domingo, 22 de janeiro de 2017

Substituição do momento ÉPICO pelo CONSTRUTIVO.

Quando Engels dirigiu a Mehring sua famosa carta sobre materialismo histórico, este último já havia  passado tanto pelo nacionalismo quanto pela Escola de Lassale, que preparou o nascimento do Partido Social Democrata alemão . Segundo Walter Benjamin, é mais ou menos nessa época também que Eduardo Fuchs inicia seu trabalho pioneiro de ''colecionador'' , fundando um arquivo, único na sua espécie,  que documento não só a história da caricatura , mas também da arte erótica e dos quadros de costumes.  É daí que surge toda a teoria materialista da arte , quando Fuchs alcança suas ´''vitórias''  jornalísticas.  

Na carta de Engels datada de 14 de julho de 1893 , pode-se ler, entre outras coisas , o seguinte : 

''Aquilo que mais contribui para a cegueira da maior parte das pessoas é essa aparência de uma história autônoma das formas de organização política, dos sistemas do Direito , das concepções ideológicas nos seus respectivos domínios específicos.  Quando acontece a ''superação '' da religião oficial católica oficial por Lutero e Calvino,quando Hegel supera Fichte e Kant , ou Rousseau , indiretamente , com seu Contrato Social, o constitucionalista Montesquieu, trata-se de um processo que permanece dentro dos limites da teologia, da filosofia , da teoria política , que representa  apenas uma etapa na história dessas áreas do pensamento humano e não sai delas. E desde que a ilusão burguesa da natureza eterna e em absoluto definitiva da produção capitalista chegou a essa conclusão, até a superação dos mercantilistas pelos fisiocratas e Adam Smith é vista como uma mera vitória do pensamento, não como o reflexo, no pensamento , da transformação de fatos econômicos, mas como a visão concreta e finalmente alcançada de condições reais eterna e universalmente vigentes ''. 

(Citado por Gustave Mayer em Friederich Engels, Eine Biographie , volume II : Engels und der Aufstieg der Arbeiterbewegung in Europa. Engels e a Ascensão do Movimento Operário na Europa ).

Engels contesta nessa carta o hábito , na história das idéias, de sempre se apresentar um novo dogma como ''evolução'' de um anterior , e o de apresentar novas constelações de idéias  separadas dos efeitos sobre as pessoas e do seu processo de ''produção'' (poiésis) , tanto espiritual como econômico.  E a força explosiva dessa idéia , que Engels não abandonará por mais de meio século , alcança muito mais fundo.  Ela nos ensina sobretudo como a RECEPÇÃO  pelos contemporâneos é parte integrante do efeito de uma obra de arte ou uma idéia  (filosófica, política ou econômica)  , e como este último assenta no encontro não apenas com a obra, mas também com a história.

Outro grande cérebro humano que deu-nos a entender mais ou menos a mesma coisa foi Goethe, ainda que de forma velada . Numa conversa com o chanceler Von Muller sobre Shakespeare, ele diz

''Tudo aquilo que exerceu uma grande influência não pode , de fato ,  ser objeto de um único juízo sem desqualificar completamente o analista isolado ''.

Desassossego imenso pelo desafio ao investigador no sentido de abandonar imediatamente qualquer atitude tranquila e contemplativa em relação ao objeto artístico, para tomar consciência de toda a constelação crítica em que se situa precisamente . Foi também assim que o materialismo histórico se viu obrigado a renunciar ao elemento épico da história. Para ele , ela torna-se o objeto de uma CONSTRUÇÃO cujo lugar é constituído não pelo tempo vazio das análises de superfície dos fenômenos históricos, mas por uma época , por uma biografia, por uma gênese, uma fama e a recepção de uma obra ou uma idéia determinada . Ele arranca impiedosamente a época à ''continuidade histórica'' reificada  e falsificada , e assim também a vida à sua época e uma determinada obra ao conjunto de uma ''oeuvre'' . A substituição do momento épico pelo CONSTRUTIVO revela ser a condição dessa experiência reveladora, pois nela libertam-se as gigantescas forças que permanecem presas ao ''Era uma vez '' do historicismo. Acionar no contexto da história a experiência que é para cada presente uma experiência originária ---- essa foi de regra a principal contribuição do materialismo histórico para a tomada de consciência do ser humano perante sua condição.

K.M.





Nenhum comentário:

Postar um comentário