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...se Tocqueville soube criar, como poucos – e sem abandonar a antiga concepção de História como Mestra da Vida – uma nova História que continua a nos espantar pela sua originalidade, profundidade e atualidade, não soube, criar uma nova ciência da política. Dir-se-ia que a razão do que é ao mesmo tempo o seu sucesso e o seu fracasso, está no fato de que o aristocrata Tocqueville, soube e pôde, como historiador, se abrir para a democracia, isto é, combinou e potencializou o que a historiografia aristocrática e democrática tinham de melhor; mas como cientista político, seu aristocratismo (também conservador além de liberal) não lhe permitiu essa abertura e uma ciência da política sem espírito democrático não poderia funcionar num mundo democrático. Pois, não se deve esquecer, o liberalismo tocquevilleano nunca foi nem burguês, como o de Constant ou Guizot, nem radical ou progressivo, como o de seu admirador e correspondente John Stuart Mill.
Assim, se a recusa de Tocqueville em abandonar a concepção tradicional de História não o impediu, mas, ao contrário e paradoxalmente, o ajudou a fazer uma nova História, sua recusa em abraçar um dos novos sistemas filosóficos em circulação, únicos adequados para operar em um mundo totalmente novo, fez com que sua "nova ciência política", não passasse, em termos práticos, de um whishful thinking. Não por outra razão, Tocqueville, ao contrário de Comte e Marx, por exemplo, que também pretenderam criar uma nova ciência baseada na história, não formou discípulos, não deixou seguidores, partidários ou adeptos. Como poderia, Tocqueville, pretender interferir em comportamentos individuais e coletivos e, eventualmente dirigi-los, se só tinha a oferecer dúvidas, dilemas, ao invés de certezas e convicções. Nesse sentido, ele nos faz lembrar Erasmo diante da Reforma. Erasmo, diferentemente de Lutero, nada tinha para oferecer às massas, pois o seu (de Erasmo) era um cristianismo muito elevado e espiritual, um cristianismo somente ao alcance de uns poucos e nobres espíritos.
Alexis de Tocqueville: A historiografia como ciência da política
Modesto Florenzano
Depto. de História-FFLCH/USP
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