem margem para distrações burlescas. Os dirigentes chineses têm muitos desafios pela frente e melhorar a comunicação com os mercados é a pior coisa que podem fazer. Felizmente, tudo indica que estão apenas tripudiando com o Ocidente quando afirmam ser esse o atual imperativo do governo e que farão tudo para atendê-lo. A atual turbulência cambial se intensificará a tal ponto que a expressão ''compromisso chinês '' se tornará uma das maiores piadas da história entre os formuladores de políticas públicas do mundo (.) -----, Sarah ria. . -------- Mas por que motivo a vida na terra seria destruída por causa de uma guerra para a qual nós, americanos, ainda não estamos nem ligando (? ) E mesmo que venhamos a obter alguma coisa com o sentimento anti-comércio global, a ânsia de fazer dinheiro fácil cuidará para que o bom torpor liberal da infância americana dure ainda mais meio século (.) --------,ela disse. Traços de perfume dela interromperam meu sonho de Armagedon. Justo no instante em que a face dela se voltava para o sol derradeiro das minhas quimeras, senti que ainda queria algo dela. ------ O mal da civilização é que está muito distanciada da natureza (observei calmamente ) : as desproporções multiplicaram - se por todos os lados. A guerra nuclear total será apenas o sintoma capital dessas monstruosas desproporções. A humanidade será colocada diante do mistério debaixo de ferros, pois toda desproporção esconde um grande mistério ou uma grande loucura. Se um homem que sofre de uma febre insuportável decide curá-la caminhando através das chamas, devemos dizer que ele tem um grande motivo secreto para agir assim, ou simplesmente que enlouqueceu. E talvez eu tenha um motivo secreto para eleger-me Presidente dos Estados Unidos. O BC chinês tem se empenhado energicamente em enganar o mundo dizendo estar comprometida em preservar a estabilidade cambial, mas se recusa a baixar a taxa de depósito para liberar liquidez, contrariando as expectativas do mercado. Há mais de cinquenta anos que o Pentágono é obcecado com a idéia de bombardear a China com armas nucleares: na verdade, esse desejo jamais se extinguiu, desde 1946. Somos uma nação conservadora e amante da propriedade privada, que deseja destruir a propriedade das outras nações. Operações de liquidez de curto prazo, linhas de empréstimo permanente e acordos de recompensa reversa para elevar a base monetária de maneira não-convencional, o que empurrou a taxa de recompra para uma baixa recorde. Desconheço um mecanismo mais ostensivo de magia negra (.) ------, no quarto de hotel onde estávamos, havia um umidificador que agravava o odor da cola e dos recortes de jornal que eu ia pregando no mural da parede. Sarah estava pálida e enjoada, a respiração temperada de chocolate e cola, enquanto eu permanecia completamente absorvido numa tira de recortes de jornais colados que dava duas voltas e meia no quarto e fôra amarrada com barbante no lustre. Procurava ficar tranquilo e ser o mais agradável possível, porém de vez em quando meus pensamentos faziam tamanho marulho (que desagradável !) como a água num barco a vapor quando as pás largas e talhadas empurram para dentro e as máquinas fazem espumar o bagaço e lançam fora cascas de laranjas e toneladas de batatas podres. Apesar de tudo, eu vinha cobrindo todos os potos rotineiros de forma sistemática. Sem ter uma base verdadeiramente segura, no entanto, eu tinha adquirido sozinho a mágica aura do judeu esperto, o Judeu Suss: o administrador financeiro e agente de negócios dos antigos principados alemães. ---- Eu tenho audácia (confessei à Sarah, enjoada no sofá ), sou matreiro, faço parte do jet-set, sou um CasaNova e um especialista em publicidade. Falam de mim nos jornais como de um ego que tem a voracidade de um animal feroz. Parecem haver compreendido que, uma vez que a televisão criou uma opressiva cultura do Espetáculo na América, foi preciso que eu mesmo entrasse para o mundo do Espetáculo quando, na verdade, não tinha nenhuma outra base de sustentação.
TRIGÉSIMO CONTO AMERICANO.
Há muito que se estabelecera que a cabeça pensante do Universo era eu, armado com um bracelete de Ulick. Os maiores meios de comunicação em massas da América, da Europa e do resto do mundo liam-me como ao Omer de Chapman: páginas iluminadas em reinos de ouro. E se por acaso regulamentos restritivos viessem a interferir na minha chance de alcançar a Presidência dos Estados Unidos, eu já estava preparado para desembolsar quinhentos milhões de dólares em suborno. Os analistas políticos mais astuciosos percebiam-no no meu rosto. Os reguladores eram o pecador negativo, e eu o positivo. ------ É uma questão que dá pano para mangas (eu disse à Sarah) : faz parte de um vasto mistério de magia negra. Posso deixar as partes maiores da explicação para o final da campanha, quando já não for possível neutralizarem meu veneno, mas de começo o que nos interessa são os argumentos e complexos de argumentos que giram em torno da teoria do dominó: 65% da população americana apoiam as restrições às importações e a adoção de uma tarifa punitiva de 45% contra produtos chineses é o alvo principal do sentimento protecionista da nação; querem uma guerra comercial contra a maior potência econômica do mundo, e este é um argumento protegido por uma poderosa metáfora. ''UMA 'IMAGEM VALE MAIS DO QUE MIL PALAVRAS '' é provavelmente o provérbio chinês mais famoso da história. Mas as metáforas possuem uma mecânica curiosa. Discute-se muito, hoje em dia, a respeito de suas propriedades psíquicas na técnica publicitária. Wall Street, por exemplo, vem argumentando que o dominó chinês está caindo. E na medida em que são pedras de dominó, o Japão e a Europa já caíram. Agora querem espremer a China para obrigá-la a rever suas posições econômicas. O fato é que negociamos muito mal na última década ----, com isso, Sarah se entusiasmou; sentia que eu estava usando cores pesadas e majestosas para descrever o problema enquanto meu adversário político se limitava a aparecer na TV abotoado num terno dos Dorminhocos do Dr. Denton. --- É claro que você tem uma boa razão para estar alerta (ela disse) : é um desafio bem grande (.) --, mas, no momento, ardia apenas um fogo lento, quieto, quase especulativo, nas gargantas dos jornalistas, e seria preciso ainda chegar ao máximo de fervura. Eu possuía negócios gigantescos na China que considerava do interesse de toda a raça humana : ------- Na China, eles exigem que minhas empresas tenham que ter um parceiro local para podermos investir e produzir: assim, o parceiro local, após um ou dois anos, ou até antes, copia a tecnologia, o produto e passa a concorrer diretamente conosco (.) ----, minhas pontas dos dedos ensaiavam, ante os olhos de Sarah, como se estivessem mexendo no gatilho destravado de uma metralhadora: o clangor da minha metralhadora deveria ser ouvido inclusive além da Terra, além do próprio Universo. Quando o Messias e suas rajadas de aptidão redentora estivessem completamente despertos, todos poderíamos olhar de novo o metal resplandescente de sua metralhadora sem borrarmos as calças; e de olhos bem abertos, mais uma vez: a Terra toda brilhante. -- Ipso Facto : o comércio com a China teve um impacto considerável no aumento da desigualdade na América. Só o aumento de U$ 25 bilhões do défict comercial com a China em 2015 custou aos americanos mais de duzentos mil empregos. UMA IMAGEM VALE MAIS DE MIL PALAVRAS. E é uma curiosa política externa usar metáforas em defesa de uma guerra. quando tais metáforas são criticamente inexatas, mesmo tratando-se de um mínimo de inexatidão, o argumento se aproxima muito de uma fraude publicitária. O que você acha (?) --, perguntei à ela. Em sua resposta, ela parecia levar em conta, antes de tudo, a maneira como eu mesmo me via. ------- Acho que é bem pior do que isso (respondeu-me ela); mas já que estamos nadando numa maré de metáforas, é como se você e eu tivéssemos uma pequena briga de rua num quarteirão do nosso bairro. Por exemplo: você me pega de surpresa, derruba-me, ganha a briga, e eu prefiro não reagir no momento, e voltar depois com a minha gangue e jogar uma bomba de plástico e pregos enferrujados dentro de sua casa. Sua empregada perde uma das mãos na explosão, e o seu melhor amigo, que só estava de passagem na casa, voa pelos ares em pedaços. Depois, eu lhe envio flores para os funerais e um cartão oferecendo meus préstimos como cobradora de seguros contra incêndio. Será possível que pretendamos opor-nos à ideologia dos Comunistas com o espírito da Cosa Nostra (?) ---
segunda-feira, 20 de junho de 2016
Há de fazer-me bem.
Talvez, pela rigidez das minhas atitudes, eu tentasse recusar uma gratidão que pensasse não merecer de todo. Bobagem: se a Terra merecesse ser abandonada, se a pequena elite de iniciados que talvez de resuma apenas à mim estivesse sendo impelida rumo à Lua, não seria por causa daqueles que se lhe parecem obedientes, e eu teria dito de imediato a Verdade. Em vez disso, disse apenas:
------- Grato. Grato. Os senhores são de fato gentlemans. Ficarei em contato com vocês. Há de fazer-me bem.
------- Grato. Grato. Os senhores são de fato gentlemans. Ficarei em contato com vocês. Há de fazer-me bem.
VIGÉSIMO NONO CONTO AMERICANO.
