Durante o vôo para San Francisco, percebi que todos permaneciam bastante céticos em relação a mim. Eu, por sinal, também não poderia contentar-me com uma paz de espírito feita de coisas como a ''Evolução da Lua '', os ''Espíritos do Fogo'', os ''Filhos da Vida'', com a ''Atlântida''; mas o órgão da Flor de Lótus da percepção espiritual e a mistura de Abraão com Zaratustra, ou a vinda conjunta de Jesus e Buda num único Ser cósmico gigantesco, me eram no momento muito caras. No ar, eu desenhava mentalmente a Califórnia em chamas: uma enorme gravura de estilos arquitetônicos, desde o egípcio ao colonial de Cape Cod. Para os estrategistas do meu oponente, eu estava usando os inumeráveis esboços políticos necromânticos que fizera de gente que viera até Los Angeles para morrer por uma causa; todos aqueles pobres diabos que só podiam ser agitados espiritualmente pela promessa de milagres econômicos; e, depois, apenas por uma boa dose de violência policial . Mas, afinal (pensava), eu também fizera minhas promessas de milagres econômicos, apenas não havia mentido tanto quanto meu adversário; e, agora, uma multidão marchava à sombra do meu estandarte para Los Angeles, numa grande frente unida de excêntricos e fanáticos, enquanto eu tinha optado em ir para San Francisco, hospedar-me no Hilton. Ora, era a mais bela cidade dos Estados Unidos, mas, como todas as cidades americanas, era uma vítima da guerra espiritual não declarada que a tinha feito vir perdendo a beleza ao longo dos anos. Empresas de construção civil monstruosas, em combinação com monstruosos corretores de imóveis, edificaram monstruosas caixas de Kleenex de vinte, trinta, quarenta andares, por toda a zona central, e o novo panorama, no século XXI, desde o Telegraph Hill, tinha cacos de vidro do tamanho de montanhas espetadas na suave paisagem italiana de San Francisco. O Hilton não andava longe de ser um paralelepípedo das dimensões de uma quadra e, visto da rua, parecia ter as proporções e a forma de um cubo de açúcar. No avião, eu pensava em tudo isto como a perda irreparável de companheiras de bordo devoradas pelos Cíclopes. Imaginava o cenário humano da Califórnia como um campo de batalha . Depois, me indagava pela jornalista que tinha visto pela última vez tomando um avião em Idlewild, com suas longas pernas claras, cabelo preto cortado curto, sua maquiagem, seus brincos e seus óculos.... eu dizia à ela, na ocasião, que através das vibrações e ecos psico-magnéticos de tudo quanto pensamos, sentimos e dizemos ao longo do dia, nós nos comunicamos (enquanto estamos dormindo) com os seres da hierarquia Cósmica; mas, que agora, nossas cabriolas diárias eram tão vis, nossas preocupações tão mesquinhas e egoístas, a linguagem humana se tornara tão degradada, as palavras tão toscas e danificadas, estúpidas e obtusas, que os seres mais elevados ouviam unicamente murmúrios, grunhidos e comerciais de TV ------ coisas do nível de comida de cachorro. ------ Que prazer (eu perguntara à ela) estes seres elevados podem ter com semelhante mostra de materialismo, desprovido de poesia e altos propósitos (?) Resulta daí que tudo que podemos ouvir enquanto dormimos são rangidos, assobios, conversa mole, o sussurro das plantas e o barulho do ar condicionado. Assim, nos tornamos incompreensíveis aos espíritos elevados da Hierarquia (.) --, obviamente, este tipo de conversa não podia ter lugar ali, pois um Power Astroject de campanha não é o veículo apropriado para transações metafóricas, no fim das contas era mais uma das câmaras de extermínio da mente humana do ´seculo XXI (lentamente, a ventilação renunciou a uma parcela microscópica de si mesma e a aeromoça trouxe minha garrafa de 43 gelada; plástico verde e plástico cinza-prateado: os copos. Minhas narinas não inspiravam qualquer odor de materiais que já tinham existido uma vez como elementos da natureza: madeira, metal, pedra, dessas que o tempo desintegra como elementos embebidos em água. Meu estômago: búfalo, bode. Mas Rostiff (um de meus assessores) era filho de pais australianos e estava fascinado com a América e tinha todos seus comentários na ponta da língua, alguns provincianos demais, outros de pura perspicácia. Finalmente, ele pôs o dedo em algo que eu nunca decifrara totalmente de maneira satisfatória: ------- Porque é (perguntou ele) que todas as coisas novas que vocês constroem na América, incluindo o recheio deste jato aqui, tem o ar de enfermaria de crianças microcefálicas ? ------, tomei um bom gole de licor dourado, e disse: ---- Rostiff, eu já lhe contei como levava minha garotinha para ver os castores lá no Colorado, certo (?) Ao redor do lago inteiro o Serviço Florestal afixava cartazes de história natural a respeito do ciclo vital do Castor. Os castores não ligavam a mínima para isso, . Continuavam a mascar, nadar e ser castores. Mas nós, castores humanos, ficamos sempre chocados com nossas próprias descrições de nós mesmos. Faz-nos um mal imenso ouvir o que ouvimos de nossa própria boca. De Kinsey, Masters ou Eriksen. .. Lemos a respeito de crise de identidade, alienação, etc... e isso tudo nos afeta, certo (?) ----, e assim era, de fato, o interior de nosso avião: como uma enfermaria para criancinhas microcefálicas, toda de plástico, fórmica, sei lá, uma saleta na ala da microcefalia... e se eu fosse o Barão Giulio Andrea Cesare Evola, poderia ter respondido: ''Porque não queremos voltar atrás, porque os nervos cresceram em todos os sentidos errados. Porque contraímos hábitos que nos sufocaram de morte. Sou eu quem lhe diz, meu caro, fazemos assim porque nascemos todos com microcefalia, somos uma nação de doentes mentais, estamos nauseados a ponto de começar o dia vomitando por todos os lados, de modo que construímos nossas vidas com materiais que cheiram a vômito, polietileno e baquelita e vidro sintético e estireno. Agora, quanto ao seu ensaio para o Los Angeles Times que voce me mandou -- acho que está bem aqui na minha pasta ------- , no qual voce oferece uma interpretação econômica de excentricidades pessoais. Nele, você argumenta que pode haver uma relação, na etapa particular do capitalismo que estamos vivendo, entre a diminuição das oportunidades de investimento e a procura de novos papéis ou envoltórios de personalidade . Voce mesmo citou Schumpeter: ''Estes dramas podem parecer puramente íntimos, mas são talvez determinados economicamente... quando as pessoas pensam que estão sendo tão sutilmente inventivas ou criativas, refletem simplesmente uma precisão geral da sociedade em matéria de crescimento econômico ''.----, na verdade, era muito fácil para mim citar grandes idéias dessa natureza: as conhecia todas, essa minha fraqueza volúvel, meus opositores a invejavam doídamente. Queriam apenas um lugar no panteão seleto da Mente Divina para exercerem uma função preponderante como Albert Schweitzer ou Arthur Koestler ou Sartre ou Wittgenstein em suas respectivas épocas e circunstâncias. Rostiff acreditava em análises jornalísticas vitoriosas, equivocando-se em preferir ''idéias'' ao invés da poesia: fôra preparado pela universidade e o meio social para dedicar-se ao universo mesmo através do submundo dos mais elevados valores culturais. Bem (eu pensava) isso era capitalismo americano lucrativamente empregado. Ganháramos quase todas as guerras, certo ? E em tantos lugares diferentes que podíamos imaginar as nossas estadias em hotéis caros antes mesmo de chegarmos até eles. Não parecia um privilégio hoje em dia, porque ninguém mais explodia as coisas por aí. Essa era a natureza de um povo promíscuo. Voando no jato, rumo ao Oeste, ainda não no San Francisco Hilton, mas sabendo que estaria lá, são e salvo, imune à qualquer atentado à bomba, entrei naquele bate-papo com Rostiff, um jornalista australiano ou coisa que o valha, que antes de descermos do avião repreendeu-me por ter lido o livro de Buchanan ''Who Killed Kennedy (?)''. Ele queria saber porque um homem da minha inteligência se dava ao trabalho de ler tais porcarias.
terça-feira, 31 de maio de 2016
Do livro A Tradição Hermética, de Julius de Evola.
