Suavemente o espaço das minhas pequenas posses zune de novo no mundo, quando chego em casa. Eu já tinha experimentado algo parecido outro dia, e Fay sugeriu que talvez fosse apenas minha cabeça. ----- Mas me parece realmente (eu disse à ela) que estou dentro de uma cabeça (.) Só que no outro extremo do espectro social, onde é impossível, ou antes inútil, constatar isso (.) Você sabe, há uma enorme diferença de temperamentos e interesses. Uma hierarquia me separa da gente que vejo na rua. Essas quatro paredes de osso maciço que encontro em casa, assim que tiro os sapatos e apago a luz, pouco depois reaparecem lá na rua, me acompanhando com um olhar gigantesco, cada passo meu. Eu, particularmente, nunca engoli isso, mas a leitora média parece acreditar em mim quando digo que essa cabeça é a encarnação de um deus, uma inteligência artificial, mas daí a dizer que seja minha própria cabeça, não, isso nunca (.) Uma espécie de ar circula nela, digo ''com certeza'' circula nela, como um veneno, e quando tudo se cala quando apago a luz eu sinto o disparo daquela cabeça contra os tabiques de osso que ela rejeita como destroços de uma figura menor (.) O ar que circula nessa cabeça é daqueles que se prestam à divina combustão de Santelmo, no centro da qual ela desata e ata de novo em outras ondas, e daí, sem dúvida, seu barulho de praia cósmica, dentro do meu silêncio (.) Tal silêncio tem uma lógica toda própria. Vejamos se é mesmo o vácuo, se fecho os olhos e vogo através dos ares. Reduzir tudo isso à uma questão de pálpebras é obviamente preguiça da minha parte, do olho penetrante e espreitador que se nega diante das palavras (.) -----, concluí. Naquela noite, após tirar os sapatos e apagar a luz, a Terra toda se transformara numa plataforma de embarque, na qual eu pensava com um mínimo de terror e deslumbramento. Embarquei minha respiração nela e passei os dois dias do fim de semana num estado inesquecível do qual não saberemos nada nunca. ----- O recuo (expliquei à Fay) foi grande demais dentro dos meus ossos, ou talvez nem tanto, ou nem sei mais, a não ser que aquilo me permitiu resolver tudo e acabar tudo(.) Tudo que digo é a respeito de um menor grau de coisas dizíveis, que não eram realmente da alçada da fala (.) Como um desabamento de areia no lugar da minha ausência, no período em que o tempo passou suprimido. Nada restando fixo naquela grande cabeça cósmica fora o arregalar dos meus olhos, antes de deixar cair sobre eles a cortina do tempo, em forma de pálpebras. (.) -----, eu disse. Enfim, mas devia ter dito à ela também que todas aquelas sensações me eram familiares de longa data. Estava me lembrando agora: a Lua, não muito distante do meu olhar, redonda como um sinal de trânsito. Mas falar desses períodos de liquefação em que passo ao estado de vegetação lunar, para quê (?) Não é tanto a aspiração faustiana ou o vampirismo psíquico, mas antes uma estratégia de terra calcinada que me faz detalhar tudo aquilo que não compreendo depois que faço. Mas faço do mesmo jeito: e certamente todas essas ideazinhas saem daquela grande cabeça de Lua, como flechas. Depois que fujo para a felicidade do esquecimento, reconheço tais pensamentos quebrando-se contra outros muros. Ainda assim, dão eles sinais de ampla reflexão. E em função de um apurado sentido de deferência, faço todos eles desembocarem de mim vagindo, em pleno ossuário. A maior parte deles se engancham no meu esqueleto e me incham, enquanto não escorrem totalmente. E me inchando, incham minha lenda. Depois infiltram-se nas histórias que conto a mim mesmo sem parar, desde criança. Sempre me pergunto o que mudou desde então para que eu continue me excitando tão horrivelmente, como um lunático. É isso então, não consigo responder à essa pergunta. E também não consigo parar. Nada mais do "'Eu e o Universo'' resta em mim além disso. E o entanto me parece que todo dia nasço de novo , vivo longamente e e logo depois morro.. Ultra specie aeternitas. Não um homem de meu próprio tempo, mas com acesso ao mecanismo centralizado de dados dentro da Grande Cabeça que fará surgir o Novo Adão. Bem, algo bastante estranho, por sinal. Ainda mais julgando tê-lo feito surgir num único final de semana. A verdade: mas encontrada por aproximação, batendo nela com os ossos. Os osso da cabeça. Mundos novos ? Nem tanto, não. Feliz ? Nunca, isso nunca! Mas com o sentido da potência mística do gênero humano para evitar certos protótipos da ignorância. Mais propriamente, aquilo que faz os homens se dizerem: ''Vamos, a vida... é preciso aproveitá-la (.) '' Assuntos muito simples. Digam o que quiserem, mas quando Wagner era a avante-garde do simbolismo, os alemães, oprimidos de maneira insuportável pelo fato de serem alemães, se serviam dele como quem se serve de haxixe. Era o fundo musical de um ''pogrom''. Ah, minhas pequenas distraçõezinhas. Elas realmente existem.
K.M.
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