Eu aprendera a ser cuidadoso nos caminhos da vida pública de Nova York, que estavam muitas vezes sujos. Por dentro das cercas de ferro, a grama quase sumira, queimada pela sujeira dos cães. Mas as sicômoras, à véspera de cobrirem-se com nova folhagem, os troncos sustentando as suas características manchas brancas e castanhas, constituíam uma visão bastante agradável em meio àquela desolação. Mais além, as pedras vermelhas do Friends Seminary, e as pedras grosseiras e quentes, largas, mal talhadas mas sólidas , da Igreja Episcopal St. George. Outro dia, Sarah me contou que o próprio J. Pierpont Morgan fôra porteiro lá. ------ Na antiga Cracóvia do tempo da Polônia austro-húngara (ela disse) os velhos que liam a respeito de Morgan nos jornais, falavam dele com muito respeito como Piepernotter-Morgan. Na St. George, aos domingos, o deus dos agentes e corretores de câmbio podia respirar aliviado, por algum tempo, em meio à cidade barulhenta (.) ----, nos meus pensamentos, não sentia nenhuma indulgência para com os protestantes brancos da América, incapazes de manter uma ordem perfeita. Tratava-se de uma rendição de covardes: hoje em dia, os únicos que conseguem ganhar dinheiro com fundos de hedge são os gestores, que cobram uma fortuna por um trabalho medíocre. Não são mais uma classe forte governando: a aposta mais corajosa de Wall Street dos últimos anos foram os duzentos milhões de dólares para minha campanha. Mas isso, aparentemente, não os estava fazendo mais fortes. Pelo contrário, estavam sempre prontos, de uma maneira secreta e humilhante, a descer de suas alturas especulativas, misturando-se ao populacho minoritário, e a gritar com eles. O encanto acabara no ano passado. ------- Jacob Burckhart dizia que povos atrasados deviam ser conhecidos de cima de um cavalo (.) ------, eu disse à Sarah, rindo: ---- Os Pikertons eram assim. O primeiro Pikerton foi escolhido pelo próprio Abraham Lincoln para organizar o serviço secreto no país (.) -------, mas, para mim, ler os jornais no meio da minha campanha presidencial era um pesadelo de amor não correspondido com o eleitorado: meu adversário político prometera acabar com o IRS e eu não tinha sido capaz de retrucar nada além de que aquilo jamais prosperaria. ------- Se o país de cada um vive como uma mulher nalguma parte da vida onírica inconsciente de cada um de nós (eu disse à Sarah) , se por baixo de todas as nossas críticas e repugnância pela vulgaridade da América, mau uso do poder e pomposa estupidez, existe ainda algum caso amoroso otimista com as potencialidades secretas desta nação, alguma fé profunda e muda de que a natureza da América é fundamentalmente boa,, e não má, bem, diria que essa fé foi alvejada a tiros na último mês de campanha (.) -------, entretanto, sugeri à ela que havia ainda algum interesse em tentar ser racional, mesmo que fosse apenas para descobrir a inexistência de lógica na situação: ---- Nos últimos vinte anos o mundo financiou um défict comercial crescente dos Estados Unidos. Países emergentes acumularam trilhões de dólares em reservas internacionais e fundos soberanos enquanto a América mergulhava num défict nunca antes visto. Importamos com tanta volúpia que um leigo qualquer pensaria que estávamos possuídos por um assomo de astúcia econômica. E agora, quando muitos propagandearam estarmos sonhando nosso bom desempenho, alguém veio bater à porta: O Menino Carrasco de Pollock (.) ---, pelo menos, na ausência de pessoas capazes de explicar o assunto, aquilo era uma tentativa direta de compreender sobre o quê o problema transpirava. ----- Insisto, porém (continuei) que a lógica que eu emprego aqui aproxima-se muito da argumentação teológica, pois estou tentando falar racionalmente sobre um mistério. A abertura comercial nos fez perder muitos empregos qualificados na indústria em benefício da elite financeira do país. Portanto, é possível imaginar o tipo de Paraíso que Wall Street enxerga nesse terreno baldio: torres envidraçadas na névoa marinha, a relva importada do Japão coberta pelo sereno da manhã, as piscinas rodeadas de gardênias onde as garotas de programa expõem seus belos corpos ao sol; e todos os escuros serventes mexicanos bordando camisas turísticas enquanto murmuram ''Sí, Señor '' : montes de ''wetbacks'' cruzando a fronteira em busca da nossa crescente desigualdade de renda e achatamento salarial progressivo. O Paraíso...
Para mim tudo se resumia à alfândega e o bar. Mas na Rússia, Stalin queria destruir o mundo literário. A situação na Rússia, agora, parecia-se com a nossa ------ independente de qualquer coisa, e a despeito de terem tudo contra eles, poetas emergiam do nada. De onde veio aquele Maiakovski, e aquele Walt Whitman (ninguém o sabia) e onde obtiveram o que possuíam ? Não, ninguém o sabia. No entanto, Maiakovski e Whitman continuavam por lá, irrepreensíveis, indivíduos que possuíam e que realizavam. Durante o período de indagações, fiz de tudo para que não vissem o meu pequeno chalé como parte de uma tremenda tramóia. Pela primeira vez em meses, procurei orientar-me no mundo externo à procura de cifras e presságios curiosos. Mas a vida daquele verão americano seguia transformando-se num outono : talvez o excesso de observadores estivesse transformando o churrasco em moluscos gelados. Eu me sentia muito infantil ainda, pois muitas e mais largas formas de inscrições tinham ficado apagadas durante as escavações, e eram como palha, ou teias de aranha, ou manchas, ou formigas, ou pardais que tinham que ser interpretados. Havia símbolos antigos espalhados por toda parte, vinham acompanhados de mensagens telepáticas metafísicas. A maioria delas podia ser ignorada, mas foram justamente elas, que não representavam nada, que captaram por algum motivo oculto a a atenção dos observadores. ------ Eloquentes ----- diziam eles ------ mas a respeito de quê (?) ----, ninguém o sabia.
K.M.
VIGÉSIMO OITAVO CONTO AMERICANO.
Não havia dúvidas de que meu instrumental de informação era tremendo, opressivo, assustador: muito mais poderoso que o deles. ------ Mas estar bem informado (eu dizia à ela) não é a mesma coisa de entender o que se passa (.) ------, o mundo mais externo era agora o meu mais íntimo segredo, que eu revelava à conta gotas. Em vez de observar o mundo visível como normalmente a gente comum faz com os sentidos e o intelecto, o iniciado superior enxerga o eu circunscrito de fora. Alma e espírito são expelidos por sobre o mundo que normalmente apreendemos de dentro. ----- Clarividente (retrucou ela, afoita), você está no espaço que antigamente contemplou, lembra ?? (!) ------, aquilo indicava que o dinheiro não podia mais marcar o tempo. Ninguém mais sabia dizer com certeza como era feito o zoneamento daquilo: nem que dados eram aqueles, nem como tinham sido obtidos. Adoecer psicologicamente o Espetáculo era agora a única forma de limita-lo com carinho, sem traumas. A vida do pensamento que voa ia tornando=se visível dentro da minha radiação. Meus pensamentos podiam ser vistos como ondas escuras passando dentro dos olhos das pessoas, espetando divertidamente seus flancos, bombeando fortes rajadas-relâmpagos de adrenalina até a altura de seus pescoços, que latejavam depois de engolir em seco.
sexta-feira, 17 de junho de 2016
VIGÉSIMO SÉTIMO CONTO AMERICANO.
Eu estava tentado a convencer-me: não sei nada sobre isso. Extrair artistas de capitalistas é uma idéia humorística de certa profundidade. Os Estados Unidos decidiram testar as pretensões da estética mundial julgando-a em termos de dólar. Talvez a imprensa não tenha lido corretamente a transcrição dos meus primeiros discursos, onde digo que não tenho qualquer participação nessa merda de arte e literatura. Talvez eu não estivesse no meu juízo perfeito ? (perguntaram-se) Minha personalidade, tal como relatada pela autoridade dos melhores bisbilhoteiros, era muito diferente da minha presença pública. Ao vivo, eu não era, pelo que diziam , muito diferente do Broderick Crawford de All The King´s Men: rugindo, adulando, berrando, enfiando o indicador no peito dos republicanos, abraçando suas filhas pelos cantos, exigindo comida de primeira na mesa, mesquinho e rancoroso, vingativo - encarniçado - cruel - generoso - inquieto - vaidoso - subitamente ensimesmado ou deprimido, então distante, dissolvente, depois arrogante e prepotente, bruscamente humilde de novo, para logo depois me exaltar e gritar mais um pouco nos ouvidos estraçalhados da audiência. Eu transigira em demasiadas contradições, e agora as contradições estavam expressas na minha cara. Quando eu sorria, dos cantos da minha boca escorriam frieza; quando eu era compassivo , meus olhos rebrilhavam de ironia; quando falava num tom justo, parecia um corrupto; quando gracejava, meu pescoço latejava estranhamente. Há dois dias, aquele auditório do Texas tinha rido como se eu fosse William Faulkner falando sobre a família Snopes. Mas o quê aquilo causava nas pessoas ? Retraía-lhes o diafrágma ou coisa parecida?? Ora, eu sempre fora um rapaz atlético, desde os tempos doquartel: fazendo barras, brandindo tacos e punhais, levantando alteres, chutando o saco de boxe e dependurando-me em coqueiros como o Tarzan dos Macacos. Mas o que sucedia com a platéia ?? Nada demais: deviam apenas fazer uma má idéia do que acontecia quando eu me trancava no toalete. Eu era um filho da puta egocêntrico, dono de uma prosa dura como um cacetete, envenenada pelo pressentimento de uma avalanche de más consequências. Meus textos tinham pedaços horríveis: ''Num daqueles dias, quando eu estava retornado de outro almoço, do s que passam rapidamente da boca para o cu, perguntando-me quanto sal era preciso para se digerir o Ocidente Indigesto. ------- O que você está pensando, K (?) --, perguntou o Turista Brasileiro . -------Que cacos de assassinato desabam lentos, como lascas de opala atravessando glicerina (.) -----, eu disse, e fiquei observando ele cantarolar ''Johnny´s So Long at The Fair '' sem parar, com aquele sotaque subdesenvolvido. ----- Quem diabos você pensa que é (?) --, perguntou-me de repente, irritado. --- Um desses escritores que misturam Dilaudid com álcool, em horas insuspeitadas da noite, e conseguem aquilo que você nunca conseguirá (.) --- , irritou-se mais ainda. Ficou histérico, ventos em carne viva traziam ódio e infortúnio para dentro de seus olhos, enquanto a ampulheta escorria seus últimos grãos negros para dentro do seu ânus. ----Você vive perdido entre pequenos cacos de prazer e pergaminhos flamejantes, e chama isso de arte (.) ----, ele disse. Era o cadáver de um homem derrotado falando, seus recursos haviam acabado. - Sem mais conferências choronas pra cima de mim. Vocês estão sempre tirando alguma teoria extravagante sobre mim de dentro do rabo(.) - ''. De fato: um dos desgostos daquela gente era não poder mais me alcançar. Não conseguiam nem ao menos se fazer ouvir entre si. Mas nas alturas do Grande Capital americano haviam também coisas que não me despertavam confiança alguma: eu tinha percebido que a América caminhava para dificuldades econômicas há décadas, quando começaram a disponibilizar dinheiro demais para patrocinar artistas em escala industrial. Julgava-me pelos padrões correntes: tinha tentado ser fotógrafo de modelos, lembra ? - Eu ?? Quando foi isso ?? --, naquele momento, as lamas de um bilhão de leitoras no mundo todo adejavam como fantasmas sobre o verniz da grande capota negra do meu maverick. Logo mais, haveria um programa recreativo para todas elas, com oferecimento gratuito de exercícios calistênicos em massa, num estádio com ar condicionado e zimbórios envidraçados. Ali, sob a supervisão de uma velha de óculos escuros, elas poderiam se recuperar do contato com minha prosa abominável...
