PARTE 1
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De como me tornei um poeta de Direita, de Esquerda ou de Centro, de acordo com quem esteja falando comigo.... Evidentemente, não existia a grandiosa cidade do meu sonho. Apenas uma situação em que o candidato adversário devia obter dinheiro da máquina republicana e os votos da Direita e da Esquerda. Todo homem que conseguisse governar a mente de um candidato como aquele (eu pensava) devia ser um gênio indiscutível, mas eu não via nenhum: apenas uma combinação de qualidades que desembocavam na confiança cega, a mesma que a Igreja um dia elogiou como virtude suprema, ainda que um ''lógion'' (dito de Jesus) declarasse: '' Estote ergo prudentes sicut serpentes '' (Sedes prudentes como as serpentes), e a própria Bíblia, como é sabido, realçasse a ''calliditas '' (prudência da vida, esperteza) e a ''astutia '' (astúcia) da serpente. E onde é que melhor eram desenvolvidas e cultivadas essas propriedades necessárias, mas menos dignas de louvor? Num debate, não mais do que isso, Senhoras e Senhores. O candidato adversário não tinha se tornado em vão um dos maiores polemistas da América: a serpente havia atocaiado-o, tornando-o como que o resumo e a soma condensada do ''moralmente horroroso'' ----- uma semana mais tarde, estava ele fazendo as mesmas acusações, estourando os mesmos fogos de artifícios, e suas palavras agora eram aplaudidas por mais de meio partido. Tratava-se do progresso sem tréguas do desenvolvimento de uma imagem forte, cuja força propulsora ultrapassava de longe o horizonte do indivíduo; nesse desenvolvimento , o indivíduo, no máximo, conseguia marcar passo e tentava compreender a si mesmo tanto quanto necessário para não deixar-se tragar cegamente e expor-se à ruína da fé cega. Pois o debate é uma arte sumamente difícil, mas de baixo nível, visto depender de os interlocutores serem escrupulosamente parciais: descreviam-se ali os fatos fantasiosamente e jogava-se a suspeita de fantasia para os fatos do oponente. No caso: eu. E ninguém na América parecia ser melhor nesse jogo que meu adversário, assim como ninguém (eu pensava) era mais espetacularmente inadequado para vir a se tornar o próximo Presidente. Para sermos justos, devemos dizer também que ninguém estava mais espetacularmente adequado para estragar minha campanha: o contato com a Serpente havia dado a meu adversário o conhecimento da ''metade fria'' do jogo político, e agora o proclamava aos quatro ventos: a personalidade dele era a mais elevada instituição que poderíamos encontrar no espaço de um programa de auditório: nenhum outro ator no mundo podia projetar lampejos simultâneos de que está representando os papéis de Comodoro do Iate Club, Joseph Goebbles, Robert Mitchum, Maverick, Savanarola, etc... Mas onde não havia luz para compreender aquelas Trevas, alguém precisava esforçar-se na escuridão e desmascarar o falso brilho do ''olhos de peixe'' da enorme votação minoritária. A iridescência do tumor maligno da América, pois as células cancerosas são bizarras num boletim médico, mas belas sob um microscópio ----- parecem um shopping center todo iluminado de noite. Claro, os meus votos não provinham do gênero de moças que querem arrumar um emprego no Bell Telephone; mas se eu o derrotasse, teria sido a Loja quem o havia derrotado, e não eu, pois uma secreta admiração pela Loja tinha aberto meu caminho através da justa cólera de todos nós, cidadãos americanos da era atômica, apáticos sobre o monturo de concreto e aço refrigerado em que vivíamos, rindo de nosso adversário, rindo com ele, e dizendo : ''A grandiosa cidade do sonho americano que arda em chamas (!) Deixaremos um grande fogo a consumir.. certo (?) e nosso adversário vai por um mau caminho, um pouco solene, um pouco vazio como todos nós, demasiado otimista e opinioso (.) ''. Bem, concidadãos eleitores, invoquemos o Senhor. Eu me sentida em 1960, quando subi naquele palanque. Juro! Alto, culto, inteligente, um pouco apagado, indiferente, ligeiramente chato como orador, a cabeça repleta de fatos e estatísticas, uma chama baixa no estômago (meio Big-Mac e dois dedos de coca) e o ar nem um pouco perplexo de quem sabe que está totalmente por fora do negócio real. Isso resultava (pensava naquele momento) do reconhecimento esquizofrênico de que eu era um homem isolado numa torre de marfim , tentando lutar com as relações entre milagres (pois de que outro modo poderiam os políticos aparecer por cima ?) e de que o significado da aquisição do poder para sair por aí e salvar o mundo ( pois é essa a glória secreta e a ambição de um político de envergadura) só pode ser apreendido falando a respeito de tudo o que não tem relação alguma com milagres, ou sociedade, ou mesmo com a gente, mas que, pelo contrário, se traduz em estatísticas, programas, relatórios de situação e truques de tribunos, e serenas ovações bem cronometradas, e alegações, apertos de mão e, pior de tudo, dizer a mesma coisa dia após dia, até que nossas almas comecem a morrer, porque a repetição (Senhoras e Senhores) mata qualquer alma, e mesmo quando já declina e os gestos ficam vazios e a retórica mais cacête, ainda assim permanece algo revelador, naquelas grandes regiões celestiais do profundo vácuo cerebral, lutando com a maravilha de como se cria um milagre: ----- A Revelação do Espírito ( eu disse ao microfone) fornece apenas verdades gerais, meu povo, que muitas vezes em nada esclarecem a situação concreta; como a vida humana não se realiza exclusivamente, nem sequer em parte considerável, nas alturas das Verdades Eternas. No âmbito civilizado basta aparentemente ''ter razão'' e um pouco da ''inteligência dos Senhores da Luz ''. Lux in tenebris lucet, quae tenebras comprehendit (.), então estarão desfeitas as Trevas, pois então estará satisfeito o desejo que as Trevas têm da Luz. As Trevas tem, no entanto, seu intelecto próprio, que deve ser levado muito a sério. Tudo o que as Trevas pensam por si mesmas é tenebroso: por isso elas somente podem ser aclaradas por algo inesperado, imprevisível, involuntário, oceânico e incompreensível.
