quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Grandón do pidgins Joss (10)

Eu andava pelas ruas, agora, mergulhado numa cor azul-escuro que provinha dos postes. Andava rapidamente, encurvado, e parecia-me que o efeito da leitura na minha mente deixara tudo à minha volta novinho em folha. Primeira parada: o ônibus na 86 th Street até a Second  Avenue, obrigado a pegar um táxi. O West End estava muito escuro e minhas pernas cansadas.  E Greenwich Village, pura agitação e fumaça, mas com a expectativa de ver as pessoas se dirigirem amigavelmente à mim, mesmo que só para pedir. Algum nexo entre exasperação e não pensar. O transeunte filosófico passando na Broadway, depois. As exigências de tempo e espaço de horas de leitura na cama dando conta ''in loco'' do fenômeno. A alma da América e seus problemas históricos, lutando com impossibilidades certeiras. Era só dar uma olhada em volta para perceber que os americanos não podiam viver sem uma política monetária autônoma, com régias exigências. E se você toma alguma coisa na rua, e experimenta a violência de um estado extático súbito, tem ao mesmo tempo (dentro dele) vontade de agir; de combinar a taxa de juros atual com a política fiscal adequada, ciente de estar construindo um centro de perversão  capaz de criar interesse à sua volta, como uma dupla de criminosos sexuais acorrentados à cama. Todos nos divertimos então com o bom humor que prega o controle dos movimentos de capitais, essa coisinha dolorosamente doce e muita estranha. No meio de uma conversa com alguém , no bar, de repente não presto mais atenção nenhuma. Cito versos. Naquele momento,  NY me parece parece terrivelmente pequena, a Eternidade não me basta. E no plano de fundo dessas dimensões imensas da vida interior, da duração absoluta e do espaço incomensurável, instala-se em mim, definitivamente, um bom humor metálico, andrógino e à prova de balas, que me parece um motivo ainda maior para seguir na rotada loucura, Eternidade adentro. A magia dos extremos, eu me repito. A sensação de que tudo isso é luminoso vem acompanhada da desconfiança de que a democracia representativa não serve para muita coisa, e de que a loucura do mundo é apenas uma variação muito diminuída e barulhenta da vida espiritual. De que a mudança no comportamento dos poupadores não deriva da preocupação com o futuro, mas de uma forma anti-teatral de apresentar-se em cena com dinheiro no bolso. De que o Quantitative Easing e os juros negativos persistem debaixo de um poderosíssimo sentido do que é bom e normal; de que algumas afeições  teóricas podem ser preservadas da fogueira das vaidades intelectuais, e algumas obrigações simplesmente cumpridas à risca, se você passar de súbito para um lugar com vista dos andares superiores em MT. É extraordinário, mas o aumento da renda não levará a um aumento das importações maior que as exportações. Com a Demanda Global esgota ao máximo, inventaremos outro jeito de viver. O dia amanhece e as pessoas surgem prontas para abrir as lojas, varrer, embrulhar, pagar, lavar, vender, consertar, dirigir, estocar, contar e vigiar computadores por horas a fio. Tanta consideração pela ordem, no entanto, não sobrepujará o mistério; seguiremos todos inclinados a conduzir nossas vidas, não de um jeito propício a resolver problemas, mas a criá-los. A classe trabalhadora ainda consiste num enorme reservatório de ódio. Os empregados presos num ponto qualquer achando duro perdoar os que vão e vem, em liberdade de movimentos.  A elite extraterritorial em aviões sobre nossas cabeças e o burocrata acordando feliz sempre que algum desordeiro aparece morto. Ninguém totalmente desprovido de vaidade, afinal. Presunção, certo (?) O que é que vejo na Broadway enquanto espero o ônibus ? Um instinto teatral, independente de classe e poder aquisitivo, em todos os tipos humanos ali representados. Visões sem nenhuma modéstia em relação a si próprios. A revigorante não sei o quê de fulano ou siclano. Veja que os homens de negócios hoje em dia são imitados com paixão, com estética facial e automotiva inclusive. No presente nível de visão crua do mundo, os espíritos agitados se debatem, buscando fugir da visão da própria espécie. A fim de poderem servir à suas imaginações com uma distinção especial, parece essencial ao ego de todas as pessoas serem atores. Esse tipo de loucura sempre foi a escolha predileta da gente civilizada que se prepara o tempo todo para um simulacro de ação nobre. De um instante para o outro, tudo fica repleto  de possibilidades na cabeça das pessoas; e se alguém liga um holofote em cima, tudo se movimenta ainda mais magicamente, tudo é ''iminente'' o tempo todo. O drama é de certo conduzido da forma mais simples disponível,  para conduzir a idéias mais altas. As ondas da ilusão narcisista permitindo à maioria de nós ficar satisfeitos com isso ----- de que nossas vida são tudo, menos ''isso''. Essas formas menores de loucura privilegiam o desejo e a disponibilidade como ''fins mais altos'', mas dificilmente estes aparecem algum dia. No famoso caso do ''Gigante Excluído'' ou do iniciado em mistérios antigos, a representação é tão perfeita que o ator se depara, ao final do espetáculo, com os limites reais da linguagem; aquele que de fato tornara-se lendário, em função de uma representação e dramatização superior, criando uma verdadeira mitologia à sua volta,  entra, de fato, na ''matéria'', ou antes nos ''índices da matéria'': a palavra. Essa matéria lenhosa da língua que, como num sonho, silva além de toda representação e faz-se luz. O homem inspirado faz então com a linguagem o que Einstein fez com a matéria, descobrindo suas energias latentes e expondo suas radiações.

K.M.

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