Tivemos que submetê-la à uma pequena operação cirúrgica...
Uma família, um time de amigos, um time de viventes, mantinham as coisas em andamento e então, de repente, a morte apareceu. Como dizia o comunicado oficial: '' Tivemos que submetê-la à uma pequena operação cirúrgica, uma pequena operação sem muita importância. Mas... será que era mesmo ?? Uma veia do cérebro, a carótida, tinha começado a vazar pelas paredes fracas.
K.M.
VIGÉSIMO SEXTO CONTO AMERICANO.
Era isso: metade da minha delegação parecia composta de soturnos conspiradores disfarçados de red-necks que, assim que terminado o conluio eleitoral, estariam dispostos a lançar fogo à tudo que aparecesse pela frente. A impressão que tinham de mim era a de um paredão humano que sempre aparecia em público muito polidamente, as mãos conservadas atrás das costas. Eu tinha, na verdade, o ar de um general cujos pensamentos estão sempre acompanhando um batalhão nas suas lutas sangrentas, logo ali, além daquela montanha em chamas. De fato, eu não tinha nada para dizer à você, caso você fosse apenas um civil importuno, surgindo no meu caminho no momento errado. Minha fisionomia se destacava, pois era a mais adequada para um líder, sempre oferecendo aos meus observadores ocasionais a honra duvidosa de uma batalha nas planícies (olhos vazios como uma imensa planície ), advertindo a todos de coisas como: ------ Não olhem demais para o passado. Vocês podem se tornar uma pedra de sal e acabar sendo lambidos por uma vaca (.) ----, mas, com essas palavras, eu pretendia apenas reduzir Satã à Obediência Automática, para sublimar qualquer inimigo subsidiário. ------- Banirei os candirus de suas piscinas. Caçarei os Marajás em seus resorts (.) -------, mas, claro, eu não tinha exatamente o ar de um chefe de salteadores, o orgulho dos Pikertons e chefão político tudo junto; não: nem lembrava um amálgama político de Wallace Beery e do gordo Hermann Goering; não: apenas empunhava uma bandeira de seda branca com um frasco de Dilaudid roxo desenhado no centro, que drapejava no ar como se empunhada por um cavaleiro montado num corcel. Na ocasião , eu trajava meu colete negro, enquanto datilografava mais uma sentença de morte: ''Façam tudo parecer legítimo, pessoal. '' K.M. P.S:. ''Nada a ver com narcóticos ''. Assim, eu obtinha mais um orgasmo por meio de uma fraude. Motel: um arabesco de neon defeituoso. Meus bagos espremidos até o bagaço na área onde as coxas dela se encontravam com as nádegas. ---- Você vai indo bem, estamos progredindo (.) ----, ela murmurou nos meus ouvidos. Eu me sentida humildemente agradecido por poder fazer aquilo pela América. A Carolina do Sul estava toda dentro do meu domínio imediato. O Motel era nossa ducha íntima, após uma maratona pelo país inteiro. Brincando com minha ereção angelical a noite toda, consegui não ejacular sobre os pântanos salgados dela. Mas quando a contagem foi concluída, e os delírios apaziguados em nossos ventres, um ''ooooohhhh'' de prazer subiu de dentro dos meus pulmões, como o ''ooooohhhhh'' dos pulmões dela, semelhante ao ''ooooohhhhh'' de uma acrobata sobre o trapézio. A única maneira de sobreviver àquele tipo de vida era cercando-ze de certezas insólitas à bordo de um vôo noturna nas asas do Dilaudid, a água do lavabo queimando meus olhos como ácido.... Nua, ela saiu da cama. Pegou a droga escondida no abajur. Deitou-se de novo. Virou de bruços, rolou, rolou a cama inteira. Minha ereção se dissolvendo aos poucos na gosma cinzenta de seus olhos. Em um vale de morfina desidratada, os olhos dela eram tristes o suficiente para me inspirarem um rápido discurso naquele momento. Levantei-me e percorri o quarto com um passo medido e lento, como um rapaz que carregasse um vaso litúrgico contra o peito. Fiz um discurso límpido, numa voz infantil e algo vibrante: era o que eu sabia fazer de melhor, e estava dando à ela a impressão desejada, calmante, de alguém que faz propaganda de si mesmo com fé e paixão: -------- Democracia é propaganda. Por parte do governo a propaganda penetra todos os aspectos da vida... divide-se em partes que formam uma unidade e assim deve ser encarado, mas tais partes podem ser abordadas em qualquer ordem cronológica, jogadas de um lado para o outro e exploradas de frente e sobretudo de costas: é exatamente isso que a mídia faz com governantes e candidatos, tratando-os como um objeto sexual côncavo especialmente interessante.
Sorria-me, simpatizava muito comigo; havia até um certo ar de família no espaço vazio entre nossos olhares. ------- Perigosamente impulsivo, K (ela disse), espalhando a destruição na paisagem mundial para colher especulações injuriosas, arrogantes (caos e tumulto: leviano em tudo aquilo que diz; ''A hipocrisia '', diz seu amado Edmund Burke '' Compraz-se nas especulações mais sublimes; pois não tenciona jamais ultrapassar os limites da especulação, nada custa fazer com que seja magnífica (.) ''. ------, concluiu ela. Mas em qualquer parte do meu pensamento, menos na política, a rapidez com que minha posição fôra alterada momentaneamente por suas palavras era sintoma de uma instabilidade monumental. A política era o lugar onde ninguém, afinal , pensa realmente aquilo que diz ------ é um mundo de pesadelo, onde os psicopatas vagueiam livremente. Os profundos e candentes conflitos dos políticos são como as brigas de prostitutas num puteiro ----- arrancarão os cabelos umas das outras esta noite, mas amanhã estarão fazendo algum truque juntas. Naquele momento, ela olhava para mim com o ar de quem está sonhando, sob o efeito do Dilaudid. Eu era manhoso como um gato, e fiquei com vontade de discutir a questão. Edmundo Burke me era tão caro, que citá-lo diante de mim me deixava febril. ---- ''Somos ensinados por algum sábio preconceito a olhar com horror para aqueles filhos de seus países que estão prontos, irrefletidamente, para retalhar seus maiores em pedaços e metê-los no caldeirão dos mágicos, na esperança de que, por suas decantações e encantações selvagens, consigam regenerar a constituição paternal e renovar a vida de seus pais '', Edmund Burke (declamei à ela, e acrescentei sensatamente: ''Reflexions on The Revolution in France (.) ----, e senti que, apesar de tudo, tinha conseguido colocá-la à prova, com este trecho. Além do mais, vali-me teatralmente da minha testa de intelectual, mesmo que ela fosse um pouco infantil, do meu nariz torto, do meu olhar vazio traindo um incrível poder mental, virilidade, nobreza, conhecimento alquímico, acesso à informações privilegiadas, tudo, porém, traindo também um toque de menino mimado.