« Uma tradição, contada por Tertuliano, e que aparece no hermetismo árabe-sírio, leva-nos de novo ao mesmo ponto. Diz Tertuliano que as obras da natureza, “malditas e inúteis”; os segredos dos metais; as virtudes das plantas; as forças dos esconjuros mágicos e de “todas aquelas estranhas doutrinas que vão até à ciência dos astros” — quer dizer, todo o corpus das antigas ciências mágico-herméticas — foram reveladas aos homens por Anjos caídos. Esta idéia aparece no Livro de Enoch; e, no contexto desta tradição mais antiga, a ideia completa-se, traindo assim a unilateralidade própria da interpretação religiosa. Entre os Ben Elosim, os anjos caídos que desceram sobre o monte Hérmon, de que se fala em Enoch, e a estirpe dos Veladores e dos Vigilantes — εγρεγοροι (lê-se egregoroi) — que desceram a instruir a humanidade, do mesmo modo que Prometeu “ensinou aos mortais todas as artes”, referido também no Livro dos Jubileus como faz notar Mereshkowskij, existe uma evidente correspondência. Mais ainda: em Enoch (LXIX, 6-7), Azazel, que “seduziu Eva”, teria ensinado aos homens o uso das armas que matam, o que, deixando de parte a metáfora, significa que teria infundido nos homens o espírito guerreiro. Já se sabe, neste sentido, qual é o mito da queda: os anjos incendiaram-se de desejo pelas “mulheres”; pois bem, já explicamos o que significa a “mulher” na sua relação com a árvore, e a nossa interpretação confirma-se se examinarmos o termo sânscrito çakti, que se emprega metafisicamente para referir-se à “mulher de deus”, à sua “esposa”, e ao mesmo tempo à sua potência (vigor sexual) e, em conjunto, caíram, desceram à terra, sobre um lugar elevado (o monte Hérmon): desta união nasceram os Nefelin, uma poderosa raça (os titãs — Τιτάνες — como são chamados no Papiro de Giszé), alegoricamente descritos como gigantes, mas cuja natureza sobrenatural fica a descoberto no Livro de Enoch (XV, 11): “Não necessitam de comida, não têm sede e escapam à percepção [material]”. « Os Nefelin, anjos caídos, são afinal os “titãs” e “os que vigiam”, a estirpe chamada, no Livro de Baruch (III, 26), “gloriosa e guerreira”, a mesma raça que despertou nos homens o espírito dos heróis e dos guerreiros, que inventou as suas artes e que lhes transmitiu o mistério da magia. « Ora bem, que prova pode ser mais decisiva, no que respeita à investigação, acerca do espírito da tradição hermético-alquímica, que a explícita e contínua referência dos textos precisamente àquela tradição? Podemos ler num texto hermético: “Os livros antigos e divinos — diz Hermes — ensinam que certos anjos se incendiaram de desejos pelas mulheres. Desceram à Terra e ensinaram-lhes todas as operações da Natureza. Foram eles que compuseram as obras [herméticas] e é deles que provém a tradição primordial desta Arte”.»
Do livro A Tradição Hermética, de Julius de Evola.
segunda-feira, 30 de maio de 2016
DÉCIMO CONTO AMERICANO.
Meu quartel-general estava, obviamente, a grande distância de qualquer senhora republicana úmida embaixo: ocupava o trigésimo quarto e o trigésimo quinto andares do M.M. Nymphenburg Tower, e não era fácil para ninguém penetrar ali. Os elevadores principais requeriam uma espera de mais de quarenta minutos para quem quisesse subir. O trajeto alternativo era subir primeiro à loja de artigos de Sky-Surf, enfiar-se pela cafeteria e alcançar o ascensor de serviço. Uma lata de cem litros semi-cheia de detritos do almoço e lixo hospitalar estava espetada na parede ao lado da porta do elevador de serviço. Uma vez que se chegava lá, o trigésimo quarto e o trigésimo quinto ofereciam um espetáculo de imundície ao visitante. Mas um quartel-general político (consolava-me) nunca é asseado: pilhas de papel, copos de plástico amarrotados, carbonos de máquina de falsificar notas de dólar, manuscritos espalhados pelo chão, cartas de baralho sujas de sangue, uma pistola automática, paletós em cabides de arame farpado, telas pintadas pela metade abandonadas em cavaletes de ossos humanos e narguilés cheios de ópio ------ Um quartel-general político (pensava eu ingenuamente) é igual à redação de um pequeno jornal; Mas meu quartel-general era (de fato) mais sujo que a maioria deles. Havia acumulação de detritos literários como o de lixo na orla de uma maré cheia na praia. Os braços da minha cadeira estavam cobertos de cinzas de cigarro, e os sofás tinham o aspecto de sofás de cem dólares para casais de classe-média baixa recém-casados, com a sujeira de um dia de mudanças. O ar tinha o cheiro asfixiante de spray de desodorante com guimbas de cigarro na sala de espera de uma grande estação de metrô. Ninguém no trigésimo quarto e trigésimo quinto andares tinha alguma coisa que ver com o ambiente circundante. ''Um quarto (consolava-me mais uma vez) é apenas um lugar com uma mesa, onde se faz algum tipo de trabalho (.)''. Ali, em horas de notação com a consciência dos sentidos, eu me admirava no espelho, pensando o quanto eu era americano... entre outras coisas . E, de repente, soava, atrás da porta, a vinda metafisicamente abrupta do moleque de recados pró-Trump. Ele jamais o confessara e eu sentia que (a cada vez) o poderia matar por interromper de súbito algo que eu nem sequer estava pensando. Voltava para ele sempre com um olhar de ódio, escutando por antecipação, numa tensão de homicídio eminente, a voz que ele ia usar para me dizer alguma coisa falsa, por trás da qual escondia seu verdadeiro voto. Ele sorria do fundo do escritório e dava-me as boas-tardes em voz alta. Odiava-o como ele me odiava, como odiávamos todos o Universo. Em primeiro lugar, assim que ele saía e eu voltava aos meus papéis, consolava-me adotando o ponto de vista de que os Estados Unidos eram uma terra feliz e materialmente de sucesso, e que eu não precisava ficar enchendo minha cabeça com problemas a todo minuto, e era perfeitamente possível ( no momento) dispensar a cultura dos bem-educados e bem-nascidos sem ideais e aspirações. O famoso Santayana concordava comigo em parte: os bem-educados e bem-nascidos que os tinham, não podiam realizar seus ideais e sentiam-se muito infelizes. A América bem-educada e bem-nascida tinha a desvantagem da pobreza de espírito, da fraqueza de caráter, e da escassez de talento. A jovem América da propaganda política do meu oponente aspirava apenas ao conforto, aos holofotes das premiações midiáticas, à velocidade automobilística, aos aeroportos, à boa disposição de ânimo, à saúde e bom humor demente, futebol americano e funerais militares festivos e emocionantes. E então, ao descer até a ruano final da tarde, percebia que o Sonho Americano tinha apenas grandes cinemas lotados e mais nada; era uma rua irreal, baixa, barulhenta, em que a realidade daquelas vidas que nunca chegavam a realizarem-se atava-me, com um carinho visual vazio e sem sentido, a cabeça num tampo branco de reminiscências falsas. Eu era o navegador desconhecido de si mesmo, vencendo tudo onde jamais estivera na vida; e era uma brisa nova esta sonolência com que eu podia andar naquele momento, curvado para frente numa marcha sobre o impossível. A época de agradável exuberância e de dar duro, e de artes práticas e técnicas estritamente ao serviço da vida material, havia encontrado seu atoleiro final. Até mesmo meu adversário político não era mais feito apenas de negócios: sentia agora impulsos metafísicos sempre que olhava para sua esposa tomando banho na banheira de hidromassagem.