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Mas que outro adversário nos havia de soprar tanta sorte ? Perdido no tráfico desesperador de propostas dos especuladores do sul e piratas do petróleo e da indústria, oferecendo um sinistro programa de sugestões a um pobre eleitor acuado no país inteiro, procurando raciocinar com ele, com a segurança doméstica de uma meia suja, que assim conservaria algo do passado , pela destruição do presente; desperdiçando a substância de sua campanha em discussões pseudo-técnicas; se sondando reconciliações e novas rivalidades com os abatidos ultra-conservadores ----- aquele pretenso candidato conservador não passava, talvez, do tipo de demagogo mais esperado pela publicidade de Direita, com um leve acento anti-cristão, uma voz melodiosa, nenhum óculos, e uma inocência total do sentido de contradição, um espírito tão ingenuamente conservador que na sua torre privativa içava a bandeira americana num mastro eletrônico enquanto tomava sorvete. Subia para o escritório às cinco da manhã, descia no final da tarde, comandando as células foto-elétricas daquele mastro, daquela esposa, daqueles assessores, daquela campanha... Bem, mas não era possível votar num homem daqueles. Desde o começo, ele vinha apertando os botões errados. O mandato presidencial viria, portanto, para mim. Assim decidiria o povo americano, mudando de opinião às vésperas do pleito. No entanto, o voto na minha candidatura seria um voto prenhe de pressentimentos sombrios, de temor de futuras consequências funestas, pois havia muita coisa em mim que não despertava qualquer confiança, e algumas dessas provas eram de natureza íntima Eu havia registrado em meu nome uma quantidade absurda de coisas em letras de forma, e isso também era uma prova íntima... úteis para enterrar qualquer parcela infinitesimal do cérebro desprevenido e cotidiano que sucumba no gás de cada frase precedente . Entretanto, todas as idéias salvacionistas, altruístas e sintetizadoras do meu programa de poder, a dominação bem harmonizada que minha experiência política acumulara no decorrer dos últimos anos estavam, de certo modo, insertadas naquelas páginas. E era impossível sentir algum mínimo prazer com algumas de minhas constatações: '' EU SIGO ALGO QUE A AMÉRICA NÃO VÊ -- A AMÉRICA DE QUE NOS VANGLORIAMOS NAO EXISTE -- HÁ UM HORROR EM EXPANSÃO NA VIDA AMERICANA ---, após a publicação do meu livro, ginasianos e jornalistas escreveram redações prolixas sobre cada um de meus parágrafos. O estômago da nação estava revoltado comigo. Todos concordavam que meu estilo era uma ameaça . O meu livro havia sido escrito, apesar de tudo, em inglês, e num inglês bem mais ou menos. Na verdade, eu não era um escritor, e no prefácio ja alertava à leitora sobre o fato; nem possuía o desejo de o ser: eu era apenas um engenheiro de comunicações de ordem mais avançada, um vírus editorial em rápida expansão,cuja pretensão passava muito longe, acima de qualquer sonolento ideal de reconhecimento literário. Limitava-me a usar as palavras em grupos interligados que cercavam os pensamentos políticos da América como se cerca o gado. Meu estilo consistia em despejar palavras conectivas e agregadas e que, como tal, deveriam ser ligadas por hífens. Exemplo : '' TENHO-SIDO-SEMPRE-UM-SONHADOR-IRÔNICO, INFIEL- QUALQUER DE-MINHAS-PROPOSTAS. GOZANDO-SEMPRE-COM-OUTROS-NOMES, A-DERROTA-DE-TODOS-OS-DEVANEIOS, ASSISTENTES-CASUAIS-DO-QUE-QUALQUER-PESSOA-PRETENDA-SER. AS-FRASES-SAO-A-ÚNICA-VERDADE. COM-A-FRASE-DITA, ESTÁ-TUDO-FEITO. PREFIRO-NÃO-NOMEÁ-LAS ASSIM-ExTRAIO PRAZERES -MAIS -VASTOS -E VARIADOS '' -----, a essência da minha prosa era (obviamente) totalitária: não definia, nem comunicava nada além da comunicação em si. Apenas oprimia. E obstruía, acima de tudo, de modo que eu fazia o possível por obscurecer a consciencialidade sobrevivente com frases que, muitas vezes, não eram mais que um amontoado de estruturas de poder. Ou, alternativamente, a prosa totalitária derramava sobre a audiência uma baba de alta complexidade, tão depravada que inspirava admiração pela desvergonha. Então, essa baba revelava-se o núcleo da promiscuidade daqueles que não tinham sentimentos humanos. Mas o verdadeiro horror (eu dizia) era descobrir, pouco a pouco, que alonga odisséia americana rumo à liberdade , democracia e emancipação para todos, podia ser consumada de modo tal que a utopia ficaria para sempre soterrada e convertida em liberdade de inferno, ambos degradados de estilo, sem individualidades, vazios de coragem e inspiração, o medo racionalizado e instrumentalizado como único campo de batalha real. Os americanos teriam todo o dinheiro que quisessem para comprar artigos de alta tecnologia e ler livros tão ruins quanto ''The Conscience of a Conservative ''. O sonho esperançoso da democracia --- que o homem comum possua dentro de si riquezas dignas de um senhor, já terá evoluído então para uma anômala forma midiática, e a libertação da existência americana pela luz do intelecto puro não terá tido lugar. Apenas os edifícios, como a torre do meu oponente, continuarão a ser edificados: habitações cada vez maiores para todos, empregos e limpeza de favelas, limpeza das ruas e renovações urbanísticas periódicas, onde cada vez mais carros à disposição, até que fiquemos todos com o ar de um povo que perdeu a guerra , como se a América tivesse sido arrasada à bomba e reconstruíssemos de novo tão depressa e barato quanto à improvisação de barracos o permitisse. De quem prevalecerá a visão ? Que cérebro tenebroso poderá condenar as gerações ainda por nascer a olharem fixamente para edifícios sem rosto no meio da rua, enquanto o totalitarismo infiltra-se sabiamente de fora, como devir de contágio pestilencial da inconsciente coletivo, pelas formas informes e o ar aprisionado de uma sociedade que perdeu o sentido e a noção de que uma democracia só poderá tornar-se grande se se convertesse numa busca por estilo. E a democracia americana florescia sem nenhum estilo.
