terça-feira, 27 de setembro de 2016

Grandón do pidgins Joss (9)

Havia de fato um número muito grande de correntes em atividade no meu cérebro que não tinham nenhum interesse para os outros. ''Graças à Deus'', eu pensava ''Ao menos isso eles deixaram pra mim (!)'' . Através daquelas correntes, eu conseguia me desprender das pessoas e retornar sozinho , muitas vezes tropeçando, para minha montanha de entulho fora da zona de identificação humana. Era ali que eu conferia um ar de bom gosto à peças realmente horrorosas, que eu chamava de ''wadis''. Ali estavam elas: pequenos despenhadeiros criados pela contínua erosão de minhas preocupações. O mercado adotaria mais cautela diante do risco externo; O debate americano seguiria em questão nas economias emergentes; Mas minha vaidade, agora, estava devidamente lisonjeada por Fay e, para fechar, eu estava sentado diante de um prato de lagosta ao termidor. ''Tome-a agora alguém'', eu pensava. Um filme sobre travessia de fronteiras sociais passava na minha mente enquanto eu buscava o equilíbrio perfeito e sem sentimentos no qual repousava meu espírito. Me perguntava o que era a ''Igualdade'' . ''Que todos os homens sejam irmãos (?)''. Não . ''Igualdade significava que todos faziam parte de uma elite . Napoleão e Stálin, por exemplo. Para os quais, provavelmente, o grande prêmio do poder consistia na possibilidade ilimitada de matar com um prazer tranquilo, num gozo avassalador de consumir a respiração ofegante dos homens na sombra, engolindo seus rostos como Saturno e inundando o mundo de sangue e horror (.)''. Igualdade. Nem uma grama de incerteza dentro de mim, para quem, ao contrário, Igualdade consistia na possibilidade ilimitada de reconhecer meus erros, reerguer-me humildemente e partir para o erro seguinte; alguém para quem parecia não haver eternidade bastante para se arrastar em tamanho experimentalismo, espojando-se em uma solícita mortalidade. Mas para o segmento médio da sociedade (sejamos honestos: quase toda ela ) sempre houve inveja e adoração perante o poder de matar impunemente. Esse é um sentimento pouco confessável que habita os porões imundos do inconsciente humano, lá onde uma rebanho de sociólogos adora falar sobre isso em artigos acadêmicos que ninguém lê. Adoram circunscrever historicamente, com notas de roda pé, o caso do Super-Homem nietzscheano testando as fibras mais íntimas de seu coração perante uma corte que se exaspera de seus atos, e que logo reaparecerá nos filmes de Hollywood transmutado num tipo qualquer de herói pós-moderno e cheio de dilemas que arrancam suspiros. O Cavaleiro da Fé capaz de decepar cabeças no altar de Deus. Quantas versões disso na cultura popular! Mas se você se encontra numa cama estreita, como eu, e ainda por cima coberta por recortes de jornal, deixando-lhe apenas uma justa largura para receber-lhe imóvel, o fato é que por mais que você se vire de costas, e depois de bruços, e assim por diante, sua cabeça ficará sempre no mesmo lugar. Digo: à menos que você se incline... e eu sem dúvida me dou a esse trabalho  , sobretudo quando penso que a classe-média nunca foi capaz de chegar a um padrão independente de honra. Nunca chegou a um padrão independente de Cabeça; e assim, consequentemente, nunca pôde resistir ao ''glamour'' inconsciente dos aristocratas decepadores de cabeças. Hoje tem que se contentar com uma ou duas trocas de carros por ano e movimentações bancárias que lhes proporcionam um vago sentimento de que talvez não sejam meros animais . Tendo falhado em criar uma vida espiritual própria, seus cérebros tornaram-se, historicamente, essa massa escurecida e encharcada de ressentimento que é tudo que lhes resta do ar e do céu. Dedicaram-se a uma expansão material vazia e deram de cara com um desastre. Aí está uma observação curiosa que pode se prestar a desenvolvimentos férteis. Quanto mais desencantado o mundo, mais ele se presta aos meus desenvolvimentos . Aí está de novo ! O racionalismo instrumental, a instrumentalização da linguagem, apenas ajudou a classe-média a decorar suas casas com objetos, os ricos a enfeitarem as plantas de seus campos de golf com clips coloridos, mas não os ajudou a impedir que seu último estágio de espírito e desenvolvimento mental fosse sempre pior que o anterior. E isso não aconteceu apenas no terreno da política: com seu léxico pseudo-científico e seu jargão utópico e utilitarista.Também a idéia de coordenar todas as políticas econômicas do mundo para resolver o problema da demanda global guarda relações com esse dar de costas e fechar a porta de casa, testando -a depois para ver se ficou bem fechada. E agora o quê? As redes sociais? Sempre me disse que não bastava às pessoas sofrer, precisam ainda da insuficiência do amor, da amizade, dos furores e demências felizmente numerosos demais para serem enumerados da existência humana; nela incluídos seus crânios e caixilhos; o uso da política fiscal para estimular a produção; a esperança, a promessa de empregos acompanhada de austericídio e impostos; e tudo mais que, com muita precisão, impede a felicidade de ser pura, passível de materialização em brilhantes e abstratos textos de jornal.E já se viram inclusive em demasia esses rigoristas não terem paz até descobrirem que seus sarcomas estavam no piloro e não no duodeno.  Esses vôos para os quais não tiveram asas.   Pouco afeitos à razão pura! Preferiam sofrer mutilações intelectuais extensas à deitar de comprido num lugar selvagem e sem limites e passar o resto da vida numa imobilidade total do corpo. Talvez até de superfície, num modesto começo, mas que, aperfeiçoada, poderia lhes conquistar a sensibilidade e o entendimento. Sou eu quem digo isso, sob o império de uma necessidade furiosa: a de deixar o lugar do cérebro limpo e não ter dentro dos olhos nada senão um pouco de energia psíquica visível livre de parasitas. Sem ser capaz de ir tão longe (sou eu quem digo, de novo !) tudo simplesmente se embaralha dentro dos olhos, e não serve para nada. 

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