quinta-feira, 29 de setembro de 2016

Grandón do pidgins Joss (12)

Continuo agora de memória, e está escuro. Estou deixando passar a noite de novo. Agora que a ciência está madura, eu me pergunto porquê ainda existe filosofia no mundo. Uma rápida reflexão sobre o conhecimento que temos das coisas, enquanto me desloco até a janela para fumar. Bah, mas tudo isso são suposições. Bonitas, talvez, mas uma vez que se fuma, a filosofia se instala na Cabeça. Ela está no sentimento infecto de piedade que experimento diante das coisas, sobretudo as portáteis, de madeira e jornais picados, que me fazem desejar tê-las comigo e guardá-las no bolso, não tendo eu evoluído muito no terreno das paixões humanas. Ao acaso dos meus pequenos deslocamentos no escuro, do deslocamento da minha Cabeça, opto claramente por uma outra relação com as coisas; um outro de tipo de conhecimento, do qual a ciência nos privou, sobretudo  na relação da Cabeça com o espaço. Essa é a primeira deixa que aproveito hoje para insinuar bem de leve algo que quero dizer há muito tempo. O RETORNO ! Não o Eterno, mas aquele menor, dos dados dentro dos olhos. Pois os dados imediatos não estão imediatamente dados. A crítica da Rússia à retórica diplomática de Washington é coisa bem distinta de psicologia. Embocam-lhes papa vitaminada nos discursos para deixarem-lhes com um genocídio fritando na mão. Negociações equivocadas em todos os aspectos. Por outro lado, os Estados Unidos são uma unanimidade diplomática há décadas por serem previsíveis o bastante para transparecerem algum valor confiável. O silêncio da China sobre certos assuntos às vezes é tal, que o país parece estar desabitado. A diplomacia moderna se resume num jogo de consórcios que emitem vagas ordens, que podem ser cumpridas ou não. Dos dois lados, dois movimentos que se distendem e se põem ao exterior de si. Não que eu queira usar isso para chamar a atenção sobre mim, mas para outro barulho que não o das coisas. Por isso tento falar suavemente, andar suavemente, sempre, como convém a alguém que não tem nada a dizer nem sabe onde está pisando.  Nessas condições, prefiro não me fazer notar: um movimento da Cabeça que tende a se congelar em meu pensamento, no resultado que o interrompe; e outro movimento que retrocede, reencontrando no pensamento o movimento do qual ele resulta. Assim é que corro sempre o risco de me perder a cada repouso, a cada respiração. Em todo caso, não gosto de gritar, nem de apontar o dedo, em acusação. Digo apenas uma pequena parte das coisas que me vão pela Cabeça. Assim eu me reencontro aos poucos, retomando-me numa tensão gradual. Fumo, abro e fecho os olhos. O escuro é uma vantagem em certo sentido. Ele não aceita bem nenhuma mentira, nem se compõe exatamente de instantes; os instantes são apenas suas paradas virtuais; seus (meus?) pensamentos e a sombra dos meus pensamentos. O Ser não se compõe como um Presente. Aliás essa questão nem se coloca. Direi apenas que os instantes e os pontos não são segmentados e basta! Basta sobre isso. O espírito e a matéria. O escuro e a matéria. A matéria e o pensamento. Tudo enfiado no tempo de duração de um cigarro, inclusive a Rússia, a China, os países em desenvolvimento da Ásia e o Banco Asiático de Desenvolvimento. Um SOB o outro, e não um DEPOIS do outro. ALGO ao invés de NADA. Mas para quê tal tensão ? Me falta ainda um pouco de calma, enquanto fumo. Ao invés de diluir meu pensamento calmamente, o escuro concentrou-o dramaticamente no Indizível, obrigando-o a seguí-lo mais uma vez até a fonte do qual emana. Anamnese. Me pergunto porque essa necessidade de ação do pensamento. Estou ficando nervoso.. . agora vejo o raio particular que conecta o pensamento à Deus. A julgar pela sua aparência, não. Não o quê ? Estou pondo coisas muito diferentes sob uma mesma palavra. Nem uno, nem múltiplo, mas aquilo que difere de si mesmo, eternamente, por uma certa tensão do pensamento. A intuição intelectual é o método que busca essa diferença em movimento constante, nas ''articulações '' da realidade. É o mesmo que saber se orientar bem nos complicados enredos dos romances vitorianos, aquele misto eternamente mal analisado da literatura inglesa.  Somente a tendência é pura, afinal. Essa vibração ocupa ainda vários instantes. Sinto que posso recitar de cor todos os personagens de Tropolle, mas continuo ignorante da sociedade e dos afazeres cotidianos. Minha Cabeça decompõe o espaço em matéria e tempo, sem imaginar o que isso significa.  Diferencio-me do mundo apenas pela contração e a distenção do pensamento. Estou no princípio da matéria, nadando eternamente vitorioso nos seus ''índices'' mais inacessíveis. Todas as linhas de fatos e diferenciações me pertencem,  e todas as convergências de probabilidades. Axis Mundi. Corto, Recorto. Picoto e aí está: Recuperação da China estimulando a economia dos vizinhos. 5,9%. 6,6%. 6,7%. A essência do impulso vital é desenvolver-se em forma de feixe, atualizando direções divergentes. Nada muito bem sintonizado em termos psicológicos. Antes, credulidade temporária e confusão. O mundo atual vive tudo em termos pessoais, inclusive suas contradições. O único jeito de corrigí-lo é não existir. Um trabalho xamânico. Não é (em definitivo) política ---- é vida particular. Um esforço de ''artiste''. Um desafio para os ânimos ocultos. Tudo é mudança de energia, variação e tensão, nada mais. Se pusermos todas as coisas insuportáveis do mundo numa coluna, traçar uma linha embaixo dela e somá-las, o resultado será algo ''totalmente insuportável''. Mas, se em lugar de pretendermos somá-las, instalarmo-nos nelas por um esforço de intuição, teremos o sentimento de uma certa tensão bem-determinada, talvez sufocante, mas cuja determinação nos parecerá antes uma escolha. 

K.M.

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