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Nos meses seguintes, quando o touro que havia dentro do meu oponente resfolegava com excessivo ímpeto e prometia falar de novo sobre terrorismo internacional, e sobre as Medalhas de Honra que pretendia distribuir aos Mariners, enviavam o Senador socialista para acalmá-lo. A Internacional socialista, como a cabeça da Hidra, ainda não morrera, afinal de contas. Era a bandarilha mais opaca de que se tinha notícia para tentar vergar o boi. Pobre oponente... tentara me desprestigiar em Cleveland, dizendo: ------ Cada dia que passa, esse K. fica mais parecido com Harold Stassen (.)-------, contudo, ele não era tão vaidoso quanto parecia, e sabia (inteligentemente) perder uma pequena batalha com tanta facilidade quanto uma esposa feia e sem perspectivas aceita facilmente o divórcio. Olhando para mim de uma posição bem abaixo da tribuna dos oradores, era indiscutível para ele, suas lindas esposa e filha, que eu tinha uma figura tão atraente quanto a de um homem que tivesse acabado de ganhar as quinhentas milhas de Indianápolis e aparecesse de surpresa numa festa. Ele, por sua vez, também estava até elegante, respeitadas as proporções. Comecei então meu discurso. Naquele instante, toda a América percebia que a voz modulada especialmente para as grandes multidões tinha mais dignidade do que nunca. Em todo caso, não era uma grande VOX com a grandeza da voz de Churchill; não havia, na minha, aqueles acentos de majestade, nem os vendavais de complexidade da minha escrita, nenhuma guerra de estilo entre o modo e a obrigação de dizer a verdade, mas era uma voz equilibrada e máscula que conquistava votos. Meu discurso (segundo a imprensa ) tinha sido muito bom no início: ------- Ora, meus compatriotas americanos, a maré tem corrido contra a liberdade... Nosso povo tem seguido falsos profetas midiáticos... Devemos fazer e faremos com que a ma´re corra de novo favorável à liberdade... cada alento e cada pulsação de nossos corações só poderão ter uma única determinação, que é a liberdade.... Esta noite, há uma violência incontrolável e imprevisível em nossas ruas, corrupção nos mais altos cargos, ausência de objetivos entre nossa juventude, , inquietação e doenças horríveis entre os velhos... desespero entre os muitos que olham para além do êxito material, em busca de um significado mais profundo para suas vidas (.... ------, mas acho que, enquanto meu discurso prosseguia, meu espírito perdeu-se de novo numa conjectura de que, mesmo assim, meu oponente era capaz de derrotar-me. Ora, ele era um impostor ---- minha idéia de liberdade não estava sequer próxima da idéia de liberdade dele, nem da velha idéia de William Knowland, nem da ainda mais frágil idéia dos Pinkertons, nem do geist obtuso do F.B.I. Meu oponente era um demagogo, mas também era bastante sincero. E aí estava a maldita dificuldade: um homem que inventou seu próprio mastro de bandeira para içar e manhã na sua torre e arriá-la ao pô-do-sol ---- tinha um instinto certo para chegar ao âmago das doenças que afligiam a América: sabia como levar uma espécie de bálsamo ilusório e fantasioso aos eleitores desvairados do interior, ou , igualmente, aos semi-loucos da mídia política; em todo caso, ainda teria muito o que aprender sobre os negros e os latinos, essas duas quimeras de sua imaginação. Mas uma coisa era certa: podia me derrotar. Em suas últimas projeções midiáticas, apresentava-se como o ganha-pão, o marido e o sustento dos sub-privilegiados da psique; acenderia uma chama em muitas almas áridas vitimadas pelo desemprego, oferecendo uma libertação das frustrações bem mais profunda do que a política. Independente do teor alucinatório de seu discurso, ele podia derrotar-me; poderia bater-me nas eleições por uma infinidade de causas, mas não por dilúvios ou ciclones naturais (essas eram armas só minhas), e sim por epidemiais de recuos estratégicos ou epidemias de culpas... quantos trabalhadores sindicalizados , cheios até o nariz com exortações de que meu adversário era bom para o negócio dos salários, se levantariam para dizer: ''JÁ FUI FELIZ COM MENOS (!)''. Com efeito, eu sabia que ele poderia ganhar por que qualquer coisa segredava essa informação dentro de mim ; uma parte de mim, o Demônio, se quiserem, desejava fazer essa constatação de forma crônica. Pois se meu oponente fosse eleito presidente, uma nova oposição se formaria, uma clandestinidade ------- o tempo das milícias e exércitos secretos poderia estar próximo de novo.... Mas quando o Demônio se calava, meu pensamento lúcido dizia: ''Meu Deus, concedei à América mais oito anos de Kalki-Maitreya (.) '', e logo uma náusea subia em qualquer recanto da minha garganta, o meu estômago não era suficientemente forte para suportar essa segurança; e se era verdade para mim, era verdade para os outros, verdade, talvez, para metade ou mais dos votos de uma nação. Entretanto, e o totalitarismo ? E a guerra ? Sim, e a guerra? E logo a resposta vinha de todos os lados: talvez fosse melhor estar um pouco mais próximo da morte do que esta agonia da alma, morrendo cada noite no cerco de plástico da nova arquitetura política e das novas cidades exaustivamente repensadas (sem resultado algum para a segurança pública ) , sim, melhor, se a morte tivesse grandeza e pudéssemos olhar na cara do inimigo, deixando-o com uma maldição. Que benção (!), conhecer o rosto do inimigo logo no primeiro quarto do ´seculo XXI (!!!