domingo, 29 de maio de 2016
NONO CONTO AMERICANO.
Meu adversário tinha o aspecto de um homem que tentara ser encantador a qualquer preço em seus bons tempos. Sua cor era um amarelado de cera suja, seu sorriso discreto dificilmente arreganhava as gengivas pelos cantos da boca, mesmo assim, parecia um homem a quem tivessem espancado nos rins com o próprio fígado. Era possível que o dinheiro tivesse matado alguma coisa dentro dele ao longo dos anos, por isso almejava desesperadamente o poder. Segunda-feira de manhã ele distribuíra cópias impressas e virtuais aos delegados republicanos de sua resposta ao meu panfleto incendiário, dizendo que minha mina de votos Democrata desmoronaria: ''Inundada numa ponta da galeria, estava agora ardendo na outra ponta (.) '', ele disse. De fato, os delegados não tinham gostado da idéia de serem chamados de galinhas: tinha sido uma daquelas metáforas que se ajustam tão bem à situação quanto uma lasca de osso nariz acima. Obviamente, meu adversário tinha que repudiar-me em público, essa era a regra: aceitou a responsabilidade, mas desautorou completamente sua resposta (aquela linguagem não era sua), o que equivalia a dizer que talvez ele estivesse fraquejando, ao terceirizar o serviço. Os republicanos estavam realizando naquela noite um banquete de gala, a $U 15.000,00 por cadeira para angariação de fundos, vedada a admissão da imprensa, embora algumas raposas espertas tivessem dado um jeito de entrar. Os luminares republicanos estavam todos lá, lendo e relendo meu panfleto por sob os guardanapos. Uma noite de gala republicana era algo semelhante a uma vigília: os mexericos sobre meu panfleto e a resposta do meu oponente à ele circulavam como um sangue barrento e infecto entre as mesas. A pista de dança, definitivamente, não ficaria repleta naquela noite. Meu oponente entrou no salão, pois, caminhou pelo centro dele, entre as mesas com convidados, com o ar de um homem ferido que caminha. As pessoas se levantavam para saudá-lo, e ele sorria timidamente, constrangido, inseguro, como se tivesse acabado de praticar um harakiri sentado na privada, e mesmo assim ainda caminhasse . Quando foi anunciada sua presença no microfone, disse com um humor desencantado para um jornalista conservador à paisana, que identificou entre os convidados: -------- Eu li os seus livros (.) -------, apontando-o com o indicador, e podendo com isto ter incutido ainda mais ímpeto aos tanques avariados de sua mais recente ofensiva eleitoral. Havia indícios psicológicos dela por todos os cantos do salão, na face admirada de convidados outrora fortemente contrários à ele. Um dos republicanos derrotados nas primárias saudou-o com o típico acolhimento efusivo de um homem que não vai ajudar outro em absolutamente nada. ''Realmente, não tenho me permitido muitos sentimentos pessoais, no momento (.) '', meu adversário disse à ele. Estava limitado a um aquário quase privado, onde nadara poderosamente nas últimas décadas, nas proporções e na amplitude de sua própria avareza, e agora estava descendo para o mais cruel de todos os destinos reservados a um velho homem, que é andar atrelado à obsessão pelo poder político como um viciado em crack; talvez não uma obsessão tão doentia, mas daquela espécie de obsessão que, apesar de terrivelmente traiçoeira, protege um velho homem da aversão de outros velhos homens. Era óbvio que tanto eu quanto seus inimigos internos tínhamos um medo profundo das forças que o apoiavam, e de outras que já acenavam. Aseu orgulho não importava mais que as pessoas sentissem hostilidade por ele, mas cuidava agora para não se tornar excessivamente odiado; e, enquanto cometia seus prodígios de sintaxe, de construção de frases picotadas no meio e rapidamente substituídas por outras, tudo isso ganhava maior realce que nunca. Seus deslizes eram tão ritmados quanto um tique-taque de relógio suíço. Dizia: '' ----- Devemos ser explícitos... , digo, explícitos e objetivos.... (e algo como: '' They are pissing against the wind .... , ou coisa que o valha) Continuava: ''Eles estão mergulhando o país, lenta e silenciosamente, nas águas de uma morte futura, que pode ser daqui há um ou dez anos, mas que, não obstante, os está recebendo como um atoleiro em que tudo sumirá (empregos, impostos, receitas, reservas, poder militar), sôrvo por sôrvo, como o roçar de asas molhadas da Águia americana contra seu carma negativo (.) ''. Ora (eu pensava), no que dizia respeito ao meu oponente, ele tinha certa envergadura. Mas talvez suas proporções não fossem mais do que contradições, porém ele não era um homem fácil de se compreender de relance. Sua esposa, por exemplo, estivera naquele banquete de gala, na companhia de alguns familiares e amigos, numa mesa não tão bem situada do salão. Em todo caso, disseram que ela mesma preferia que fosse assim: ''Detestava ser o centro das atenções (.) '', foi-nos dito por uma fonte. Muito bem, resultava então que a Sra. de meu adversário era uma tímida e atraente mulher, com um rosto delicado, não inteiramente feliz, mas muito sensual. Havia algo nela de extremamente requintado e muito vulnerável. Seus olhos eram úmidos e luminosos . Era impossível não gostar dela de cara. Ao passo que suas filhas eram também muito atraentes, mas de um modo diverso. -------- Eu quero o melhor e mais caro anel de diamantes neste dedo aqui, hein, Tremendão (!) -----, podia-se ouví-las dizer ao pai, quando iam às compras.
sábado, 28 de maio de 2016
Esperando...
Porque sempre que faço uma crítica mais profunda ao conteúdo programático de Mr. Donald Trump a mídia conservadora responde dizendo que preciso procurar uma escola? Se não entenderam nada do que acabei de falar, digam: eu explico para vocês, com todo prazer. Ou contratem um expert em economia. Ou pesquisem mais, percam mais tempo com a cara enfiada nos livros. Melhorem o conteúdo das respostas, busquem estatísticas, números, algo que convença alguém do contrário. Pega mal deixarem essas lacunas mal disfarçadas no ar...
sexta-feira, 27 de maio de 2016
SÉTIMO CONTO AMERICANO.