Sorria-me, simpatizava muito comigo; havia até um certo ar de família no espaço vazio entre nossos olhares. ------- Perigosamente impulsivo, K (ela disse), espalhando a destruição na paisagem mundial para colher especulações injuriosas, arrogantes (caos e tumulto: leviano em tudo aquilo que diz; ''A hipocrisia '', diz seu amado Edmund Burke '' Compraz-se nas especulações mais sublimes; pois não tenciona jamais ultrapassar os limites da especulação, nada custa fazer com que seja magnífica (.) ''. ------, concluiu ela. Mas em qualquer parte do meu pensamento, menos na política, a rapidez com que minha posição fôra alterada momentaneamente por suas palavras era sintoma de uma instabilidade monumental. A política era o lugar onde ninguém, afinal , pensa realmente aquilo que diz ------ é um mundo de pesadelo, onde os psicopatas vagueiam livremente. Os profundos e candentes conflitos dos políticos são como as brigas de prostitutas num puteiro ----- arrancarão os cabelos umas das outras esta noite, mas amanhã estarão fazendo algum truque juntas. Naquele momento, ela olhava para mim com o ar de quem está sonhando, sob o efeito do Dilaudid. Eu era manhoso como um gato, e fiquei com vontade de discutir a questão. Edmundo Burke me era tão caro, que citá-lo diante de mim me deixava febril. ---- ''Somos ensinados por algum sábio preconceito a olhar com horror para aqueles filhos de seus países que estão prontos, irrefletidamente, para retalhar seus maiores em pedaços e metê-los no caldeirão dos mágicos, na esperança de que, por suas decantações e encantações selvagens, consigam regenerar a constituição paternal e renovar a vida de seus pais '', Edmund Burke (declamei à ela, e acrescentei sensatamente: ''Reflexions on The Revolution in France (.) ----, e senti que, apesar de tudo, tinha conseguido colocá-la à prova, com este trecho. Além do mais, vali-me teatralmente da minha testa de intelectual, mesmo que ela fosse um pouco infantil, do meu nariz torto, do meu olhar vazio traindo um incrível poder mental, virilidade, nobreza, conhecimento alquímico, acesso à informações privilegiadas, tudo, porém, traindo também um toque de menino mimado.
''Em algum lugar ele duvidava da capacidade daqueles judeus para o primitivismo erótico romano vodu''.
''Em algum lugar ele duvidava da capacidade daqueles judeus para o primitivismo erótico romano vodu''.
VIGÉSIMO QUINTO CONTO AMERICANO.
Meu papel no momento era perfeito para meu tipo particular de talento: eu jamais iria descer plenamente do muro sem saber o que havia exatamente do outro lado, todos os pontos delicados no universo do ocultismo aplicado à política. Mas talvez eu devesse (pensava mais tarde) ser um pouco mais cauteloso e limitar um pouco as demonstrações públicos do meu verdadeiro senso de humor. O maior problema era que a civilidade hipócrita me era tão atraente quanto uma crise de desinteria. A PESSOA SÁBIA NÃO SE CONFUNDE. A PESSOA HUMANA NÃO DESANIMA. A PESSOA CORAJOSA NÃO TEM MEDO. Palavras aparentemente óbvias no meu último banner eleitoral, mas que faziam lembrar a paginação do The New Yorker, com suas vastas margens brancas e o reduzido texto. Na tv, muitos analistas prosseguiam seu discurso de apoio à minha candidatura, hora após hora, como o tempo entre as quatro da madrugada e o café da manhã numa maratona de dança. Com tais discursos, as demonstrações injetadas entre os ocupantes do tempo televisionado me traziam a reminescência de rechonchudos e idosos turistas fazendo a hula-hula no Havaí. Se fosse considerado anormal um candidato à Presidência dos Estados Unidos desaparecer esquecido do noticiário por uns dias, e contente de assim o ser ------ embora meu desaparecimento tivesse o sentido mais importante ------- eu pareceria ao público telespectador então algo muito clássico. Eu julgava frequentemente, com uma severidade quase agressiva, os grandes políticos do meu tempo dos quais me considerava um igual, mas que ainda não igualava em renome. Talvez quase. Aliás, eu não fui de modo algum ignorado durante meu desaparecimento. Meu renome era o de um grande político profissional, mas que só tinha tido até então pequenas participações em grandes eventos partidários. Faltava-me o número, o peso da Máquina Administrativa no meu passado. Na minha última aparição pública, expliquei-me aos repórteres que me criticavam que o conhecimento que se tinha de mim era proporcional à ignorância: ------- Tanto conhecido como desconhecido, o que não quer dizer meio conhecido, mas produz uma mistura esquisita (.) ------, depois disso , havia sido a vez da turma de oradores que secundaram os votos dos patrocinadores da minha nomeação, as carpideiras e os aflitos, os que espremem, retorcem, distorcem e metem o nariz onde não foram chamados; os que protestam e reclamam, os chatos ministeriais e os parasitas rabínicos, os auto-satisfeitos, os narcisistas que me usavam como espelho, a turma dos ''estou contente que você tenha vindo, visto e vencido '', os auto-ungidos, os untuosos, os sebosos, os aproveitadores e os hesitantes. O dinheiro é que marcava a distância entre o sucesso e o fracasso na política. Mas, neste caso, eu não conseguia compreender porque. Respondia-me, confuso, que, talvez, quando se obtinha dinheiro sofria-se uma metamorfose e era preciso lutar contra poderes terríveis, dentro e fora de nós. Não havia mais, nos nossos dias, mais quase nada de pessoal no sucesso político. E tampouco nos outros setores da sociedade. O sucesso era sempre o sucesso do próprio dinheiro. Na TV, eu poderia ter confessado ter confessado que não queria mais levar à sério perguntas feitas em tom sério, perguntas sobre metafísica, meta-política ou política nua e crua, mas que eram formuladas de maneira errada. Eu almejava agora, para a reta final da campanha, apenas uma ternura pessoal. Estava quase resolvido a abrir meu coração na TV. Senti, na ocasião, que poderíamos ter discutido montes de assuntos fascinantes ---- por exemplo, porque o cochilo da tarde aparentemente matava o espírito dentro das pessoas, ao invés de expandí-lo; ou porque o despertar da população em geral era tão convulsivo; ou mesmo se a TV acreditava realmente que o espírito podia mover-se independentemente do corpo; ou se sentia que podia de fato existir uma espécie de consciência que não necessitasse de qualquer base biológica: Pois eu estava tentado a confessar publicamente que (no auge da minha campanha presidencial) havia adquirido uma, e que isso me ensinava, a cada noite, um sem número de noções esotéricas sobre o problema da morte. Por fim, ponderei comigo mesmo se discutiria seriamente com a TV a`famosa atribuição feita à Walt Whitman, que estava convencido de que a democracia americana fracassaria, amenos que seus poetas lhe dessem grandiosos poemas sobre a morte.
terça-feira, 14 de junho de 2016
VIGÉSIMO QUARTO CONTO AMERICANO (24)
VIGÉSIMO QUARTO CONTO AMERICANO (24)
A política americana estava agora acessível à principal doença da androgenia iniciática: a magia negra. A magia negra, ao contrário da alta magia, é algo capaz de arrebatar a atenção do mundo inteiro com extrema facilidade. Aquilo que é o sonho de consumo de todos os apresentadores de programa de auditório do primeiro mundo, só o mago negro consegue. E muitas vezes, o consegue por mero capricho e vaidade. Só para lembrar ao mundo de que ele é infinitamente superior aos seres humanos. Que pensar então dos que no terceiro mundo tentam imitar os do primeiro? Não existem, não são ninguém. Nas teorias do Dr. Freud, tenta-se compreender os pacientes com o auxílio de esquemas equivalentes à sistemas hidráulicos, que se encaixam bem nos cérebros de rato de laboratório da publicidade mundial, mas se reduzem à pó diante de um mago negro. Nas teorias do Dr. Jung, divaga-se com o conceito de que há apenas uma psique, e que ela é oceânica. Melhor, melhor... eu pensava. Muito mais tarde, sozinho no hotel, depois da leitura integral de toda plataforma do Partido Republicano, sobreveio-me o debate entre os moderados e os conservadores. Dei de ombros: o êxito na política , na minha opinião, resultava apenas de se instalar o traseiro numa poltrona e ficar sentado e quieto enquanto se desenrolavam as discussões cacête da mídia, de modo a estar sempre presente depois da meia-noite, quando os votos dos assíduos do clube secreto da Mão Esquerda são recolhidos. Os playboys não vão muito longe nestas circunstâncias, nem os meros aventureiros; os medíocres reconheceram cedo que uma sociedade se estava definindo, o qual os habilitaria a empregar aquilo que até então tornara a vida intolerável: a própria mediocridade. Assim , os temerosos, os covardes, ocupam seu lugar mo poder. Tinham a superior habilidade de respirarem nas horas mais maçantes. Assim (é o que vos digo), uma vez a cada cem anos, acada setenta anos, como um grande vendaval sangrento que ludibria os boletins meteorológicos e policiais, e parece surgir das profundezas do próprio oceano da Psique, assim um ciclone varre um determinado contexto político, quando este alcança o paroxismo de uma encruzilhada de vida ou morte. Naquele exato momento, abri o diário de Herman Melville, de 1857: ''... Fui à cavalo de Ramlah à Lydda... uma escolta montada de trinta homens, todos armados. Magnífica excursão. Tiro de mosquete. Arabescos e caracóis dos cavaleiros. Batedores. Homens cavalgando com todo o peso para um lado só, zombando do perigo '', e, poucos dias mais tarde, sobre a aridez da Judéia: ''.... um mofo leitoso espalhando-se por grandes porções da paisagem ----- caiada lepra ----- incrustação de maldições ------ queijo velho ---- ossadas de rochas ----- mascadas, roídas e resmungadas ------ simples refugo, lixo da criação ----- como o que jaz fora do Portão do Jaffa ----- toda a Judéia parece ter sido uma imensa acumulação desses detritos.... nada de musgo como em outras ruínas ------ nenhuma graça na decadência ----- nenhuma hera ----- a nudez ázima da desolação ------ cinzas alvejantes ----- caieiras ... ------ aldeia de leprosos ----- casas voltadas para a muralha ----- Sion. Seu parque, um monte de estrume. Sentam-se aos pés dos portões, pedindo esmolas ------ lamuriando-se ------ evitação deles e horror.... Errando entre as tumbas ------ até que começo a pensar que sou eu mesmo um daqueles possuídos pelo Demônio (.) ''
K.M.
VIGÉSIMO TERCEIRO CONTO AMERICANO.