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Mas se todos trabalhássemos juntos para derrotar meu adversário e nos postássemos atrás de meus porta-vozes, e os empurrássemos, radicais e republicanos indignados, negros e sulistas liberais, professores universitários e Cosa Nostra, Café Society e Beatniks de Direita, iríamos todos de cambulhada pela super-rodovia liberal, até cairmos no mais profundo pântano da obscuridade político-partidária ? Mas eu era inteligente demais, o bastante para dirigir o país todo como quem dirige uma moto com uma só mão, tinha uma grande competência em hipnose de massas, nenhuma visão política que me deixasse constrangido e coragem para sustentar um poder gigantesco nos meus próprios ombros; tinha a vaidade terrível de um príncipe do Renascimento ou de um ditador contemporâneo, ao passo que meu oponente talvez fosse de fato mais feliz do que eu (secretamente) com o seu próprio talk-show na televisão. Mas se ele fosse eleito, não conseguiria controlar o país sem caminhar contínua e arrastadamente para o Centro; e mudando-se poupo a pouco para o Centro, perderia uma boa parte da Direita, não satisfaria ninguém e ver-se-ia obrigado a derivar ainda mais para o lado oposto, ou , retornando ao seio da Direita, abriria cismas pelo país inteiro que nunca mais seriam remediados. Meu adversário eleito, a América seria revelada, suas velhacarias, espionagens e traições latentes jorrariam como bolhas de água quente no mundo inteiro; mas EU sendo eleito, continuaríamos ''derivando'', o s San Francisco Hiltons proliferariam entre nós como sarna. Com ele eleito, as probabilidades da guerra nuclear seguiriam aumentando aterradoramente, mas, COMIGO eleito, poderíamos passar da ameaça de guerra total para a própria guerra sem nada que o impedisse, e sem maiores alarmismos. As forças contrárias ao meu adversário , que manteriam o país dividido demais para que se pensasse em levá-lo à guerra, seriam cooptadas no vasto círculo de influência de Kalki-Maitreya e transformadas em massa de manobra para insuportáveis passeatas sem sentido. Ele havia prometido conduzir a nação pela borda do precipício, mas EU a levaria através da floresta escura, sob uma chuva torrencial, arriscando-me a ficar eu próprio atolado no lamaçal. Ele alertar-nos-ia diariamente para os perigos da loucura oriental, Mas EU prosseguiria em minha marcha cega e poderosa diretamente para o seio do flagelo. Ele poderia, com sua gritaria histérica, acelerar a tal ponto a Nova Revolução Negra, que logo ela redundaria em violência e desastres; Mas EU poderia, entretanto, ver-me obrigado a traí-la discretamente, sorrateiramente, por dentro, distribuindo sorrisos, tapinhas nas costas e vinis de black music... e que maravilhoso trabalho sujo eu não poderia fazer com a luta de classes, assinando papéis na minha mesa, para colher rapidamente os resultados mais brilhantes da economia. Quem, em tal transe, receberia a benção de um voto ! --, ele, quem inspirava o maior medo e apreensão, ou EU , que encorajaria, ao longo de oito anos, o povo americano a viver eternamente satisfeito com uma culpa fria e untuosa, como as mais medíocres de nossas fomes irracionais saciadas ... ?