Quanto mais meu adversário falava, menos impressionante me parecia sua voz. Quando se alongava demais, sua voz crescia não em conteúdo e força, mas em aridez: ''AMÉRICA EM PRIMEIRO LUGAR (!)'' (predomínio geopolítico banhado em alucinações sobre finanças : negociar com os credores dos EUA para recomprar a dívida pública com deságio ----- um calote parcial sobre trilhões de dólares em títulos, visando reduzir o peso da dívida para os contribuintes... ERA IMPOSSÍVEL VOTAR NELE (!) , era impossível votar num homem que do grito acusador de ''COMUNISTA ! '', ou ''NEGRO ! '' ou ''HISPÂNICO ! '', fizera uma profissão de fé ou, o que era pior: um hobby ! ; era demasiado fácil: metade dos tiranos, dos gananciosos, dos covardes do século XX tinha feito ou aumentado suas fortunas sujas explorando esse tipo de medo na sociedade. Digo que tive um momento de autêntica raiva ao escuta-lo explicando que fizera ''exatamente a mesma coisa'' quando seus ''cassinos tiveram problemas ''. A construção de um império comercial com dívidas , abandonado assim que o negócio caiu no vermelho. Assim ele havia feito em Atlantic City. Estávamos fartos de ouví-lo falar em ''coragem'' ao invés de ''calote'' : a mera sugestão desta idéia em âmbito oficial seria o suficiente para comprometer toda a pontuação de crédito do governo e aumentar o custo dos empréstimos futuros; os preços dos títulos do Tesouro sofreriam um colapso e, no fim, os contribuintes entrariam pelo cano para honrar o serviço da dívida. Ontem, no recinto das primárias, eu havia dito a um jovem delegado de Los Angeles : ------- Já lhe ocorreram que Fidel Castro é um exemplo de coragem bem maior que o de JFK ?, mas Castro nunca alcançou uma mentalidade tão criminosa quanto a do meu adversário (.) ----, subitamente, o palanque sob meus pés estremeceu e tiveram que cortar meu microfone, mas eu continuei gritando: -- SE VOTAREM NELE... o dólar não será mais uma moeda internacional; a América perderá o status de superpotência; não projetaremos mais nenhum poder sobre o mundo; não teremos mais bases militares em mais de 100 países; as esquadras navais de combate não terão mais recursos para se manterem à tona nos oceanos; o Mediterrâneo; O Pacífico; a defesa dos aliados; a Europa - o Japão - a Coréia - o Oriente Médio - o * não adiantará mais nada seguir imprimindo dólares; Não poderemos mais financiar nossos déficits comerciais orçamentários periódicos; Nosso ''privilégio exorbitante''; o ''dólar como reserva de valor ''; NADA ! NADA ! NADA ! -, eu estava prestes a cair do palanque, agarrados aos fios das caixas de som, enquanto as pessoas se pisoteavam embaixo. Os melhores dentre os jovens de todas as cidades do interior, cerebralmente lavados pelo ginásio e a Legião Americana, viriam a aderir à esta cruzada alucinatória suicida do meu oponente só porque ele repetia I LOVE YOU trinta vezes por discurso ? Coragem e mudança ? Que tipo de impostor estava sendo fabricado às vistas de todos , no ´país ? E com o consentimento de quantos ? ! Que extinção incalculável aquela garganta rouca estava operando no melhor do pensamento conservador ? As extraordinariamente bem desenvolvidos mercados financeiros americanos, prometendo sempre uma liquidez sem paralelo no mundo, dia após dia: mais de U$ 500 bilhões por dia só no mercado de títulos do governo americano ... e a comodidade de reversão cambial ! O refúgio eternamente seguro ! Como são retos esses republicanos... e, no entanto, AGORA ISTO !
SEXTO CONTO AMERICANO.
Mas se todos trabalhássemos juntos para derrotar meu adversário e nos postássemos atrás de meus porta-vozes, e os empurrássemos, radicais e republicanos indignados, negros e sulistas liberais, professores universitários e Cosa Nostra, Café Society e Beatniks de Direita, iríamos todos de cambulhada pela super-rodovia liberal, até cairmos no mais profundo pântano da obscuridade político-partidária ? Mas eu era inteligente demais, o bastante para dirigir o país todo como quem dirige uma moto com uma só mão, tinha uma grande competência em hipnose de massas, nenhuma visão política que me deixasse constrangido e coragem para sustentar um poder gigantesco nos meus próprios ombros; tinha a vaidade terrível de um príncipe do Renascimento ou de um ditador contemporâneo, ao passo que meu oponente talvez fosse de fato mais feliz do que eu (secretamente) com o seu próprio talk-show na televisão. Mas se ele fosse eleito, não conseguiria controlar o país sem caminhar contínua e arrastadamente para o Centro; e mudando-se poupo a pouco para o Centro, perderia uma boa parte da Direita, não satisfaria ninguém e ver-se-ia obrigado a derivar ainda mais para o lado oposto, ou , retornando ao seio da Direita, abriria cismas pelo país inteiro que nunca mais seriam remediados. Meu adversário eleito, a América seria revelada, suas velhacarias, espionagens e traições latentes jorrariam como bolhas de água quente no mundo inteiro; mas EU sendo eleito, continuaríamos ''derivando'', o s San Francisco Hiltons proliferariam entre nós como sarna. Com ele eleito, as probabilidades da guerra nuclear seguiriam aumentando aterradoramente, mas, COMIGO eleito, poderíamos passar da ameaça de guerra total para a própria guerra sem nada que o impedisse, e sem maiores alarmismos. As forças contrárias ao meu adversário , que manteriam o país dividido demais para que se pensasse em levá-lo à guerra, seriam cooptadas no vasto círculo de influência de Kalki-Maitreya e transformadas em massa de manobra para insuportáveis passeatas sem sentido. Ele havia prometido conduzir a nação pela borda do precipício, mas EU a levaria através da floresta escura, sob uma chuva torrencial, arriscando-me a ficar eu próprio atolado no lamaçal. Ele alertar-nos-ia diariamente para os perigos da loucura oriental, Mas EU prosseguiria em minha marcha cega e poderosa diretamente para o seio do flagelo. Ele poderia, com sua gritaria histérica, acelerar a tal ponto a Nova Revolução Negra, que logo ela redundaria em violência e desastres; Mas EU poderia, entretanto, ver-me obrigado a traí-la discretamente, sorrateiramente, por dentro, distribuindo sorrisos, tapinhas nas costas e vinis de black music... e que maravilhoso trabalho sujo eu não poderia fazer com a luta de classes, assinando papéis na minha mesa, para colher rapidamente os resultados mais brilhantes da economia. Quem, em tal transe, receberia a benção de um voto ! --, ele, quem inspirava o maior medo e apreensão, ou EU , que encorajaria, ao longo de oito anos, o povo americano a viver eternamente satisfeito com uma culpa fria e untuosa, como as mais medíocres de nossas fomes irracionais saciadas ... ?
Assim é o verdadeiro macho alfa

Os homens muitas vezes se sentem pressionados a se comportar como machos alfa. O macho alfa evoca a imagem do pai que deixa claro em todos os momentos que tem o controle total da casa e que, longe de seu ninho, se torna um chefe mal-humorado e agressivo. Mas esse estereótipo é uma interpretação equivocada de como o macho alfa genuíno se comporta em uma família de lobos, que é um modelo de conduta masculino exemplar. Em minhas observações de lobos que vivem em alcateias no Parque Nacional de Yellowstone, nos Estados Unidos, notei que os machos que comandam não o fazem de maneira forçada, nem dominante, nem agressiva para com aqueles que o rodeiam. Os lobos autênticos não são assim.