Oh, rostos enrugados, olhos chorosos, ausência de espírito, conjuntamente com panças grandes e pernas finas, saindo do ar, num andar de caranguejo, diretamente para dentro do jogo de cabra-cega: assim os moderados do Partido Republicano partiram moderadamente para o ataque mais uma vez. Não eram, porém, oradores vigorosos e animados, não naquela noite. Aquela noite era só minha, e eu estava infiltrado no intelecto dos grupos profissionais de liberais; devotado sarcasticamente à assuntos pormenorizados, eu falava racionalmente, como um tímido professor de colégio , mas sempre terminava os tópicos dizendo que Hamlet talvez tivesse sobre aquilo um ponto de vista próprio (de modo que essa última qualidade do meu discurso não tinha como ser medida nem pelo New York Times nem pelo Wall Street Journal ). Bem, acho que exatamente naquela altura pensei que poderia ser uma boa idéia parecer um pouquinho mais americano, como um rapaz do interior, e mudei meu tom para o de um próspero dono de lanchonete. Achei que podia insinuar que, na verdade, não tinha nada a ver com os meios liberais , e tampouco com as instituições do Oriente. ------- Sempre fingi, por uma questão de comodidade, levar a sério os acordos econômicos com o Terceiro Mundo nos meus discursos, mas em conversas privadas segui descrevendo-os como governos vulgares, imbecis, chantagistas e corruptos. Mas há um aspecto sério nisso tudo. Digo: pretendo evitar a sátira total. Hoje quero examiná-los não apenas como líderes demagogos e bufões corruptos, mas também como entidade que desafiam a saúde econômica da América. Quero dizer algo sobre o ressentimento deles relativo à falência da civilização dos sonhos em liderar o mundo além da modorra tecnológica e dos meios financeiros parasitários. Quero falar da crise de valores (....) ------, enquanto eu discursava, parecia uma versão elegante de Boris Karloff, todo feito de uma suposta honestidade ''nua e crua'', os olhos vazios e profundos de um marinheiro após oito dias no mar mergulhado numa paixão turva e sem sentido. Agora, minha voz tornara-se possante e timbrada; contudo, a mídia pressentia uma lacuna perigosa no meio do meu cérebro, o que tornava minha atividade mental, naquele momento, tão perdida quanto a insignificante e perdida voz de Karloff. De fato, a excitação intelectual limitara-se ao início do meu discurso, que prometera mais do que se mostrou capaz de cumprir. Normalmente, eu não era um homem que inspirasse calor, mas frio e desolação: tinha um rosto forte e decente de vampiro aristocrático, algo duro, como se usasse para minha maquiagem o couro de uma bola de futebol. Mesmo quando me mostrava comunicativo e contagiante, dava a impressão que meu íntimo estava tão remoto dentro de mim quanto um astronauta numa órbita perdida. ---- Senhores (prosseguia eu, intimista) eu nunca fiz nada em matéria de política senão sonhar perigosamente. Tem sido esse, e apenas esse, o sentido da ''minha luta''. Nunca tive outra preocupação verdadeira na vida senão a prática do ocultismo. Abrindo uma janela secreta dentro de mim, em poucos minutos dissolvo-me poderosamente no Inconsciente Coletivo, e dele arranco todo tipo de quimeras incendiárias. E, arrastando uns para dentro dos outros, blocos inteiros de realidades. A quem alguma vez me veio falar de viver uma vida normal nunca prestei nenhuma atenção. Nunca amei nesta vida senão coisa nenhuma. Nunca desejei para mim senão aquilo que não podia nem sequer ser imaginado. À vida nunca pedi nada senão que passasse por mim sem me encher o saco. Do amor apenas exigi que nunca deixasse de ser senão um sonho longínquo e idiota. A única coisa que me atrai no Espírito são paisagens que se esfumam na distância ininteligivelmente. Meu olhar, naquele momento, tinha um ar de leve reprovação à massa, tanto quanto de receptividade às suas críticas. As vaias eram, no fundo, a colherada de lêvedo nutritivo que se metia nos meus negócios sempre que eles pareciam estar por um fio: um produto primário do público, derivado de seu consenso neanderthal, dissolvido depois na minha mente até atingir um estado espumoso e cor de rosa, como batida de frutas, mantendo minhas faces coradas e frescas. O principal resultado disse era um divertimento quase divino. A platéia não parou de manifestar-se até eu terminar meu discurso, mas, em casa, eu experimentara aquilo como entretenimento. Ali eu tivera um de meus momentos históricos, mas em casa seguia repetindo-me: ''Fique longe de temas como ''A Crise de Valores'' nessa campanha, K... Diga apenas algumas palavras ininteligíveis de advertência, e passe para assuntos mais amenos. Permaneça alheio à jogos competitivos gratuitos. Atenha-se silenciosamente aos Livros Santos. Suporte com firmeza impessoal os embaraços da alma coletiva: seja paciente com a estupidez do poder e a fraude nos grandes negócios (.) ''. No dia seguinte, às seis da manhã, acordei na minha cobertura em Manhattan tentando descobrir um meio de dominar a situação. Esse era o meu objetivo: mostrar à América, através apenas do meu comportamento indiferente, uma concepção silenciosa do meu adversário político: que ele era um homem de poucas idéias, e que nenhuma delas era própria; que possuía uma personalidade inapropriada para o primeiro plano do poder (no sentido em que Bobby Kennedy e Jimmy Hoffa tinham personalidades apropriadas para o primeiro plano do poder) . No entanto, era preciso admitir que ele extraía força do fato de desafiar a inteligência da Nação. Um milhão de anos atrás (eu pensava, vendo-o discursar na tv) algum gorila deve ter enfrentado uma tribo enraivecida, gritou mais alto do que ela e saiu vivo da experiência, dando início à sociedade humana.
VIGÉSIMO SEGUNDO CONTO AMERICANO
O Claw Palace oferecia ecos: bons pesos-penas e pesos-médios ali tinham lutado. Havia crueldade no ar. O Partido Republicano tinha instalado a plataforma do orador numa extremidade do oval; os delegados sentavam-se, portanto, numa fila que era consideravelmente mais longa do que larga. Disse para Sarah que eu estava levando aquilo tudo muito a sério. Pretendia dar um salto singular e mergulhar de cabeça na Verdade. O orador estava instalado no punho da espada. Era a reunião mais dos pais republicanos do que das mães democratas. Se alguns delegados não percebessem o efeito psíquico daquela decisão espacial, um gigantesco estandarte ali estaria, por garantia, içado por detrás do orador, com a seguinte legenda defronte dele: '' DO POVO, PELO POVO, PARA O POVO ''. Observação: ''DO POVO'', talvez não por acaso, estava quase invisível. ''PELO POVO'', era um tanto mais nítido. ''PARA O POVO '' era em letras garrafais e bem destacadas. Resumindo: era uma reunião mais ''PARA O POVO'', do que ''DO POVO''. Isso eu presumira utilizando a maioria dos meios contemporâneos de se filosofar... lendo The Sound and The Fury na noite anterior, eu tinha me deparado com as palavras de Quentin Compson, que não pertenciam originalmente ao seu pensamento mas à E.E. Cummings e à década de 1930, e não ao ano de 1910, como indicava o romance de Faulkner. Estava escrito ali: ''Terra do judeu safado, do carcamano podre, do negro violento (.) ''. Isso Compson dizia consigo mesmo ao comprar um pãozinho doce de uma menina italiana. Isso, também, eu teria lembrado sem ter ficado muito chocado se estivesse em casa, mas entre os jornalistas presentes à reunião do Partido haviam vários judeus. No entanto, eu eximia Faulkner de culpa. E, de fato, essa sempre fôra a escassa e solitária força do meu adversário político como orador: ele parecia ter certeza do que era bom para o povo e mergulhava sem nenhuma culpa no próprio discurso: ''Aqui estou com um grande orgulho por que sou republicano '', e ''A minha profunda dedicação ao republicanismo ------ ainda não passavam cinco minutos quando os jornalistas começaram a bocejar. Meu oponente sempre fôra um chato, mas havia um certo fascínio naquela chatice ante a perspectiva de que ela poderia leva-lo à Presidência ------ no fim das contas, agora ele era o homem. Mais cinco minutos e o lacaio da retórica pendurou mais algumas frases na sua voz clara e decidida, e algumas frases penduraram-se nele. Usualmente, quando estava sob a mira de alguma acusação da mídia, ele esforçava-se por levar seu discurso ao empate técnico. Quando decidia que ''o empate era um bom resultado'', tornava-se difícil ouvi-lo falar: toda a expectativa terminava derivando para paragens nauseantes e irrisórias. .. não significava nada. Os moderados tentavam