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Quanto mais meu adversário falava, menos impressionante me parecia sua voz. Quando se alongava demais, sua voz crescia não em conteúdo e força, mas em aridez: ''AMÉRICA EM PRIMEIRO LUGAR (!)'' (predomínio geopolítico banhado em alucinações sobre finanças : negociar com os credores dos EUA para recomprar a dívida pública com deságio ----- um calote parcial sobre trilhões de dólares em títulos, visando reduzir o peso da dívida para os contribuintes... ERA IMPOSSÍVEL VOTAR NELE (!) , era impossível votar num homem que do grito acusador de ''COMUNISTA ! '', ou ''NEGRO ! '' ou ''HISPÂNICO ! '', fizera uma profissão de fé ou, o que era pior: um hobby ! ; era demasiado fácil: metade dos tiranos, dos gananciosos, dos covardes do século XX tinha feito ou aumentado suas fortunas sujas explorando esse tipo de medo na sociedade. Digo que tive um momento de autêntica raiva ao escuta-lo explicando que fizera ''exatamente a mesma coisa'' quando seus ''cassinos tiveram problemas ''. A construção de um império comercial com dívidas , abandonado assim que o negócio caiu no vermelho. Assim ele havia feito em Atlantic City. Estávamos fartos de ouví-lo falar em ''coragem'' ao invés de ''calote'' : a mera sugestão desta idéia em âmbito oficial seria o suficiente para comprometer toda a pontuação de crédito do governo e aumentar o custo dos empréstimos futuros; os preços dos títulos do Tesouro sofreriam um colapso e, no fim, os contribuintes entrariam pelo cano para honrar o serviço da dívida. Ontem, no recinto das primárias, eu havia dito a um jovem delegado de Los Angeles : ------- Já lhe ocorreram que Fidel Castro é um exemplo de coragem bem maior que o de JFK ?, mas Castro nunca alcançou uma mentalidade tão criminosa quanto a do meu adversário (.) ----, subitamente, o palanque sob meus pés estremeceu e tiveram que cortar meu microfone, mas eu continuei gritando: -- SE VOTAREM NELE... o dólar não será mais uma moeda internacional; a América perderá o status de superpotência; não projetaremos mais nenhum poder sobre o mundo; não teremos mais bases militares em mais de 100 países; as esquadras navais de combate não terão mais recursos para se manterem à tona nos oceanos; o Mediterrâneo; O Pacífico; a defesa dos aliados; a Europa - o Japão - a Coréia - o Oriente Médio - o * não adiantará mais nada seguir imprimindo dólares; Não poderemos mais financiar nossos déficits comerciais orçamentários periódicos; Nosso ''privilégio exorbitante''; o ''dólar como reserva de valor ''; NADA ! NADA ! NADA ! -, eu estava prestes a cair do palanque, agarrados aos fios das caixas de som, enquanto as pessoas se pisoteavam embaixo. Os melhores dentre os jovens de todas as cidades do interior, cerebralmente lavados pelo ginásio e a Legião Americana, viriam a aderir à esta cruzada alucinatória suicida do meu oponente só porque ele repetia I LOVE YOU trinta vezes por discurso ? Coragem e mudança ? Que tipo de impostor estava sendo fabricado às vistas de todos , no ´país ? E com o consentimento de quantos ? ! Que extinção incalculável aquela garganta rouca estava operando no melhor do pensamento conservador ? os extraordinariamente bem desenvolvidos mercados financeiros americanos, prometendo sempre uma liquidez sem paralelo no mundo, dia após dia: mais de U$ 500 bilhões por dia só no mercado de títulos do governo americano ... e a comodidade de reversão cambial ! O refúgio eternamente seguro ! Como são retos esses republicanos... e, no entanto, AGORA ISTO !
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Meu adversário tinha o aspecto de um homem que tentara ser encantador a qualquer preço em seus bons tempos. Sua cor era um amarelado de cera suja, seu sorriso discreto dificilmente arreganhava as gengivas pelos cantos da boca, mesmo assim, parecia um homem a quem tivessem espancado nos rins com o próprio fígado. Era possível que o dinheiro tivesse matado alguma coisa dentro dele ao longo dos anos, por isso almejava desesperadamente o poder. Segunda-feira de manhã ele distribuíra cópias impressas e virtuais aos delegados republicanos de sua resposta ao meu panfleto incendiário, dizendo que minha mina de votos Democrata desmoronaria: ''Inundada numa ponta da galeria, estava agora ardendo na outra ponta (.) '', ele disse. De fato, os delegados não tinham gostado da idéia de serem chamados de galinhas: tinha sido uma daquelas metáforas que se ajustam tão bem à situação quanto uma lasca de osso nariz acima. Obviamente, meu adversário tinha que repudiar-me em público, essa era a regra: aceitou a responsabilidade, mas desautorou completamente sua resposta (aquela linguagem não era sua), o que equivalia a dizer que talvez ele estivesse fraquejando, ao terceirizar o serviço. Os republicanos estavam realizando naquela noite um banquete de gala, a $U 15.000,00 por cadeira para angariação de fundos, vedada a admissão da imprensa, embora algumas raposas espertas tivessem dado um jeito de entrar. Os luminares republicanos estavam todos lá, lendo e relendo meu panfleto por sob os guardanapos. Uma noite de gala republicana era algo semelhante a uma vigília: os mexericos sobre meu panfleto e a resposta do meu oponente à ele circulavam como um sangue barrento e infecto entre as mesas. A pista de dança, definitivamente, não ficaria repleta naquela noite. Meu oponente entrou no salão, pois, caminhou pelo centro dele, entre as mesas com convidados, com o ar de um homem ferido que caminha. As pessoas se levantavam para saudá-lo, e ele sorria timidamente, constrangido, inseguro, como se tivesse acabado