Na verdade, se comportam de outra maneira: o macho alfa pode intervir de forma decisiva em uma caçada, mas, imediatamente após a captura, decide ir dormir até que todos estejam satisfeitos. “A principal característica de um lobo macho alfa”, diz Rick McIntyre, guarda florestal e estudioso veterano desta espécie, “é uma discreta confiança e segurança sobre si mesmo. Sabe o que tem de fazer; sabe o que é melhor para sua alcateia. Dá exemplo. Sente-se à vontade. Exerce um efeito calmante”. Em suma, o macho alfa não é agressivo, porque não precisa ser. “Pense em um homem confiante ou em um grande campeão; já provou tudo o que tinha de provar. Imagine isto: pense em duas alcateias de lobos, ou duas tribos humanas. Qual tem mais probabilidade de sobreviver e se reproduzir, o grupo cujos membros cooperam, compartilham e se tratam com menos violência ou o grupo cujos membros estão se atacando e competindo entre si?”.
Rick observa a vida diária dos lobos há 15 anos e garante que um macho alfa não exerce quase nunca qualquer comportamento agressivo em relação a outros membros da alcateia, que inclui sua família, ou seja, sua parceira, seus filhos, tanto biológicos quanto adotados e, talvez, um irmão.
Agora, sabem ser duros quando necessário. Havia um lobo famoso em Yellowstone — o 21, o número de sua coleira —, e as pessoas que seguiam sua trajetória de perto o consideravam um superlobo. Defendia sua família ferozmente e, aparentemente, nunca perdeu uma disputa contra um grupo rival. Mas um de seus passatempos favoritos era lutar com os filhotes de sua alcateia. “E o que realmente gostava de fazer”, diz Rick, “era permitir ser vencido. Adorava”. Aquele grande lobo macho deixava que um lobinho pulasse em cima dele e lhe mordesse.
“Então ele caía com as patas para cima”, diz Rick. “E o filhotinho, com ar triunfante, subia em cima dele enquanto abanava o rabo.” Em uma ocasião, havia um filhote um pouco mais fraco do que o normal. Os outros filhotes o olhavam com desconfiança e não queriam brincar com ele. Um dia, depois de levar comida para os filhotes, o superlobo começou a olhar ao redor. De repente, começou a abanar o rabo. Estava buscando o filhote e, ao encontrá-lo, se aproximou para ficar um pouco ao lado dele. De todas as histórias de vitórias contadas por Rick sobre o superlobo, esta anedota é sua favorita. A força nos impressiona, mas o que deixa uma marca indelével é a bondade.
Quando observamos os lobos, não só com toda sua beleza, flexibilidade e adaptabilidade, mas também com a violência na hora da defesa e da caça, é difícil evitar a conclusão de que não existem duas espécies mais parecidas do que lobos e humanos. Considerando que vivemos em grupos familiares — nos defendemos dos “lobos” humanos que nos rodeiam e controlamos os “lobos” que carregamos dentro de nós —, é normal que reconheçamos os dilemas sociais e a busca de status dos lobos de verdade. Não é de admirar que os índios norte-americanos considerem os lobos como almas gêmeas.
Mas é que as semelhanças entre os lobos machos e os humanos são surpreendentes. Há muito poucas espécies em que os machos fornecem alimento e proteção para as fêmeas e filhotes durante todo o ano. As aves levam comida para suas fêmeas e filhotes apenas durante a época de reprodução. Entre alguns peixes e macacos, os machos cuidam de seus filhos, mas apenas enquanto são pequenos. Os micos noturnos transportam e protegem seus recém-nascidos, mas não lhes dão comida.
Podem nos ensinar a resmungar menos, ter mais confiança, respeitar as fêmeas e compartilhar o filho
Ajudar a obter comida durante todo o ano, levá-la aos recém-nascidos, ajudar a criar os filhos por vários anos até atingirem a maturidade e defender as fêmeas e jovens o tempo todo contra indivíduos que ameaçam sua segurança são um raro conjunto de atributos em um macho. Os seres humanos e os lobos, e pouco mais. E o mais confiável, o mais seguro, não é o humano. Os lobos machos cumprem melhor suas obrigações, ajudam a criar seus filhotes e auxiliam as fêmeas a sobreviver com dedicação e lealdade exemplares.
E mais uma coisa: “Nos velhos tempos”, diz Doug Smith, “as pessoas diziam que o macho alfa era o chefe”. Sorri e acrescenta: “Eram sobretudo os biólogos do sexo masculino que diziam isso”. Na verdade, explica, na alcateia há duas hierarquias “uma de machos e uma de fêmeas”. E quem manda? “É sutil, mas parece que as fêmeas são as que tomam a maior parte das decisões”. Ou seja, onde ir, quando descansar, a rota a seguir, quando caçar. Smith diz que a fêmea alfa é um termo obsoleto. “Utilizo a palavra matriarca para falar de uma loba cuja personalidade define a tônica de toda a alcateia.”
Concluindo: não seria nada mal corrigirmos nosso estereótipo de macho alfa. Os verdadeiros lobos podem nos ensinar várias coisas: a resmungar menos, aumentar nossa “discreta confiança”, dar o exemplo, mostrar uma devoção fiel ao cuidado e defesa das famílias, respeitar as fêmeas, compartilhar o filho sem problemas. Isso seria um verdadeiro macho alfa.
Carl Safina é escritor, ecologista e professor. Seu último livro é Beyond Words; What Animals Think and Feel.
Lembranças de um feiticeiro
Lembranças de um feiticeiro
— Nosso primeiro princípio dizia: matilha e contágio, contágio de matilha, é por aí que passa o devir-animal. Parece mesmo haver contradição: entre a matilha e o solitário; entre o contágio de massa e a aliança preferencial; O anômalo não é nem indivíduo nem espécie, ele abriga apenas afectos, não comporta nem sentimentos familiares ou subjetivados, nem características específicas ou significativas. Tanto as ternuras quanto as classificações humanas lhe são estrangeiras. Lovecraft chama de Outsider essa coisa ou entidade, a Coisa, que chega e transborda, linear e no entanto múltipla, "inquieta, fervilhante, marulhosa, espumante, estendendo-se como uma doença infecciosa, esse horror sem nome".
A feitiçaria kachin é contagiosa mais do que hereditária, (...) ela é associada à aliança, não à descendência". A aliança ou o pacto são a forma de expressão, para uma infecção ou uma epidemia que são forma de conteúdo. Na feitiçaria, o sangue é de contágio e de aliança. Se dirá que um devir-animal é assunto de feitiçaria: 1) porque ele implica uma primeira relação de aliança com um demônio; 2) porque este demônio exerce a função de borda de uma matilha animal na qual o homem passa ou está em devir, por contágio; 3) porque este devir implica ele próprio uma segunda aliança, com outro grupo humano; 4) porque esta nova borda entre os dois grupos guia o contágio do animal e do homem no seio da matilha. Há toda uma política dos devires-animais, como uma política da feitiçaria: esta política se elabora em agenciamentos que não são nem os da família, nem os da religião, nem os do Estado. Eles exprimiriam antes grupos minoritários, ou oprimidos, ou proibidos, ou revoltados, ou sempre na borda das instituições reconhecidas, mais secretos ainda por serem extrínsecos, em suma anômicos. Se o devir-animal toma a forma da Tentação, e de monstros suscitados na imaginação pelo demônio, é por acompanhar-se, em suas origens como em sua empreitada, por uma ruptura com as instituições centrais, estabelecidas ou que buscam se estabelecer.
