sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

A todo momento sentimos que algo nos escapa.

O último tema parecia ter chegado a uma conclusão, enquanto nas centenas de páginas nas quais eu iria prosseguir, com um ímpeto frequentemente renovado por técnicas de ocultismo, a mesma história devia agora elevar-se a peripécias de intento bem diversas, donde uma alteração do sentido que lembrava muito a idéia do deslocamento do ponto de aglutinação, de Don Juan Matus. Mesmo hoje, ela ainda nos perturba, engajando-nos numa tarefa criativa desmesurada, e numa experiência que ultrapassa em muito as previsões racionalistas. Tudo se torna mais difícil quando o ponto de aglutinação se desloca, sem dúvida, menos seguro, mas não necessariamente mais sombrio, pois aquilo que nos chega é por vezes uma nova luz , às vezes sensível e simples, às vezes extremamente perturbadora. A todo momento sentimos que algo nos escapa, que as cartas não estão todas na mesa, e nos surpreendemos, nos assustamos, nos rebelamos diante dos excessos de maquinação autopoiética: excesso de percepções, de sínteses instantâneas e omniabarcantes, excesso de abstrações desnovelantes do novo rigor. O exaltante é que a continuação imprevisível do livro não está ligada ao aprofundamento de nenhum tema específico, mas torna-se necessária pela mitologia própria do escritor rigoroso e à coerência das visões que extrai de cada deriva. Um escritor como esses seria incapaz de escrever apenas para acalentar ilusões, esforçando-se em vão para arejar o quadro de um encardido plano premeditado.

K.M.

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