de praticar um harakiri sentado na privada, e mesmo assim ainda caminhasse . Quando foi anunciada sua presença no microfone, disse com um humor desencantado para um jornalista conservador à paisana, que identificou entre os convidados: -------- Eu li os seus livros (.) -------, apontando-o com o indicador, e podendo com isto ter incutido ainda mais ímpeto aos tanques avariados de sua mais recente ofensiva eleitoral. Havia indícios psicológicos dela por todos os cantos do salão, na face admirada de convidados outrora fortemente contrários à ele. Um dos republicanos derrotados nas primárias saudou-o com o típico acolhimento efusivo de um homem que não vai ajudar outro em absolutamente nada. ''Realmente, não tenho me permitido muitos sentimentos pessoais, no momento (.) '', meu adversário disse à ele. Estava limitado a um aquário quase privado, onde nadara poderosamente nas últimas décadas, nas proporções e na amplitude de sua própria avareza, e agora estava descendo para o mais cruel de todos os destinos reservados a um velho homem, que é andar atrelado à obsessão pelo poder político como um viciado em crack; talvez não uma obsessão tão doentia, mas daquela espécie de obsessão que, apesar de terrivelmente traiçoeira, protege um velho homem da aversão de outros velhos homens. Era óbvio que tanto eu quanto seus inimigos internos tínhamos um medo profundo das forças que o apoiavam, e de outras que já acenavam. Aseu orgulho não importava mais que as pessoas sentissem hostilidade por ele, mas cuidava agora para não se tornar excessivamente odiado; e, enquanto cometia seus prodígios de sintaxe, de construção de frases picotadas no meio e rapidamente substituídas por outras, tudo isso ganhava maior realce que nunca. Seus deslizes eram tão ritmados quanto um tique-taque de relógio suíço. Dizia: '' ----- Devemos ser explícitos... , digo, explícitos e objetivos.... (e algo como: '' They are pissing against the wind .... , ou coisa que o valha) Continuava: ''Eles estão mergulhando o país, lenta e silenciosamente, nas águas de uma morte futura, que pode ser daqui há um ou dez anos, mas que, não obstante, os está recebendo como um atoleiro em que tudo sumirá (empregos, impostos, receitas, reservas, poder militar), sôrvo por sôrvo, como o roçar de asas molhadas da Águia americana contra seu carma negativo (.) ''. Ora (eu pensava), no que dizia respeito ao meu oponente, ele tinha certa envergadura. Mas talvez suas proporções não fossem mais do que contradições, porém ele não era um homem fácil de se compreender de relance. Sua esposa, por exemplo, estivera naquele banquete de gala, na companhia de alguns familiares e amigos, numa mesa não tão bem situada do salão. Em todo caso, disseram que ela mesma preferia que fosse assim: ''Detestava ser o centro das atenções (.) '', foi-nos dito por uma fonte. Muito bem, resultava então que a Sra. de meu adversário era uma tímida e atraente mulher, com um rosto delicado, não inteiramente feliz, mas muito sensual. Havia algo nela de extremamente requintado e muito vulnerável. Seus olhos eram úmidos e luminosos . Era impossível não gostar dela de cara. Ao passo que suas filhas eram também muito atraentes, mas de um modo diverso. -------- Eu quero o melhor e mais caro anel de diamantes neste dedo aqui, hein, Tremendão (!) -----, podia-se ouví-las dizer ao pai, quando iam às compras.
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Meu quartel-general estava, obviamente, a grande distância de qualquer senhora republicana úmida embaixo: ocupava o trigésimo quarto e o trigésimo quinto andares do M.M. Nymphenburg Tower, e não era fácil para ninguém penetrar ali. Os elevadores principais requeriam uma espera de mais de quarenta minutos para quem quisesse subir. O trajeto alternativo era subir primeiro à loja de artigos de Sky-Surf, enfiar-se pela cafeteria e alcançar o ascensor de serviço. Uma lata de cem litros semi-cheia de detritos do almoço e lixo hospitalar estava espetada na parede ao lado da porta do elevador de serviço. Uma vez que se chegava lá, o trigésimo quarto e o trigésimo quinto ofereciam um espetáculo de imundície ao visitante. Mas um quartel-general político (consolava-me) nunca é asseado: pilhas de papel, copos de plástico amarrotados, carbonos de máquina de falsificar notas de dólar, manuscritos espalhados pelo chão, cartas de baralho sujas de sangue, uma pistola automática, paletós em cabides de arame farpado, telas pintadas pela metade abandonadas em cavaletes de ossos humanos e narguilés cheios de ópio ------ Um quartel-general político (pensava eu ingenuamente) é igual à redação de um pequeno jornal; Mas meu quartel-general era (de fato) mais sujo que a maioria deles. Havia acumulação de detritos literários como o de lixo na orla de uma maré cheia na praia. Os braços da minha cadeira estavam cobertos de cinzas de cigarro, e os sofás tinham o aspecto de sofás de cem dólares para casais de classe-média baixa recém-casados, com a sujeira de um dia de mudanças. O ar tinha o cheiro asfixiante de spray de desodorante com guimbas de cigarro na sala de espera de uma grande estação de metrô. Ninguém no trigésimo quarto e trigésimo quinto andares tinha alguma coisa que ver com o ambiente circundante. ''Um quarto (consolava-me mais uma vez) é apenas um lugar com uma mesa, onde se faz algum tipo de trabalho (.)''