Mas não nos interessamos pelas características; interessamo-nos pelos modos de expansão, de propagação, de ocupação, de contágio. Eu sou legião. Fascinação do homem dos lobos diante dos vários lobos que olham para ele. O que seria um lobo sozinho? e uma baleia, um piolho, um rato, uma mosca? Belzebu é o diabo, mas o diabo como senhor das moscas. O lobo não é primeiro uma característica ou um certo número de características; ele comporta uma proliferação, sendo, pois, uma lobiferação. É muito simples e todo mundo sabe, ainda que só se fale nisso em segredo. Opomos a epidemia à filiação, o contágio à hereditariedade, o povoamento por contágio à reprodução sexuada, à produção sexual. Os bandos, humanos e animais proliferam com os contágios, as epidemias, os campos de batalha e as catástrofes. É como os híbridos, eles próprios estéreis, nascidos de uma união sexual que não se reproduzirá, mas que sempre recomeça ganhando terreno a cada vez. As participações, as núpcias anti-natureza, são a verdadeira Natureza que atravessa os reinos. A propagação por epidemia, por contágio, não tem nada a ver com a filiação por hereditariedade, mesmo que os dois temas se misturem e precisem um do outro. O vampiro não filiaciona, ele contagia. A diferença é que o contágio, a epidemia coloca em jogo termos inteiramente heterogêneos: por exemplo, um homem, um animal e uma bactéria, um vírus, uma molécula, um microorganismo. Ou, como para a trufa, uma árvore, uma mosca e um porco. Combinações que não são genéticas nem estruturais, inter-reinos, participações contra a natureza, mas a Natureza só procede assim, contra si mesma. Estamos longe da produção filiativa, da reprodução hereditária, que só retém como diferenças uma simples dualidade dos sexos no seio de uma mesma espécie, e pequenas modificações ao longo das gerações. Para nós, ao contrário, há tantos sexos quanto termos em simbiose, tantas diferenças quanto elementos intervindo num processo de contágio.
Gilles Deleuze
Mil Platôs, VI.
quarta-feira, 25 de maio de 2016
QUINTO CONTO AMERICANO
Nos meses seguintes, quando o touro que havia dentro do meu oponente resfolegava com excessivo ímpeto e prometia falar de novo sobre terrorismo internacional, e sobre as Medalhas de Honra que pretendia distribuir aos Mariners, enviavam o Senador socialista para acalmá-lo. A Internacional socialista, como a cabeça da Hidra, ainda não morrera, afinal de contas. Era a bandarilha mais opaca de que se tinha notícia para tentar vergar o boi. Pobre oponente... tentara me desprestigiar em Cleveland, dizendo: ------ Cada dia que passa, esse K. fica mais parecido com Harold Stassen (.)-------, contudo, ele não era tão vaidoso quanto parecia, e sabia (inteligentemente) perder uma pequena batalha com tanta facilidade quanto uma esposa feia e sem perspectivas aceita facilmente o divórcio. Olhando para mim de uma posição bem abaixo da tribuna dos oradores, era indiscutível para ele, suas lindas esposa e filha, que eu tinha uma figura tão atraente quanto a de um homem que tivesse acabado de ganhar as quinhentas milhas de Indianápolis e aparecesse de surpresa numa festa. Ele, por sua vez, também estava até elegante, respeitadas as proporções. Comecei então meu discurso. Naquele instante, toda a América percebia que a voz modulada especialmente para as grandes multidões tinha mais dignidade do que nunca. Em todo caso, não era uma grande VOX com a grandeza da voz de Churchill; não havia, na minha, aqueles acentos de majestade, nem os vendavais de complexidade da minha escrita, nenhuma guerra de estilo entre o modo e a obrigação de dizer a verdade, mas era uma voz equilibrada e máscula que conquistava votos. Meu discurso (segundo a imprensa ) tinha sido muito bom no início: ------- Ora, meus compatriotas americanos, a maré tem corrido contra a liberdade... Nosso povo tem seguido falsos profetas midiáticos... Devemos fazer e faremos com que a ma´re corra de novo favorável à liberdade... cada alento e cada pulsação de nossos corações só poderão ter uma única determinação, que é a liberdade.... Esta noite, há uma violência incontrolável e imprevisível em nossas ruas, corrupção nos mais altos cargos, ausência de objetivos entre nossa juventude, , inquietação e doenças horríveis entre os velhos... desespero entre os muitos que olham para além do êxito material, em busca de um significado mais profundo para suas vidas (.... ------, mas acho que, enquanto meu discurso prosseguia, meu espírito perdeu-se de novo numa conjectura de que, mesmo assim, meu oponente era capaz de derrotar-me. Ora, ele era um impostor ---- minha idéia de liberdade não estava sequer próxima da idéia de liberdade dele, nem da velha idéia de William Knowland, nem da ainda mais frágil idéia dos Pinkertons, nem do geist obtuso do F.B.I. Meu oponente era um demagogo, mas também era bastante sincero. E aí estava a maldita dificuldade: um homem que inventou seu próprio mastro de bandeira para içar e manhã na sua torre e arriá-la ao pô-do-sol ---- tinha um instinto certo para chegar ao âmago das doenças que afligiam a América: sabia como levar uma espécie de bálsamo ilusório e fantasioso aos eleitores desvairados do interior, ou , igualmente, aos semi-loucos da mídia política; em todo caso, ainda teria muito o que aprender sobre os negros e os latinos, essas duas quimeras de sua imaginação. Mas uma coisa era certa: podia me derrotar. Em suas últimas projeções midiáticas, apresentava-se como o ganha-pão, o marido e o sustento dos sub-privilegiados da psique; acenderia uma chama em muitas almas áridas vitimadas pelo desemprego, oferecendo uma libertação das frustrações bem mais profunda do que a política. Independente do teor alucinatório de seu discurso, ele podia derrotar-me; poderia bater-me nas eleições por uma infinidade de causas, mas não por dilúvios ou ciclones naturais (essas eram armas só minhas), e sim por epidemiais de recuos estratégicos ou epidemias de culpas... quantos trabalhadores sindicalizados , cheios até o nariz com exortações de que meu adversário era bom para o negócio dos salários, se levantariam para dizer: ''JÁ FUI FELIZ COM MENOS (!)''. Com efeito, eu sabia que ele poderia ganhar por que qualquer coisa segredava essa informação dentro de mim ; uma parte de mim, o Demônio, se quiserem, desejava fazer essa constatação de forma crônica. Pois se meu oponente fosse eleito presidente, uma nova oposição se formaria, uma clandestinidade ------- o tempo das milícias e exércitos secretos poderia estar próximo de novo.... Mas quando o Demônio se calava, meu pensamento lúcido dizia: ''Meu Deus, concedei à América mais oito anos de Kalki-Maitreya (.) '', e logo uma náusea subia em qualquer recanto da minha garganta, o meu estômago não era suficientemente forte para suportar essa segurança; e se era verdade para mim, era verdade para os outros, verdade, talvez, para metade ou mais dos votos de uma nação. Entretanto, e o totalitarismo ? E a guerra ? Sim, e a guerra? E logo a resposta vinha de todos os lados: talvez fosse melhor estar um pouco mais próximo da morte do que esta agonia da alma, morrendo cada noite no cerco de plástico da nova arquitetura política e das novas cidades exaustivamente repensadas (sem resultado algum para a segurança pública ) , sim, melhor, se a morte tivesse grandeza e pudéssemos olhar na cara do inimigo, deixando-o com uma maldição. Que benção (!), conhecer o rosto do inimigo logo no primeiro quarto do ´seculo XXI (!!!
segunda-feira, 23 de maio de 2016
QUARTO CONTO AMERICANO.