vaiá-lo, e os delegados olhavam-no fixamente, em filas compactas de apreensivo silêncio. Mas o velho homem prosseguia: ------ A polícia deve ser ''politizada'', ''convertida'' (.) ------, de uma vez por todas (pensei), agora eu ia descobrir se havia de fato algo por trás dos incessantes indícios que pingavam sobre minha mente: ----Leninismo de Direita (?) ----, perguntava à Sarah, rindo. ------- Sem gelo nem bitters (.) ----, de fato: o centro nervoso de qualquer Estado reside sempre num organismo secreto. ------- Foi Thomas Jefferson quem disse que a árvore da liberdade tem de ser ocasionalmente regada pelo sangue de patriotas e tiranos (eudisse) Mas eu me pergunto se, a esta altura, no mundo, ainda há algum acordo tácito oficial com respeito à ''revoluções'', à organizações de massa, quadros, regime de polícia e organismos executivos secretos.... é uma suspeita revoltante: mas revoltante pela possibilidade de que não exista mais nada disso, ou que tudo isso tenha se tornado esquizofrenico e inoperante (.) -------, para mim, essa era a verdadeira essência das instituições humanas: um excerto que assumimos a propósito da morte, seja em escala individual ou institucional. Subitamente, no alto da plataforma, o velho tornou-se furioso, arrogante e vingativo sobre tudo o que lhe parecia fabricação da mídia. Os jornalistas, amedrontados, acompanharam-no, contagiados pelo pânico de que uma tempestade de idéias fascistas se abatesse sobre eles. Eu dizia à Sarah que , ouvindo aqueles mesmos jornalistas, sempre estaríamos perdendo nosso tempo, e que era mais saudável, para mim e para eles, que fossem esmagados e espezinhados. ------- Possivelmente sim (ela disse), embora voce esteja exagerando o poder da violência. Servirá apenas para resolver problemas de relacionamento, ajudar, limpar, higienizar, favorecer, ampliar o horizonte intelectual. Para fortalecer a posição americana e, ao mesmo tempo, fazer o bem ------- ou (quem sabe: ela ria) , talvez, rendendo-se a fantasias de onipotência, ser o plenipotenciário americano fazedor de nações, a operar nos bastidores da polícia política mundial (.) ------, naquele momento, ela fazia o gênero de discurso que, levado à sério, ocupa quatro ou cinco colunas do New York Times e serve para forrar as naves da História de pânico e desespero. O velho prosseguia seu discurso, no palco. Eu simplesmente duvidava que ele fosse apelar para os recursos da ciência política americana para dar essas lições de tirania. Em meses da campanha, ele certamente amolara mais de uma multidão, mas nunca as amolava completamente ------ sempre soubera como captar alguns indícios no populacho. Desde 2015 que vinha entregando pedacinhos módicos de sua alma para atrair demonstrações de afeto na massa. Eu , particularmente, já o conhecia tão profundamente que podia dizer quando chegavam tais momentos: Sua voz mudava. Sempre que estava disposto a amaciar a audiência, advertia-as disso começando a falar com uma colerazinha efervescente. Cutuquei Sarah e disse: --- Chegou o tal momento (!) --- : O velho mudou de voz , e disse : ------- REPUDIEMOS PARTICULARMENTE OS ESFORÇOS DIVISIVOS DOS ESTRANHOS À NOSSA FAMÍLIA, AO NOSSO SENTIMENTO AMERICANO, INCLUINDO OS COLUNISTAS, ANALISTAS E COMENTARISTAS ÁVIDOS DE SENSACIONALISMO (aqui, surgiram os primeiros sinais de apoio do público), PORQUE (prosseguiu ele, a voz revelando um requebro de soberbo desprezo) EU GARANTO QUE ESSA GENTE IGNORANTE E IRRESPONSÁVEL É A QUE MENOS SE IMPORTA COM O PARTIDO E O POVO ''. E o pior de tudo, era que ele tinha razão. Mas não foi por isso que ele falou aquilo. Foi para retribuir à imprensa o que ela vinha falando a seu respeito, para criar formigueiros elétricos no corpo balofo de um velho homem sedento de poder. Ele disse o que disse para vingar-se. Disse para agradar a multidão vingativa que o apoiava. Soaram trombetas, gritos, palavrões, arautos da nova cruzada: ''EXTERMINEM AS BARATAS, OS JORNALISTAS, OS COMUNAS, OS BUNDAS-MOLE (!)''. ... ''Essa era a terra do judeu safado, do carcamano podre, do negro violento ''. No dia seguinte, noticiavam-se nos jornais que os delegados tinham brandido os punhos violentamente para os jornalistas que circulavam no recinto e os repórteres de TV com seus microfones. Os meios de comunicação de massa não estavam, evidentemente, equipados com recursos físicos ou intelectuais suficientes para semelhante guerra. Aos delegados, pareciam todos insetos que se tivessem tornado de repente do tamanho de homens. Inacreditavelmente, aquele homem continuava falando no palco: ------- Não tem nada a ver (eu disse à Sarah). Multiplique por dois as complexidades da personalidade humana... pense em duas pessoas completamente diferentes, dentro de cada um de nós. Difícil de compreender é que cada uma possui sua complexidade, sendo tão completas quanto uma personalidade inteira. Muito bem, afirmo então que uma delas originou-se no óvulo, e portanto conhece mais os mistérios da existência ------ concepção, nascimento, morte, noite, lua, eternidade, carma, assombrações, iniciações, divindade, mitos, magia, carisma, fascinação, nosso passado primordial e assim por diante. A outra, resulta apenas das energias que levaram o esperma a nadar adiante, cego à tudo fora seu próprio objetivo; ela revela a tendência de ser mais dedicada à estratégia política republicana, à empreendimentos do tipo ''moer o milho'' , ''consertar moinhos '', ''construir o muro '', fazer ''pontes entre o dinheiro e o poder '', und so weiter.... (.)
VIGÉSIMO PRIMEIRO CONTO AMERICANO.
Impiedosa, bem-humorada, engraçadinha e gargalhante, Sarah ria na mesa do restaurante do Pierre, diante de mim, bebericando o Pouilly-Fussé, ciente do quanto eu admirava seu pescoço francês e a sutileza de seus colares brancos (eis o véu de Maia (eu pensava), mais vivo que nunca ! ) : ------ Aconteceu algo parecido com uma firma americana, há alguns anos (explicava-lhe: essa firma emprestou um de seus especialistas ao Departamento de Estado , que integrou o Comitê de Planejamento da Política para o Oriente Médio, cujo objetivo era, nas palavras desse homem: ''Descobrir meios de tirar vantagem da amizade que começava a surgir entre nós e ''eles'' (.) '' -----, bem, aceitando o fato de que a idéia corrente de felicidade consiste em fazer o que todo mundo faz, então deve-se assumir o que todo mundo assume ? Se forem preconceitos, que sejam preconceitos; se for raiva e avareza, que sejam raiva e avareza; e se for sexo ruim, fraco, bom, que seja... era o que eu pensava naquele momento: ''Mas nunca se atreva a contradizer sua própria época, a não ser que você seja do tipo K.M., sentindo que o lugar de honra, o Trono Todo-Poderoso, está do lado de fora. Porém saiba que o que é conquistado pelo saudável e vigoroso afastamento, por exemplo, num quarto em que cabe todo o conhecimento universal, não recebe honras exteriores. E dê Graças à Deus por isso... e saiba que você não será o primeiro a constatar a impossibilidade concreta de conciliar o sucesso mundano com a integridade espiritual, crestado pelo sentido da própria superioridade, e, consequentemente, inapto para bajular a Lei de um Estado e um Sociedade em ruínas. -------- Seu roteiro até aqui dá um belo testemunho sobre você (Sarah disse: Loucura, intrincamento, sutilezas desperdiçadas com ouvidos em transe, uma espécie de gênio aparentemente desorganizado (Espera: estão me chamando pelo telefone. Um momento só (.) --------, mas eu seguia pensando no quarto: havia de fato um espaço cósmico infinito dentro dele: cabia tanta gente morta que estava viva e atuante, que se você estava mesmo dentro dele, de corpo e alma, não importava onde, você era de fato um americano. E o pior: um americano enviado para Damasco ( por ''quem'', não era mencionado no documento da CIA), a fim de ''estabelecer contatos oficiosos'' com ''líderes sírios'' e ''achar meios de persuadi-los a liberalizar, por iniciativa própria, o seu ''sistema político''. Uma pausa : ---- De onde você roubou esses documentos (?) ----, Sarah perguntou. ------- Não roubei, apenas copiei.... faça as malas, você vem comigo. . Meu Deus, como você se sairia bem com algumas senhoras que conheço em Washington (.) -------, é claro que ela própria (pensava eu) pertencia àquela categoria: todo o encanto, o ''glamour'' fervilhante, a agitação quase insuportável que provinha do fato de se poder dizer americano no século XXI eram acessíveis somente às mulheres: para os homens há muito tempo não havia encanto nenhum em ser americano.
