sábado, 24 de setembro de 2016

Grandón do pidgin Joss (5)

O fato era que meus gestos de gigante e meu jeito bem humorado e franco não estavam mais agradando Otília. Eu a tinha ouvido no telefone, falando com Watson que eu estava sendo o menos eficiente possível na defesa da coletividade . E que eu ''não me dispunha a ajudar quando surgiam dificuldades reais''. E Otília tinha razão. Watson e Johnson também. Eu apoiava o controle de preços, as medidas do Fed, as agências do governo que regulam as instituições financeiras, mas não defendia os direitos dos operários com unhas e dentes. Enquanto Watson imitava Lincoln só para espinafrar os republicanos do Mississipi e a polícia do interior, eu me afastava imperceptivelmente do sindicato, contando cada passo meu na rua , na direção da ilha financeira. Toda vez que acendia um cigarro, começava a rever as atividades de investimento do setor bancário num microscópio mental, produzindo efeitos negativos sobre a segurança e a solidez das finanças globais. Mas os sindicalizados de Otília adoravam a ventriloquia das destemidas mixórdias de lincolnismos, trotyskismos e o´dayismos que colocavam qualquer operário com megafone no papel de um briguento síndico do Brooklin. Eu não conseguia persistir naqueles hábitos como os outros, obstinados em girar nos seus sulcos interiores sem perspectivas reais de aumento. Ao mesmo tempo, tinha começado a fazer outros serviços. ''Os operários falam de um jeito durão '' (eu pensava) ''Mas mutilados em sua veia política ''. Antes de anoitecer, eu seguia direto para casa, em Greenwich Village, e ficava uma hora de molho numa banheira de água fumegante no fundo do corredor do meu apartamento alugado; depois ia para a cama com um dicionário de francês, um livro de Mallarmé, os jornais do dia e meu bloco de anotações e o que tivesse à mão para comer. Na última ocasião, foi isso que precedeu minha ida à casa biblioteca  do ***, onde Otília fez sua acusação final contra mim: ----- Você não é só anti- povo e anti-sindicato, mas também anti-liberal e anti-inteligência (!!) -----, o que me pareceu absurdo e falso, e me fez esquecer boa parte das idéias com as quais eu pretendia impressioná-la em favor de uma cabeça mais fria, usada agora para tentar impressionar Fay, que estava mais interessada nos limites impostos ao ''merchant banking'' do Goldman Sachs e no incrível controle que algumas instituições de Wall Street tinham sobre as commodities físicas. ----- O planejamento de venda de petróleo da Argélia para a Austrália e Cuba e do Mar do Norte para a África do Sul (eu disse à Fay), constituem já uma tendência. A de países produtores expandirem sua base de clientes em meio à baixa de  tarifas e fretes e preços unificados ao redor mundo. O preço do minério também poderá seguir caindo no mercado chinês com a desaceleração das importações e o menor nível de exportação de aço do país no ano. Compraram menos da matéria-prima na Austrália e no Brasil, em agosto... O que você acha (?) -----, perguntei-lhe. Estávamos postados, naquele momento, no Marllon´s Bar do topo do mundo por instância do comitê de monitoramento. E por causa de minha posição política ambígua, eu caíra num completo ostracismo intelectual . Agora eu só era apreciado ao falar de números e leis. Para mim, conversar com Fay era como ouví-la  andar velozmente à minha frente, esgueirando-se entre as sugestões do Fed e seus pedidos ao Congresso. Era como consultar a Lei Dood-Frank para sustar as limitações da Regra Volcker. Ela era mesmo um amor; estava hospedada no Butler Hall e a recepcionista de lá sabia de tudo entre nós. Não era mais necessária para mim nenhuma vinculação comunista para explicar meu repentino olhar brilhante. Eu era agora o homem de (minério de) ferro  livre daquelas noites vazias no escritório do sindicato. Fay fornecera um antídoto para aqueles vapores ruins e remotas vagabundagens que estavam enferrujando minha armadura. Noites em que sustentar minhas idéias entre estranhos tornava todos os dias duros e incertos. Ela parecia grata pelo fato de eu ver nela a mulher de mente adequada, perfumada e com grandes olhos pintados. Eu me sentia irreal e despojado de distinção diante dela, uma vez que ela se mostrava tão convincente no papel de senhorita distinta e supercivilizada que havia escolhido para si. Sua voz mansa. Sua dicção exata. ''Antigamente (eu pensava) o inglês polido era um estilo de linguagem que muitas moças americanas aprendiam sozinhas e com esforço, quando queriam ser atrizes. No caso de Fay, aquilo realmente pegou: ela conhecia todos os movimentos, o sorriso benévolo, a prudência levemente dramática, e todos os gestos sutis com que interpelar as notícias do mundo financeiro. Mas, de repente (é preciso dizer) ela dava uma guinada e e sua voz às vezes tomava um curso paralelo, como um pavio flamejante, tão parecido com a própria vida sobre a Terra que deixava a gente desconcertado. Eu era só um garoto excitável e Fay tinha muito da sedução do rádio e da tv em seu sangue. Quando eu já estava achando impossível encontrar alguma coisa para falar para ela, via-a por acaso andando na rua; acompanhei-a com o olhar, caminhando pela calçada, atenta para pegar um táxi. Seu andar era  cheio de orgulho feminino, e balançava um pouco seu corpo, como fazem as mulheres quando andam depressa. Ainda era dia, mas os sinais luminosos além do Hudson já principiavam a brilhar num céu verde-pálido, refletindo-se também nas águas escuras do rio, enquanto na luz acobreada do pôr-do-sol a linha negra do asfalto estava suavemente desfigurada. Ela me viu e veio falar comigo: ----- Você fica tão atônito quanto eu diante de você(?) -----, sussurrou-me, como se nós dois tivéssemos quinze anos. O prazer da não-intimidação, era assim que aquilo podia ser descrito, no momento. Eu sabia como ela se sentia porque eu mesmo não conseguia parar de olhar para ela, e olhava-a como se, caso eu conseguisse continuar olhando pelo tempo necessário, um SENTIDO talvez emergisse de repente da cena. Eu a olhava fixamente nos olhos, não só por causa da sutileza dos seus gestos e da dignidade do seu porte físico e da elegância da sua beleza, que pairava entre o exótico e o recatado, e cujas proporções se alteravam o tempo todo na minha cabeça; um tipo de beleza enfeitiçante em virtude de algo que trepidava dentro dela , apesar de toda sua contenção; uma volatilidade que, na ocasião, eu atribuí corretamente à discreta exaltação que devia advir do fato de ela ser ela mesma. 

K.M.

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