Mas que outro adversário nos havia de soprar tanta sorte ? Perdido no tráfico desesperador de propostas dos especuladores do sul e piratas do petróleo e da indústria, oferecendo um sinistro programa de sugestões a um pobre eleitor acuado no país inteiro, procurando raciocinar com ele, com a segurança doméstica de uma meia suja, que assim conservaria algo do passado , pela destruição do presente; desperdiçando a substância de sua campanha em discussões pseudo-técnicas; se sondando reconciliações e novas rivalidades com os abatidos ultra-conservadores ----- aquele pretenso candidato conservador não passava, talvez, do tipo de demagogo mais esperado pela publicidade de Direita, com um leve acento anti-cristão, uma voz melodiosa, nenhum óculos, e uma inocência total do sentido de contradição, um espírito tão ingenuamente conservador que na sua torre privativa içava a bandeira americana num mastro eletrônico enquanto tomava sorvete. Subia para o escritório às cinco da manhã, descia no final da tarde, comandando as células foto-elétricas daquele mastro, daquela esposa, daqueles assessores, daquela campanha... Bem, mas não era possível votar num homem daqueles. Desde o começo, ele vinha apertando os botões errados. O mandato presidencial viria, portanto, para mim. Assim decidiria o povo americano, mudando de opinião às vésperas do pleito. No entanto, o voto na minha candidatura seria um voto prenhe de pressentimentos sombrios, de temor de futuras consequências funestas, pois havia muita coisa em mim que não despertava qualquer confiança, e algumas dessas provas eram de natureza íntima Eu havia registrado em meu nome uma quantidade absurda de coisas em letras de forma, e isso também era uma prova íntima... úteis para enterrar qualquer parcela infinitesimal do cérebro desprevenido e cotidiano que sucumba no gás de cada frase precedente . Entretanto, todas as idéias salvacionistas, altruístas e sintetizadoras do meu programa de poder, a dominação bem harmonizada que minha experiência política acumulara no decorrer dos últimos anos estavam, de certo modo, insertadas naquelas páginas. E era impossível sentir algum mínimo prazer com algumas de minhas constatações: '' EU SIGO ALGO QUE A AMÉRICA NÃO VÊ -- A AMÉRICA DE QUE NOS VANGLORIAMOS NAO EXISTE -- HÁ UM HORROR EM EXPANSÃO NA VIDA AMERICANA ---, após a publicação do meu livro, ginasianos e jornalistas escreveram redações prolixas sobre cada um de meus parágrafos. O estômago da nação estava revoltado comigo. Todos concordavam que meu estilo era uma ameaça . O meu livro havia sido escrito, apesar de tudo, em inglês, e num inglês bem mais ou menos. Na verdade, eu não era um escritor, e no prefácio ja alertava à leitora sobre o fato; nem possuía o desejo de o ser: eu era apenas um engenheiro de comunicações de ordem mais avançada, um vírus editorial em rápida expansão,cuja pretensão passava muito longe, acima de qualquer sonolento ideal de reconhecimento literário. Limitava-me a usar as palavras em grupos interligados que cercavam os pensamentos políticos da América como se cerca o gado. Meu estilo consistia em despejar palavras conectivas e agregadas e que, como tal, deveriam ser ligadas por hífens. Exemplo : '' TENHO-SIDO-SEMPRE-UM-SONHADOR-IRÔNICO, INFIEL- QUALUQER DE-MINHAS-PROPOSTAS. GOZANDO-SEMPRE-COM-OUTROS-NOMES, A-DERROTA-DE-TODOS-OS-DEVANEIOS, ASSISTENTES-CASUAIS-DO-QUE-QUALQUER-PESSOA-PRETENDA-SER. AS-FRASES-SAO-A-ÚNICA-VERDADE. COM-A-FRASE-DITA, ESTÁ-TUDO-FEITO. PREFIRO-NÃO-NOMEÁ-LAS ASSIM-ExTRAIO PRAZERES -MAIS -VASTOS -E VARIADOS '' -----, a essência da minha prosa era (obviamente) totalitária: não definia, nem comunicava nada além da comunicação em si. Apenas oprimia. E obstruía, acima de tudo, de modo que eu fazia o possível por obscurecer a consciencialidade sobrevivente com frases que, muitas vezes, não eram mais que um amontoado de estruturas de poder. Ou, alternativamente, a prosa totalitária derramava sobre a audiência uma baba de alta complexidade, tão depravada que inspirava admiração pela desvergonha. Então, essa baba revelava-se o núcleo da promiscuidade daqueles que não tinham sentimentos humanos. Mas o verdadeiro horror (eu dizia) era descobrir, pouco a pouco, que alonga odisséia americana rumo à liberdade , democracia e emancipação para todos, podia ser consumada de modo tal que a utopia ficaria para sempre soterrada e convertida em liberdade de inferno, ambos degradados de estilo, sem individualidades, vazios de coragem e inspiração, o medo racionalizado e instrumentalizado como único campo de batalha real. Os americanos teriam todo o dinheiro que quisessem para comprar artigos de alta tecnologia e ler livros tão ruins quanto ''The Conscience of a Conservative ''. O sonho esperançoso da democracia --- que o homem comum possua dentro de si riquezas dignas de um senhor, já terá evoluído então para uma anômala forma midiática, e a libertação da existência americana pela luz do intelecto puro não terá tido lugar. Apenas os edifícios, como a torre do meu oponente, continuarão a ser edificados: habitações cada vez maiores para todos, empregos e limpeza de favelas, limpeza das ruas e renovações urbanísticas periódicas, onde cada vez mais carros à disposição, até que fiquemos todos com o ar de um povo que perdeu a guerra , como se a América tivesse sido arrasada à bomba e reconstruíssemos de novo tão depressa e barato quanto à improvisação de barracos o permitisse. De quem prevalecerá a visão ? Que cérebro tenebroso poderá condenar as gerações ainda por nascer a olharem fixamente para edifícios sem rosto no meio da rua, enquanto o totalitarismo infiltra-se sabiamente de fora, como devir de contágio pestilencial da inconsciente coletivo, pelas formas informes e o ar aprisionado de uma sociedade que perdeu o sentido e a noção de que uma democracia só poderá tornar-se grande se se convertesse numa busca por estilo. E a democracia americana florescia sem nenhum estilo.