Enquanto falava, pensava comigo que, nesta vida, a gente não tem que subornar outra criatura para que nos ouça enquanto explicamos no que estamos ocupado secretamente, em horas suspeitas da madrugada: todas as pessoas que eu conhecia tinham olhos para ler os jornais ou ver a televisão, todos compartilhavam do êxtase coletivo de notícias, crises e poder. Mas apenas eu, naquele momento, no restaurante do Pierre, estava tendo um rápido vislumbre da situação real, acompanhado de um sensação levemente extra-terrestre e um princípio de ereção. Meu sistema de referência era de fato único e egoísta, fazendo estremecer tudo ao meu redor. ------- Cada qual conforme sua própria excitabilidade (.) -----, eu disse à Sarah. Mas, talvez, minha ereção se tratasse de alguma coisa mais profunda: ela testemunhava e encarnava as viradas do destino da humanidade. ------- O documento descreve ainda encontros com vários oficiais envolvidos no plano de uma conspiração vindoura que não é de todo elucidada no texto, para criar... (vejamos: ''.... uma vasta classe-média estável.... suficientemente identificada com os ideais e valores locais, para permitir o desenvolvimento de instituições democráticas verdadeiramente nacionais''. Ora, insinuando-se, dessa forma, em uma nova esfera política, os americanos providenciariam empréstimos para a nova democracia a caminho. Nesse ponto, um cientista político do Departamento de Estado e ex-executivo de uma firma de contabilidade, uma das maiores do mundo de publicidade e relações públicas, seria ''mandado ao Cairo para produzir uma série de relatórios identificando os problemas e pessoas do novo governo sírio e recomendando soluções políticas envolvendo sequestro de bens privados e assassinatos estratégicos ''(.) -------, àquela altura, até mesmo Sarah, quem eu jamais havia tocado sexualmente, estava sujeita à atividade astral da minha ereção subreptícia: vivendo dela enquanto dormia, através do sangue bombeado para a minha glande, ou afogando-se na grande noite vaginal das poluções noturnas, ela mesma objeto, vista em seu transmutar ou em seu sucumbir, sentindo no próprio corpo meus acessos de força tântrica e estopins de transmutações -----
Enquanto falava, pensava comigo que, nesta vida, a gente não tem que subornar outra criatura para que nos ouça enquanto explicamos no que estamos ocupado secretamente, em horas suspeitas da madrugada: todas as pessoas que eu conhecia tinham olhos para ler os jornais ou ver a televisão, todos compartilhavam do êxtase coletivo de notícias, crises e poder. Mas apenas eu, naquele momento, no restaurante do Pierre, estava tendo um rápido vislumbre da situação real, acompanhado de um sensação levemente extra-terrestre e um princípio de ereção. Meu sistema de referência era de fato único e egoísta, fazendo estremecer tudo ao meu redor. ------- Cada qual conforme sua própria excitabilidade (.) -----, eu disse à Sarah. Mas, talvez, minha ereção se tratasse de alguma coisa mais profunda: ela testemunhava e encarnava as viradas do destino da humanidade. ------- O documento descreve ainda encontros com vários oficiais envolvidos no plano de uma conspiração vindoura que não é de todo elucidada no texto, para criar... (vejamos: ''.... uma vasta classe-média estável.... suficientemente identificada com os ideais e valores locais, para permitir o desenvolvimento de instituições democráticas verdadeiramente nacionais''. Ora, insinuando-se, dessa forma, em uma nova esfera política, os americanos providenciariam empréstimos para a nova democracia a caminho. Nesse ponto, um cientista político do Departamento de Estado e ex-executivo de uma firma de contabilidade, uma das maiores do mundo de publicidade e relações públicas, seria ''mandado ao Cairo para produzir uma série de relatórios identificando os problemas e pessoas do novo governo sírio e recomendando soluções políticas envolvendo sequestro de bens privados e assassinatos estratégicos ''(.) -------, àquela altura, até mesmo Sarah, quem eu jamais havia tocado sexualmente, estava sujeita à atividade astral da minha ereção subreptícia: vivendo dela enquanto dormia, através do sangue bombeado para a minha glande, ou afogando-se na grande noite vaginal das poluções noturnas, ela mesma objeto, vista em seu transmutar ou em seu sucumbir, sentindo no próprio corpo meus acessos de força tântrica e estopins de transmutações -----
sexta-feira, 10 de junho de 2016
VIGÉSIMO CONTO AMERICANO.
Por maior que fosse minha apreensão, tecnicamente, eu não considerava a situação tão excitante quanto parecia . As pessoas careciam de força interior para suportar o peso das minhas palavras, e começaram a sucumbir à demência precoce. Eu era como uma mãe para elas. Para mim, no entanto, representar minhas idéias com mais suavidade também era uma fonte de prazer, de modo que o velho truque maçônico de ''bater e assoprar'' era de muita utilidade. William Blake estava certo ao dizer que o Prazer era o alimento do Intelecto. E, se por acaso o Intelecto não pode digerir a comida, você o cozinha em fogo lento com Zwieback e leite morno. Na verdade, houvera poucos momentos de sensação em todo este negócio: não tinha sido nada em comparação com a Convenção Democrata de 1960, e menos ainda com a demonstração em favor de Adlai Stevenson, quando Eugene McCarthy o levou à nomeação. Entretanto, esta Convenção restará como uma das mais importantes da história, pois , além de ter sido eu o nomeado, teve lugar com uma exaltação religiosa para alguns, com apreensão e temor para outras, e com puro trauma para a maioria da imprensa e da televisão que presenciaram as cenas que a envolveram ao redor do mundo. A finalidade da imprensa, na América, tem sido a de botar remendos na Máquina Republicana: ajustar, preparar a sede para novas válvulas e valores, lubrificá-la como a um ânus, desculpar, justificar, servir na conservação do Estabelecimento. Desde I. F. Stone, na esquerda, até a direita de Joseph Alsop, indo quase tão longe quanto David Lawrence, o entendimento essencial dos meios de comunicação em massa na América é que a Máquina Partidária é uma trapalhada infinitamente grata aos suprimentos intelectuais da mídia (quando os há); faz-se, assim, um jogo em que o Estabelecimento perdoa sempre os meios de comunicação pelos seus excessos, quando o que deveriam fazer é processá-los judicialmente, e operadores da mídia, por sua vez, põem seu sentido de civilização (ajustamento, psicanálise, Buda Body Yoga, equino-terapia, responsabilidade, ética profissional e as mais temperadas praias do amor) à serviço de uma idéia deprimente de familialismo pequeno-burguês, e não do alargamento do horizonte político . Virtualmente, tudo é perdoado de ambas as partes. Esquecem-se os comentários contraditórios dos políticos e candidatos: as revisões e vaticínios mais burros dos sabichões especializados vão sendo enterrados sucessivamente com exagerada piedade. Nenhum partido ou jornal seria capaz de recordar que, por exemplo, eu falara em público que: ''Nenhum político republicano sério, mesmo o mais próximo do tipo Neanderthal, toma ainda a sério meu adversário político ''. Não, a imprensa americana não seria censurada pelas suas limitações técnicas e intelectuais, porque metade de sua compreensão do país deriva, no fim das contas, do material fornecido pelos Partidos; a outra metade provém da conversação sustentada entre eles mesmos. Com muita frequência, a imprensa vive a situação investigativa do amante que realiza o ato em dois minutos e fica falando a respeito dele durante vinte das vinte e quatro horas diárias. Televisão? Uma cadeia diáfana e mimosa. Explicações? Ora, os que manejam o poder pensam que se mantém o Diabo à distância não lhe citando o o nome. Mas é justamente este procedimento que me oferece a formidável concha psico-acústica em que aprisiono o cérebro do mundo no bolso da minha calça. E ele está me olhando com olhos grandes, cegos, leitosos, ensanguentados olhos de parede.... Alguma esperança para essa operação humana de combinação selvagem chamada Estados Unidos ? Sim: As ''Cartas'', de Keats. O assunto aqui é tudo. Tudo o mais desaba, desmorona, resulta curto, vago, pobre. A geração clandestina da direita é um bando frustrado até aqui: uma convenção de algozes que subscrevem o princípio de que os carrascos também têm seus direitos. O espírito liberal desmorona-se ante essa noção, porém mais da metade da natureza pode conter-se na idéia de que os fracos são mais felizes quando a morte é rápida. É uma noção que, desde os nazistas, tem sido francamente detestável mas, então, o maior prejuízo intelectual que os nazistas podem ter causado foi tomarem alguns princípios da natureza e pervertê-los das raízes às nervuras. Em nome do barbarismo e de um regresso à saúde primitiva, eles aceleraram os aspectos mais surrealistas e totais da civilização. A câmara de gás foi um descendente inteiramente albino da Revolução Industrial. Voltemos ao assunto! Mas, qual é o assunto ? Um escritor tão refinado quanto Jorge Luís Borges afirmava que a literatura moderna só era superior, não quando apelava para o estudo dos caracteres e o aprofundamento da variedade psicológica, mas quando era capaz de inventar fábulas e ''assuntos''. E isso não acontece mais hoje: a literatura ficou totalmente en-merdecida, assim como o esoterismo. Só a performance virtual salva! Os leitores ingleses sempre desdenharam, por sua vez, as peripécias romanescas e preferiam escritores hábeis em escrever romances sem assunto. Ortega y Gasset, anos mais tarde, disse que era muito difícil inventar, hoje em dia, uma aventura capaz de interessar nossa sensibilidade De fato: é incrível como as imaginações luxuriantes embotam nossa delicadeza a ponto de se tornar vulgar e barata e só lidar com assuntos corriqueiros, como as correntes mais moderadas da Esquerda e da Direita na América. Ora, os primeiros americanos eram rodeados pela mata virgem, e depois rodeados por coisas corriqueiras, e essas, no entanto, eram exatamente como se fossem mistérios impenetráveis. Fé na soberania imparcial da imaginação, algo que sempre faltou à Beat Generation: uma ''revolução'' modesta, pouco atraente do ponto de vista intelectual, terrivelmente suicida no centro de sua paixão. No seu máximo de militantismo, desejou muito mais a auto-imolação do que o poder. Como respeitar algo assim? Todavia, no fim dos anos Cinquenta, os liberais reagiram à ela com um terror profundo, ridicularizando suas manifestações através da mídia. Mas, perante uma ''revolução'' de Direita, como será que reagiriam ?? Seu pesadelo pessoal poderia muito bem ser sua incapacidade para sustar os impulsos mais assassinos dessa ''revolução'', de um movimento de Direita cujo espectro é aquele sangue e hálito inapagáveis do nazismo, que pairaram durante todas essas décadas sobre o tradicionalismo, qual um espírito demoníaco que se alimentasse dos tecidos dilacerados, decrépitos, da civilização. ------- Fiquem do meu lado e estaremos todos em boas relações (eu dizia outro dia, numa rápida aparição da tv) ; em suma, não percam o bom humor por tão pouco.... agora que as paixões políticas maiores e mais ambiciosas estão-se anestesiando dentro de mim, eu tenho me apresentado em público com uma mesura cada vez mais antiquada, tirada à Moliere. Assistindo à televisão , nos últimos dias, com as Reflexões de Edmund Burke debaixo do braço, percebi que quando os homens de posição sacrificam todas as idéias de dignidade à uma ambição sem um objetivo nítido, e obram com instrumentos baixos, para fins baixos, toda a composição se torna baixa e vil (.) -----, mais tarde, continuei batendo naqueles mesmas teclas. Quanta mágica, quanta magia negra existe no subconsciente!! No restaurante, assistindo à tv, eu via os olhos da apresentadora indo da direita para a esquerda, enquanto eu lia o cardápio. Uma pausa aqui para um longo intervalo comercial: a alma deixa o corpo enquanto a gente come ?? Nessuno sa.... o espírito americano passou de Nathaniel Hawthorne e Emerson para The Walking dead e Game of Thrones e o cerebralismo estatístico no futebol, em que um quarterback devia agora ter não só coração, valentia, força e agilidade, mas também uma cabeça que funcionasse como um Big Data. E vocês acreditam em todo esse negócio. Tudo isso aconteceu enquanto as pessoas comiam.