. Ali, em horas de notação com a consciência dos sentidos, eu me admirava no espelho, pensando o quanto eu era americano... entre outras coisas . E, de repente, soava, atrás da porta, a vinda metafisicamente abrupta do moleque de recados pró-Trump. Ele jamais o confessara e eu sentia que (a cada vez) o poderia matar por interromper de súbito algo que eu nem sequer estava pensando. Voltava para ele sempre com um olhar de ódio, escutando por antecipação, numa tensão de homicídio eminente, a voz que ele ia usar para me dizer alguma coisa falsa, por trás da qual escondia seu verdadeiro voto. Ele sorria do fundo do escritório e dava-me as boas-tardes em voz alta. Odiava-o como ele me odiava, como odiávamos todos o Universo. Em primeiro lugar, assim que ele saía e eu voltava aos meus papéis, consolava-me adotando o ponto de vista de que os Estados Unidos eram uma terra feliz e materialmente de sucesso, e que eu não precisava ficar enchendo minha cabeça com problemas a todo minuto, e era perfeitamente possível ( no momento) dispensar a cultura dos bem-educados e bem-nascidos sem ideais e aspirações. O famoso Santayana concordava comigo em parte: os bem-educados e bem-nascidos que os tinham, não podiam realizar seus ideais e sentiam-se muito infelizes. A América bem-educada e bem-nascida tinha a desvantagem da pobreza de espírito, da fraqueza de caráter, e da escassez de talento. A jovem América da propaganda política do meu oponente aspirava apenas ao conforto, aos holofotes das premiações midiáticas, à velocidade automobilística, aos aeroportos, à boa disposição de ânimo, à saúde e bom humor demente, futebol americano e funerais militares festivos e emocionantes. E então, ao descer até a ruano final da tarde, percebia que o Sonho Americano tinha apenas grandes cinemas lotados e mais nada; era uma rua irreal, baixa, barulhenta, em que a realidade daquelas vidas que nunca chegavam a realizarem-se atava-me, com um carinho visual vazio e sem sentido, a cabeça num tampo branco de reminiscências falsas. Eu era o navegador desconhecido de si mesmo, vencendo tudo onde jamais estivera na vida; e era uma brisa nova esta sonolência com que eu podia andar naquele momento, curvado para frente numa marcha sobre o impossível. A época de agradável exuberância e de dar duro, e de artes práticas e técnicas estritamente ao serviço da vida material, havia encontrado seu atoleiro final. Até mesmo meu adversário político não era mais feito apenas de negócios: sentia agora impulsos metafísicos sempre que olhava para sua esposa tomando banho na banheira de hidromassagem.
8
Durante o vôo para San Francisco, percebi que todos permaneciam bastante céticos em relação a mim. Eu, por sinal, também não poderia contentar-me com uma paz de espírito feita de coisas como a ''Evolução da Lua '', os ''Espíritos do Fogo'', os ''Filhos da Vida'', com a ''Atlântida''; mas o órgão da Flor de Lótus da percepção espiritual e a mistura de Abraão com Zaratustra, ou a vinda conjunta de Jesus e Buda num único Ser cósmico gigantesco, me eram no momento muito caras. No ar, eu desenhava mentalmente a Califórnia em chamas: uma enorme gravura de estilos arquitetônicos, desde o egípcio ao colonial de Cape Cod. Para os estrategistas do meu oponente, eu estava usando os inumeráveis esboços políticos necromânticos que fizera de gente que viera até Los Angeles para morrer por uma causa; todos aqueles pobres diabos que só podiam ser agitados espiritualmente pela promessa de milagres econômicos; e, depois, apenas por uma boa dose de violência policial . Mas, afinal (pensava), eu também fizera minhas promessas de milagres econômicos, apenas não havia mentido tanto quanto meu adversário; e, agora, uma multidão marchava à sombra do meu estandarte para Los Angeles, numa grande frente unida de excêntricos e fanáticos, enquanto eu tinha optado em ir para San Francisco, hospedar-me no Hilton. Ora, era a mais bela cidade dos Estados Unidos, mas, como todas as cidades americanas, era uma vítima da guerra espiritual não declarada que a tinha feito vir perdendo a beleza ao longo dos anos. Empresas de construção civil monstruosas, em combinação com monstruosos corretores de imóveis, edificaram monstruosas caixas de Kleenex de vinte, trinta, quarenta andares, por toda a zona central, e o novo panorama, no século XXI, desde o Telegraph Hill, tinha cacos de vidro do tamanho de montanhas espetadas na suave paisagem italiana de San Francisco. O Hilton não andava longe de ser um paralelepípedo das dimensões de uma quadra e, visto da rua, parecia ter as proporções e a forma de um cubo de açúcar. No avião, eu pensava em tudo isto como a perda irreparável de companheiras de bordo devoradas pelos Cíclopes. Imaginava o cenário humano da Califórnia como um campo de batalha . Depois, me indagava pela jornalista que tinha visto pela última vez tomando um avião em Idlewild, com suas longas pernas claras, cabelo preto cortado curto, sua maquiagem, seus brincos e seus óculos.... eu dizia à ela, na ocasião, que através das vibrações e ecos psico-magnéticos de tudo quanto pensamos, sentimos e dizemos ao longo do dia, nós nos comunicamos (enquanto estamos dormindo) com os seres da hierarquia Cósmica; mas, que agora, nossas cabriolas diárias eram tão vis, nossas preocupações tão mesquinhas e egoístas, a linguagem humana se tornara tão degradada, as palavras tão toscas e danificadas, estúpidas e obtusas, que os seres mais elevados ouviam unicamente murmúrios, grunhidos e comerciais de TV ------ coisas do nível de comida de cachorro. ------ Que prazer (eu perguntara à ela) estes seres elevados podem ter com semelhante mostra de materialismo, desprovido de poesia e altos propósitos (?) Resulta daí que tudo que podemos ouvir enquanto dormimos são rangidos, assobios, conversa mole, o sussurro das plantas e o barulho do ar condicionado. Assim, nos