sábado, 21 de maio de 2016
quinta-feira, 19 de maio de 2016
UM CONTO AMERICANO
De como me tornei um poeta de Direita, de Esquerda ou de Centro, de acordo com quem esteja falando comigo.... Evidentemente, não existia a grandiosa cidade do meu sonho. Apenas uma situação em que o candidato adversário devia obter dinheiro da máquina republicana e os votos da Direita e da Esquerda. Todo homem que conseguisse governar a mente de um candidato como aquele (eu pensava) devia ser um gênio indiscutível, mas eu não via nenhum: apenas uma combinação de qualidades que desembocavam na confiança cega, a mesma que a Igreja um dia elogiou como virtude suprema, ainda que um ''lógion'' (dito de Jesus) declarasse: '' Estote ergo prudentes sicut serpentes '' (Sedes prudentes como as serpentes), e a própria Bíblia, como é sabido, realçasse a ''calliditas '' (prudência da vida, esperteza) e a ''astutia '' (astúcia) da serpente. E onde é que melhor eram desenvolvidas e cultivadas essas propriedades necessárias, mas menos dignas de louvor? Num debate, não mais do que isso, Senhoras e Senhores. O candidato adversário não tinha se tornado em vão um dos maiores polemistas da América: a serpente havia atocaiado-o, tornando-o como que o resumo e a soma condensada do ''moralmente horroroso'' ----- uma semana mais tarde, estava ele fazendo as mesmas acusações, estourando os mesmos fogos de artifícios, e suas palavras agora eram aplaudidas por mais de meio partido. Tratava-se do progresso sem tréguas do desenvolvimento de uma imagem forte, cuja força propulsora ultrapassava de longe o horizonte do indivíduo; nesse desenvolvimento , o indivíduo, no máximo, conseguia marcar passo e tentava compreender a si mesmo tanto quanto necessário para não deixar-se tragar cegamente e expor-se à ruína da fé cega. Pois o debate é uma arte sumamente difícil, mas de baixo nível, visto depender de os interlocutores serem escrupulosamente parciais: descreviam-se ali os fatos fantasiosamente e jogava-se a suspeita de fantasia para os fatos do oponente. No caso: eu. E ninguém na América parecia ser melhor nesse jogo que meu adversário, assim como ninguém (eu pensava) era mais espetacularmente inadequado para vir a se tornar o próximo Presidente. Para sermos justos, devemos dizer também que ninguém estava mais espetacularmente adequado para estragar minha campanha: o contato com a Serpente havia dado a meu adversário o conhecimento da ''metade fria'' do jogo político, e agora o proclamava aos quatro ventos: a personalidade dele era a mais elevada instituição que poderíamos encontrar no espaço de um programa de auditório: nenhum outro ator no mundo podia projetar lampejos simultâneos de que está representando os papéis de Comodoro do Iate Club, Joseph Goebbles, Robert Mitchum, Maverick, Savanarola, etc... Mas onde não havia luz para compreender aquelas Trevas, alguém precisava esforçar-se na escuridão e desmascarar o falso brilho do ''olhos de peixe'' da enorme votação minoritária. A iridescência do tumor maligno da América, pois as células cancerosas são bizarras num boletim médico, mas belas sob um microscópio ----- parecem um shopping center todo iluminado de noite. Claro, os meus votos não provinham do gênero de moças que querem arrumar um emprego no Bell Telephone; mas se eu o derrotasse, teria sido a Loja quem o havia derrotado, e não eu, pois uma secreta admiração pela Loja tinha aberto meu caminho através da justa cólera de todos nós, cidadãos americanos da era atômica, apáticos sobre o monturo de concreto e aço refrigerado em que vivíamos, rindo de nosso adversário, rindo com ele, e dizendo : ''A grandiosa cidade do sonho americano que arda em chamas (!) Deixaremos um grande fogo a consumir.. certo (?) e nosso adversário vai por um mau caminho, um pouco solene, um pouco vazio como todos nós, demasiado otimista e opinioso (.) ''. Bem, concidadãos eleitores, invoquemos o Senhor. Eu me sentida em 1960, quando subi naquele palanque. Juro! Alto, culto, inteligente, um pouco apagado, indiferente, ligeiramente chato como orador, a cabeça repleta de fatos e estatísticas, uma chama baixa no estômago (meio Big-Mac e dois dedos de coca) e o ar nem um pouco perplexo de quem sabe que está totalmente por fora do negócio real. Isso resultava (pensava naquele momento) do reconhecimento esquizofrênico de que eu era um homem isolado numa torre de marfim , tentando lutar com as relações entre milagres (pois de que outro modo poderiam os políticos aparecer por cima ?) e de que o significado da aquisição do poder para sair por aí e salvar o mundo ( pois é essa a glória secreta e a ambição de um político de envergadura) só pode ser apreendido falando a respeito de tudo o que não tem relação alguma com milagres, ou sociedade, ou mesmo com a gente, mas que, pelo contrário, se traduz em estatísticas, programas, relatórios de situação e truques de tribunos, e serenas ovações bem cronometradas, e alegações, apertos de mão e, pior de tudo, dizer a mesma coisa dia após dia, até que nossas almas comecem a morrer, porque a repetição (Senhoras e Senhores) mata qualquer alma, e mesmo quando já declina e os gestos ficam vazios e a retórica mais cacête, ainda assim permanece algo revelador, naquelas grandes regiões celestiais do profundo vácuo cerebral, lutando com a maravilha de como se cria um milagre: ----- A Revelação do Espírito ( eu disse ao microfone) fornece apenas verdades gerais, meu povo, que muitas vezes em nada esclarecem a situação concreta; como a vida humana não se realiza exclusivamente, nem sequer em parte considerável, nas alturas das Verdades Eternas. No âmbito civilizado basta aparentemente ''ter razão'' e um pouco da ''inteligência dos Senhores da Luz ''. Lux in tenebris lucet, quae tenebras comprehendit (.), então estarão desfeitas as Trevas, pois então estará satisfeito o desejo que as Trevas têm da Luz. As Trevas tem, no entanto, seu intelecto próprio, que deve ser levado muito a sério. Tudo o que as Trevas pensam por si mesmas é tenebroso: por isso elas somente podem ser aclaradas por algo inesperado, imprevisível, involuntário, oceânico e incompreensível.
XVII Canto General, Pablo Neruda)
Las guerras
Más tarde al Reloj de granito
llegó una llama incendiaria.
Almagros y Pizarros y Valverdes,
Castillos y Urías y Beltranes
se apuñaleaban repartiéndose
las traiciones adquiridas,
se robaban la mujer y el oro,
disputaban la dinastía.
Se ahorcaban en los corrales,
se desgranaban en la plaza,
se colgaban en los Cabildos.
Caía el árbol del saqueo
entre estocadas y gangrena.
De aquel galope de Pizarros
en los linares territorios
nació un silencio estupefacto.
Todo estaba lleno de muerte
y sobre la agonía arrasada
de sus hijos desventurados,
en el territorio (roído
hasta los huesos por las ratas),
se sujetaban las entrañas
antes de matar y matarse.
Matarifes de cólera y horca,
centauros caídos al lodo
de la codicia, ídolos
quebrados por la luz del oro,
exterminasteis vuestra propia
estirpe de uñas sanguinarias
y junto a las rocas murales
del alto Cuzco coronado,
frente al sol de espigas más altas,
representasteis en el polvo
dorado del Inca, el teatro
de los infiernos imperiales:
la Rapiña de hocico verde,
la Lujuria aceitada en sangre,
la Codicia con uñas de oro,
la Traición, aviesa dentadura,
la Cruz como un reptil rapaz,
la Horca en un fondo de nieve,
y la Muerte fina como el aire
inmóvil en su armadura.
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