quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Grandón do pidgin Joss (1)


Por meio das revistas que Otília trazia do salão de beleza, vi que o momento decisivo da campanha de Patrícia se aproximava.  ----- Ela está preparadíssima (.) ------, disse para Otília. ----- Alguns podem até se sentir incomodados, não só por perceberem, mas por estarem gostando dos novos sucessos dela (.) -----, continuei. Otília, cuja devoção se inflamava em épocas decisivas, rezava pelo sucesso dela. ----- Que ela passe (!) ------, dizia. Superada essa grande prova (eu pensava: a do caluniador), haveria algumas outras, mas menores. Menos terríveis e exigentes que essa primeira, eu tinha certeza. E aquilo lhe daria o direito sem reservas de ''portar o céu dentro da cabeça''. ----- Fique tranquila, Otília (eu disse) A leitura sobre os triunfos da minha protagonista está fadada a suscitar felicidade em quase todos os que acompanham minha história. Há na história, desde o começo, uma forte sugestão sentimental, ou melhor, mágica de como o caluniador deve ser tratado. Não é algo de que eu possa me orgulhar no momento, mas na Roma Antiga o adversário de Patrícia teria sido marcado com a letra K em sua testa, inicial de ''Kalumniator '' (.) O incipt da campanha adversária apresentou -se desde o começo como um processo calunioso e hipócrita. Com ele veio o rebaixamento do nível intelectual do debate. A amargura e apatia do eleitorado. A ''lei e a ordem'', que ele promete restabelecer no seu mundo de ficções perigosas, são as mesmas da década de 1960, quando ser branco era a garantia de se obeter um bom salário, uma casa e dois carros na garagem (.) Mas seu programa fiscal é tão regressivo que impossibilita suas proclamações de se tornarem a VOZ do ressentimento operário da América. A fabricação de seus produtos em Bangladesh e na China e o emprego de funcionários sem documentos em seus hotéis de luxo são a prova disso (.) Lembremos que o alguém (jemand) que, com sua calúnia, deu origem ao Processo de Kafka, foi seu próprio protagonista, Joseph K. Assim também eu, K, em busca de minha própria medicina, intentara um processo calunioso contra mim mesmo. Mas o ponto sobre o qual me movo (a auto-calúnia) não pode, obviamente, ser considerado trágico, e sim cômico. Somente meus olhos foram capazes de ver tribunais e juízes nos quartos vazios onde passei a maior parte do meu tempo até agora (.) intentei um processo calunioso contra mim mesmo como instrumento útil para provocar emoções rápidas na leitora. O gesto cômico por excelência (!) -------, eu disse.  Otília se perguntava se eu estava fazendo da literatura minha própria medicina ou meu próprio direito. Pois ela calculava ser pouco provável que eu, um jovem mais ou menos normal, ou antes inteligente, uma vez admitido no ''Processo'', não chegasse mais cedo ou mais tarde na tão sonhada ''auto-condenação'' kafkiana (.) ------ Mas a culpa aqui (eu disse) não é a causa do Processo (.) A calúnia, no direito romano, era considerada um ''desvio''. ''Temeritas'', de ''temere''. Étimo de Treva ou ''Cegamente''. Em Plauto e Terêncio o verbo ''acusare'' é mais usado em sentido moral que jurídico. Acusare significa ''chamar em causa'', e a ''nominis delatio'' é o que de fato dá início ao processo no direito romano.. Mas quem liga para isso (?) -----, eu disse. ----- Estou adorando (protestou Otília) Apreciando seu momento de ''mea culpa'' e desilusão. Escritores como você costumam acreditar que é possível trabalhar para Deus e o próprio ego ao mesmo tempo  (.) O resultado é sempre cômico, como você disse. Ha haha, no fim sempre sobram uma ou duas leitoras encharcadas em banhos de percepção erradas, implorando pelo Amor de Deus: ''MAIS'' (!) ------, ela disse. Mas eu estava preocupado era com minha representação, minha ''chamada em causa'' nas ''categorias'' do meu edifício literário. ----- ''Kategoria'', em grego, significa ''acusação''. E  1-) eu me auto-caluniara; 2-) auto-caluniando-me, eu fizera um conluio comigo mesmo; e 3-) eu tergiversara sadicamente. Para os romanos ''processo era guerra'', e agora eu prevaricava e tergiversava, buscando desativar e tornar inoperosa as acusações que fizera contra mim mesmo. Eis tudo (!) ------, concluí. Sentada em sua mesa, Otília brincava com a Blackbird que eu dera-lhe de presente. A cortesia obrigava-lhe a me acenar com a cabeça e sorrir para mim de dois em dois minutos. Otília Schessel estava com um vestido de lã cor de vinho da Borgonha e a boca seca, tensa dela denunciava alguma coisa mais funda que a mera cortesia. Em vez de olhar para mim, ela olhava para caneta preta entre seus dedos.  ----- Ambição (ela disse) Ambição de ser admirado por suas supostas ''convicções morais''; falo do ego de todo político conservador da atualidade, mais do que de você, K. Mas quando levo em conta os fartos materiais com que você andou nutrindo sua Psique, penso que isso lhe dá o direito de, AGORA, nutrí-lo só com o mais puro ''néctar meditativo''. Você se tornou uma espécie de filósofo cósmico sobre o assunto, representando  o ''mártir patrioteiro'' no palco americano com um arsenal de mentiras poucas vezes visto na história dos Estados Unidos. A águia americana, natural e intrépida, cujo bico indicava estar cantando a ''otium'', o ''aud'', o ''aupeis'', e não a ''pax'' americana. E agora, o arruaceiro redimido depois de seu segundo silêncio, antes de voltar para a crista da onda da Justiça na tarde mais espantosa de sua vida. Uuuuuu...... (...) ------, ela disse. Na conversa de Otília, assim como na minha, não existia realmente nenhuma fronteira de conveniência a ser observada, nenhum tabu pago. Podíamos misturar tudo e era revigorante identificar os aspectos idealistas dela soldando os discursos dos políticos à um mundo tão diferente , aflitivo e belo como o meu. Um mundo espantosa que informava à sua corte internacional o quão exigente, franco, agressivo e livre da necessidade de agradar poderia vir a ser. Eu era só um astro anônimo convertendo néctar e pólen em mel geopolítico. ----- Para os romanos a palavra ''pax'' nunca indicou um acordo ou pacto. Era antes a palavra ''otium'', citada há pouco por você, que designava uma espécie de ''gesto puro'', com o qual nada se queria dizer. O gótico ''aupeis'' (vazio)  e o islandês ''aud'' (deserto), sugeriam, igualmente, a inatividade e a vacuidade de um aperto de mão, em meio à guerra. Ora, toda luta entre os homens é motivada pelo desejo de reconhecimento. E a Paz que se segue à tais lutas é sempre um acordo que satisfaz condições mínimas para um mútuo e precário reconhecimento. Paz de nações, de direito. Ficções de identidade e linguagem presentes em todo ato de reconhecimento. A Paz, muitas vezes, consiste em aceitar a impossibilidade de nos reconhecermos em qualquer imagem ou identidade. Existe, de fato, uma Alegria mais antiga que a Paz, que, saída da Guerra, encontrava sua paciente permanência no não-reconhecimento.  A exposição da inaparência como única pátria da humanidade é a marca daquele que ''porta o céu dentro da cabeça '' (.) ------, eu disse.

K.M.

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