domingo, 1 de janeiro de 2017

Incorporar todos os antagonismos.

A coesão do todo coletivo , ao contrário das vozes que se levantam sempre que alguma coisa se rompe no mundo, é inseparável da civilização do conflito , da pacificação das condutas individualistas e coletivas ligadas ao impulso dos valores individualistas de vida, de respeito e indiferença pelo Outro, na privatização das existências impulsionada pelo reino terminal da moda. Mesmo o desemprego em massa e os atentados terroristas não chegam a abalar de forma crucial os comportamentos individuais e coletivos majoritariamente tolerantes e tranquilos. Podemos , ao que parece,  coexistir na heterogeneidade dos pontos de vista porque reina nos costumes atuais uma espécie de relativismo pacificador, cada vez mais duvidoso, é verdade, mas que faz com que tudo que diga respeito à violência física se encontre visceralmente desqualificado pelas vozes oficiais da sociedade de consumo. Os estados-maiores políticos podem continuar a sustentar, de tempos em tempos , discursos de oposição irredutíveis, mas a sociedade civil permanece espantosamente calma em sua consternação midiática, refratária à guerra de provocação política ideológica. Como acumular cadáveres no placar de uma guerra santa se o reino da moda segue acelerando a nuclearização do social , reconstituindo, paralelamente, um elo de sociabilidade inestimável  ao favorecer a neutralização dos antagonismos, rematando o processo secular de abrandamento dos costumes constitutivos dos tempos atuais (??) , e reforçando os gostos de paz civil  e o respeito das regras democráticas quando a luta por Justiça se torna tão dramática (??) Portanto, há limitações no reino da moda no que diz respeito à sua independência dos mecanismos de contenção do sistema,  visando a tornar a divisão social menos explosiva e problemática , atuando na desdramatização superficial de tudo quanto se encontra à margem , reunindo forças para a luta . Mesmo o que é radicalmente antinômico não engendra mais exclusão redibitória, fazendo com que as diferenças ideológicas não consigam mais romper nenhum elo social pela avanço da tempestade . Não estamos mais numa sociedade de divisão sangrenta, mas também não estamos mais vivendo num sociedade perfeitamente climatizada e homogeneizada , por isso o modelo da moda que rege nosso espaço coletivo deve incorporar todos os antagonismos e expressar artisticamente seu espírito de ''luta'' , superando a era da coabitação pacífica de paradigmas contrários. Todo conflito social, político, racial ou econômico , no mundo atual, está visivelmente estruturado como ''Moda'', e as maiores entre todas as oposições descartam a Grande Civilidade dos conceitos , as clivagens superficiais da moda burguesa , para que o reino final da Moda, da Moda enquanto Máquina de Guerra,  inscreva as diferenças marginais na Realidade com todas as suas disjunções de princípios. É preciso usar a Moda para devolver aos costumes sociais o lugar que lhes cabe na emancipação espiritual das consciências ; o todo coletivo só poderá se manter conectado e desperto por um processo de socialização renovado,capaz de desenvolver e assimilar todas as paixões reais que movem o mundo através de um estilo caleidoscópico que exclui a massificação das paixões. A lição de Tocqueville deve ser mais uma vez ouvida aqui : ''Se não consegui fazer sentir aos leitores no curso desta obra a importância que atribuía à experiência prática dos americanos, aos seus hábitos, à suas opiniões, em uma palavra , aos seus costumes, na manutenção de suas leis, falhei no objetivo principal que me propunha ao escrevê-la ''. Se a apoteose da moda trabalha para reforçar a paz civil , não exclui de modo algum o surgimento de lutas sociais muitas vezes parciais, e por vezes de grande envergadura. O individualismo alienante atual não é o que abole as formas mais poderosas de participação das consciências  nos combates coletivos, é o que transforma apenas seu teor.

K.M.

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