Ariana sente vir uma transmutação que lhe é própria: o poder feminino liberado, tornado benfazejo e afirmativo" a anima. "Que o reflexo de uma estrela brilhe em seu amor! Que sua esperança diga: Oh, que eu possa estrelar no mundo o super-homem (110)!" Além disso, em relação a Dionísio, Ariana-Anima é como uma segunda afirmação. A afirmação dionisíaca exige outra afirmação que a toma por objeto. O devir dionisíaco é o ser, a eternidade, enquanto a afirmação correspondente é afirmada: "Eterna afirmação do ser, eternamente sou tua afirmação (111)." O eterno retorno "aproxima ao máximo" o devir e o ser, afirma um do outro (112); é preciso ainda uma segunda afirmação para operar essa aproximação. Por isso o eterno retorno é um anel nupcial (113). Por isso o universo dionisíaco, o ciclo eterno é um anel nupcial, um espelho de núpcias o qual espera a alma (anima) capaz de mirar-se nele, mas também de refleti-lo ao mirar-se (114). Por isso Dionísio quer uma noiva: "Sou eu, eu que tu queres? Eu inteira (115)?... " (Mais uma vez observaremos que, conforme o ponto no qual nos colocamos, as núpcias mudam de sentido. Pois segundo o eterno retorno constituído, o próprio Zaratustra aparece como o noivo e a eternidade como uma mulher amada. Mas segundo o que constitui o· eterno retorno, Dionísio é a primeira afirmação, o devir e o ser, mas exatamente o devir que só é ser como objeto de uma segunda afirmação; Ariana é esta segunda afirmação, Ariana é a noiva, o poder feminino que ama).
Nietzsche e a Filosofia
Gilles Deleuze.
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