DÉCIMO NONO CONTO AMERICANO.
Meu bom humor tornara-se uma ferramenta de tortura para muita gente: o mundo inteiro tinha medo da minha nomeação, e ela chegou tão prontamente quanto uma chuva ácida acompanhada de uma banda de gaita de foles. No hotel (aonde?) às quatro da madrugada: sempre tive mais pena dos que sonham com o provável, o profissional, o legítimo, o esperado e o fácil, do que os que devaneiam sobre o longínquo e o o estranho, pois os que sonham com o possível encontram apenas a possibilidade real da desilusão. Se os outros não estavam satisfeitos consigo mesmos ... Meu mal, até a nomeação oficial, foi apenas pensar que eu era mais inteligente que aqueles velhos entusiastas de 1789, 1848, 1870, 1917. Meu prazer ansioso e subjetivo era a certeza de que eu era mais esperto. Enfim: e era mesmo. Dear Chevalier, por um diabo de arranjo especial indescritível, os loucos sempre têm mais energia para queimar. E se William James estava certo, era porque William Blake estava certo, ERA PORQUE EU TAMBÉM SEMPRE ESTIVE CERTO. Felicidade nada mais é do que a busca no mais alto grau de ''energia psíquica'', e estamos neste mundo em busca de felicidade: então a loucura é pura felicidade e conta também com sanção política suprema. ------ Assim como o corpo é uma porção da alma dividida em cinco sentidos, um traje espiritual próprio havia se estabelecido no meu espelho (.) --------, eu disse para mim mesmo. Era uma advertência da febre de entusiasmo que lavrava meu coração naquele momento. Concordo, no entanto, que não era esse o aspecto mais tranquilo do meu pensamento: há pensamentos que parecem atravessar todos os portões protetores de nosso ouvido e atingir algum nervo onde a escatologia se armazena. Chamavam-me, sem delongas, de traidor, Judas, delator, puxa-saco, oportunista, alcoviteiro, golpista, mercenário, hipócrita e... adorava esse: DEMÔNIO. Estavam sentido-se humilhados, obviamente. Primeiro, minha reação era concentrar-me longamente na minha imagem refletida no espelho; segundo, um entusiasmo selvagem e explosivo. Ambos eram muito voluptuosos... mas, por fim, eu me perguntava como fôra capaz de adquirir tanta importância nas obsessões e fixações das pessoas, e, em alguns casos notórios, em seus ódios . Respondia-me que meu senso inato da Verdade deixava um rebanho de idiotas doente de inveja. Meu vôo vertiginoso pelos céus floridos da Verdade: uma carne semi-criada pela minha própria carne. Subitamente, eu revelava ao mundo que o conhecimento da semente é espiritual, e que meu espírito era um astro da Broadway. Outros, mais modestos, encontravam sua parcela de verdade escutando jazz no escuro; sonhos vagos, luzes confusas, paisagens perplexas... havia realmente algo de selvagem , marcial e sem fundo na minha relação com Deus, que remontava às origens do Universo: um orgulho que não podia ser exaurido, uma determinação inesgotável que talvez não pudesse mais ter fim, pois se alimentava apenas de si mesma. Felicidade, infelicidade da imagem ? Eu estava tentado a reconhecer nela, rigorosamente descritos, muitos dos meus sonhos, das minhas suspeitas e da minha obscenidade, e até o ingênuo e insinuante pensamento de que, se eu viesse a morrer por causa disso, faria passar muito da minha vida para as figuras eternamente animadas pela minha morte. E já que o devaneio de hoje deslizou nessa direção, lembremo-nos do Golem, aquela massa rudimentar que recebia vida e potência das letras que só seu criador sabia escrever, misteriosamente, em sua testa. Mas a tradição (eu pensava) engana-se ao atribuir-lhe uma existência permanente, semelhante a dos outros seres vivos. O Golem se animava e vivia com uma vida prodigiosa, superior à tudo o que o ser humano era capaz de conceber, mas somente durante o êxtase de seu criador . Era-lhe necessário esse êxtase, e a faísca raríssima da vida extática, pois ele mesmo era somente a realização instantânea da consciência do êxtase. Assim (concluía eu ), havia um amplo, ainda que secreto fascínio, em escutar as palavras que eu lançava no ar da América, estridentemente, o anúncio de uma nova cruzada, algo fanhosa, viking, que viria do Norte, uma sensação de quebra-gelos e escudos bárbaros, de caçadores à solta de novo na terra. E isso tudo possuía um fascínio que calava fundo nas pessoas, que excitou-as todo o tempo ao simples pensamento de que obteria a nomeação convencional, como se, agora, todas as mortes de alma acumuladas pelo passado, todos os fracassos, todos os terrores, pudessem ser agora expurgados numa situação nacional em que cada um de nós perder-se-ia numa avalanche de histeria belicosa coletiva. Havia no ar da América aquela excitação de que o fardo da alma de cada americano pudesse, finalmente, ser removido ----QUE ALÍVIO (!) A beleza era inspirada pela perspectiva da guerra. Pois se eu vencesse as eleições, e o poder de ferro da gente de ferro que me empurrava para adiante lançasse agora sobre a nação um regime de ferro, com o totalitarismo apossando-se da Televisão a cada jantar gelado, bom, então, uma verdadeira clandestinidade poderia finalmente formar-se; e também (consequentemente) a verdadeira liberdade, ao pensar-se em qualquer catalisador que pudesse dar-lhe origem. Sim, o movimento PRÓ-K. excitava as profundezas da psique americana porque o Apocalipse estava mais próximo e, como milhões de outros americanos brancos hiper-calóricos de temperamento violento, eu também levara uma vida sem nenhuma finalidade e demasiado encharcada de culpas, e a náusea afogava-me a garganta ao pensar nas transigências sem fim de um centro liberal e vazio. De modo que segui (vitorioso) para a Convenção com algo mais do que simples apreensão. O país estava dando uma guinada (perguntava-me), as cores definiam-se, as navalhas da noite eram empunhadas, algo do melhor na vida americana estava morrendo para sempre.. ? ; ou seria justamente o contrário ? , ou estaria o país começando, por fim, a transferir as tumefações de suas próprias contradições de uma pré-matura meia-noite de pesadelo para o terreno cirúrgico da ferida aberta na pele ? Estaríamos no princípio, ou dobrando o meio da nossa pior doença ? Não sabíamos mais, simplesmente, não era possível saber mais, embora uma coisa fosse certa: o país era agora uma preocupação cotidiana de todos os cidadãos. Aquilo lembrava-me Edmund Burke: '' ... Quando os homens estão confinados demais a hábitos de profissão e faculdade, e inveterados, por assim dizer, no emprego recorrente desse estreito círculo mental de especializações, encontram-se mais ineptos do que qualificados para tudo o que dependa do conhecimento da humanidade, da experiência em assuntos variados, de uma visão global e interligada dos diversos, complicados interesses externos e internos, que concorrem para formação e o desenvolvimento dessa coisa multímoda a que se chama Estado ''.
''Genus Irascible'
Não é nenhuma novidade que os grandes escritores têm fama de suscetíveis, e que por motivos nem sempre importantes se envolvem em polêmicas intermináveis, mandam cartas abertas, declaram amor à mulher alheia, apontam o dedo, levantam a voz, etc, e em outros tempos até se batiam em duelo. Não sei quem, séculos atrás, qualificou-os de ''genus irritable'', ou ''genus irascible'', distinguindo-os de outros genus menos melindrosos, se bem que afinal a coisa ainda está por ver-se já que os pintores, os músicos e os advogados também tendem a acertar contas entre si de maneira extremamente vivaz e às vezes desaforada.
Por meu lado nunca acreditei que as polêmicas adiantem muito, embora não me reste mais remédio senão entrar nelas quando as razões vão além da mera suscetibilidade. Tal é a nossa (dos escritores de gênio) má fama nesse terreno que basta uma simples retificação ou um intercâmbio de opiniões divergentes para que os ecos jornalísticos enciumados logo falem de polêmica e, o que é pior, façam todo o possível para jogar lenha na fogueira e fazer um incêndio com o que não passava de um foguinho insignificante e descartável.
Anos atrás tive uma troca de opiniões nesse sentido; falou-se de polêmica e perigo quando na verdade se tratava apenas da mais indulgente e desinteressada tentativa de diálogo à distância, coisa muito diferente de uma polêmica sensacionalista já que essa é quase sempre agressiva como bem indica a própria raiz do termo ''polêmica''. Essas experiências me deixaram uma lembrança amarga, não por elas em si mas pela tendência geral dos colegas e leitoras a considerá-las como lutas de doze rounds ou duelos com o sabre na mão. É por isso que mais de uma vez preferi deixar passar diversos comentários insidiosos, provocações, calúnias e tergiversações, entendendo que eram produtos do ressentimento alheio ou do antagonismo social, espiritual ou ideológico, e que todas essas intrigas acabariam se afogando em seu próprio atoleiro como aconteceu em todos os casos parecidos.
K.M.
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