sábado, 21 de janeiro de 2017

Zonas de fronteiras psíquicas.

Meu incomparável conhecimento da caricatura antiga abriu-me bastante cedo na vida o caminho para a obra de Toulouse-Lautrec, de Heartfield e George Grosz. Minha paixão por Daumier levou-me diretamente à Slevogt,cuja visão de D. Quixote me pareceu a única à altura de Daumier. Alguns estudos de cerâmica que realizei na adolescência deram-me uma autoridade incomparável para apoiar o aspecto visual da minha literatura na obra de Emil Pottner . E foi (sem dúvida) o colecionador que havia em mim que ensinou ao teórico a apreender muita coisa a que meu próprio tempo me barrava o acesso. O colecionador que entrou clandestinamente por zonas de fronteiras psíquicas ---- o retrato deformado ,ou mesmo a representação pornográfica, esse impulso subterrâneo tão poderoso em mim -----nas quais uma série de chavões da história da arte tradicional mais cedo ou mais tarde fazem fracassar. Praticamente desde as primeiras linhas que escrevi, não é possível encontrar aqueles conceitos que haviam servido à burguesia ocidental para desenvolver sua concepção de arte: nem a bela aparência, nem a harmonia, nem a unidade do diverso. Encontramos aqui a mesma  auto-afirmação excludente do colecionador, em sua WUNDERKAMMER , decidido a afastar-se tanto do classicismo quanto do sofrível sentido de humor da arte popular. E isto é algo que evidencia-se, inclusive , de forma até drástica e brusca , na minha forma de relacionar-me com a Antiguidade. A nova forma da beleza que meus diversos tipos de registro anunciam nos seus resultados finais é ''infinitamente maior que a da Antiguidade'' , pois se esta era apenas manifestação suprema da ''forma animal'' , a nova beleza que emerge da minha concepção de arte será preenchida cm um grandioso conteúdo intelectual e anímico. Até mesmo aquela escala de valores tão refinada, que na época de Winckelman e Goethe determinara uma certa relação com a obra de arte , perde completamente sua influência aqui .Quando  os ''disiecta membra '' a que o idealismo chama '' representação histórica '' , por um lado , e ''homenagem celebratória'' , por outro, se transformam em um só, ainda assim as exigências da minha poesia anunciam a superação também disso.  Um feito poético cujo objeto não está constituído por um novelo de pura facticidade ,  como nas derrapagens filosóficas do concretismo , mas por um conjunto determinado de fios que representam a inter-penetração de dois planos em um só : do arquétipo imemorial e eterno no presente informativo mais vertiginoso.

K.M.

Post Scriptum

Sabemos que a pintura  em madeira mais antiga punha o homem a morar em espaços pouco maiores que guaritas . Os pintores do s começos do Renascimento foram os primeiros a pintarem espaços interiores em que as figuras representadas têm ''espaço de ação''. Foi exatamente isto que tornou a invenção da perspectiva por Ucello tão impressionante para os contemporâneos e para ele próprio . A pintura, que a partir de então passou a oferecer suas criações mais do que nunca aos homens no lugar em que viviam (em vez de, como antes , as fazer para lugares de oração), deu-lhes novos modelos de habitação, e não se cansou, desde então, de erguer diante deles perspectivas de grandes moradias . O Renascimento tardio, muito mais sóbrio  na representação do interior propriamente dito,continuou a seguir essa tendência. 

Em '' Die Klassiche Kunst. Eine Einfuhrung in die italienische Renaissance '' , Heinrich Wolfflin diz que  ''O Cinquecento tem uma sensibilidade particularmente desenvolvida para a relação entre o homem e a obra arquitetônica, para a ressonância de um belo espaço '', e que ''é quase impossível conceber a existência humana sem o enquadramento e a fundamentação arquitetônicas''. 

K.M.






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