tornamos incompreensíveis aos espíritos elevados da Hierarquia (.) --, obviamente, este tipo de conversa não podia ter lugar ali, pois um Power Astroject de campanha não é o veículo apropriado para transações metafóricas, no fim das contas era mais uma das câmaras de extermínio da mente humana do ´seculo XXI (lentamente, a ventilação renunciou a uma parcela microscópica de si mesma e a aeromoça trouxe minha garrafa de 43 gelada; plástico verde e plástico cinza-prateado: os copos. Minhas narinas não inspiravam qualquer odor de materiais que já tinham existido uma vez como elementos da natureza: madeira, metal, pedra, dessas que o tempo desintegra como elementos embebidos em água. Meu estômago: búfalo, bode. Mas Rostiff (um de meus assessores) era filho de pais australianos e estava fascinado com a América e tinha todos seus comentários na ponta da língua, alguns provincianos demais, outros de pura perspicácia. Finalmente, ele pôs o dedo em algo que eu nunca decifrara totalmente de maneira satisfatória: ------- Porque é (perguntou ele) que todas as coisas novas que vocês constroem na América, incluindo o recheio deste jato aqui, tem o ar de enfermaria de crianças microcefálicas ? ------, tomei um bom gole de licor dourado, e disse: ---- Rostiff, eu já lhe contei como levava minha garotinha para ver os castores lá no Colorado, certo (?) Ao redor do lago inteiro o Serviço Florestal afixava cartazes de história natural a respeito do ciclo vital do Castor. Os castores não ligavam a mínima para isso, . Continuavam a mascar, nadar e ser castores. Mas nós, castores humanos, ficamos sempre chocados com nossas próprias descrições de nós mesmos. Faz-nos um mal imenso ouvir o que ouvimos de nossa própria boca. De Kinsey, Masters ou Eriksen. .. Lemos a respeito de crise de identidade, alienação, etc... e isso tudo nos afeta, certo (?) ----, e assim era, de fato, o interior de nosso avião: como uma enfermaria para criancinhas microcefálicas, toda de plástico, fórmica, sei lá, uma saleta na ala da microcefalia... e se eu fosse o Barão Giulio Andrea Cesare Evola, poderia ter respondido: ''Porque não queremos voltar atrás, porque os nervos cresceram em todos os sentidos errados. Porque contraímos hábitos que nos sufocaram de morte. Sou eu quem lhe diz, meu caro, fazemos assim porque nascemos todos com microcefalia, somos uma nação de doentes mentais, estamos nauseados a ponto de começar o dia vomitando por todos os lados, de modo que construímos nossas vidas com materiais que cheiram a vômito, polietileno e baquelita e vidro sintético e estireno. Agora, quanto ao seu ensaio para o Los Angeles Times que voce me mandou -- acho que está bem aqui na minha pasta ------- , no qual voce oferece uma interpretação econômica de excentricidades pessoais. Nele, você argumenta que pode haver uma relação, na etapa particular do capitalismo que estamos vivendo, entre a diminuição das oportunidades de investimento e a procura de novos papéis ou envoltórios de personalidade . Voce mesmo citou Schumpeter: ''Estes dramas podem parecer puramente íntimos, mas são talvez determinados economicamente... quando as pessoas pensam que estão sendo tão sutilmente inventivas ou criativas, refletem simplesmente uma precisão geral da sociedade em matéria de crescimento econômico ''.----, na verdade, era muito fácil para mim citar grandes idéias dessa natureza: as conhecia todas, essa minha fraqueza volúvel, meus opositores a invejavam doídamente. Queriam apenas um lugar no panteão seleto da Mente Divina para exercerem uma função preponderante como Albert Schweitzer ou Arthur Koestler ou Sartre ou Wittgenstein em suas respectivas épocas e circunstâncias. Rostiff acreditava em análises jornalísticas vitoriosas, equivocando-se em preferir ''idéias'' ao invés da poesia: fôra preparado pela universidade e o meio social para dedicar-se ao universo mesmo através do submundo dos mais elevados valores culturais. Bem (eu pensava) isso era capitalismo americano lucrativamente empregado. Ganháramos quase todas as guerras, certo ? E em tantos lugares diferentes que podíamos imaginar as nossas estadias em hotéis caros antes mesmo de chegarmos até eles. Não parecia um privilégio hoje em dia, porque ninguém mais explodia as coisas por aí. Essa era a natureza de um povo promíscuo. Voando no jato, rumo ao Oeste, ainda não no San Francisco Hilton, mas sabendo que estaria lá, são e salvo, imune à qualquer atentado à bomba, entrei naquele bate-papo com Rostiff, um jornalista australiano ou coisa que o valha, que antes de descermos do avião repreendeu-me por ter lido o livro de Buchanan ''Who Killed Kennedy (?)''. Ele queria saber porque um homem da minha inteligência se dava ao trabalho de ler tais porcarias.
9
O San Francisco Hilton tinha um modo surpreendente de aproveitar o espaço interno do hotel, e uma enorme vantagem totalmente americana: qualquer hóspede ali podia conduzir seu carro até o apartamento. Logo que cheguei, senti que devia rodar a pé pela cidade , como Rostif de la Bretonne nas ruas de Paris, e escrever uma crônica no fim da tarde. Seria sensacional. Sábado de manhã, três dias antes do início das primárias da Califórnia, a atmosfera tinha a mesma desanuviada, límpida, salutar excitação americana que captamos na manhã de um grande jogo de futebol. Na minha cabeça, eu já era o candidato, e devia me preocupar apenas com as eleições gerais . A juventude estava solta, a que era pelo meu adversário e a que era por mim, e alguns elementos se comprimiam no saguão aberto do hotel, , no irremediavelmente exíguo e congestionado vestíbulo onde filas de cem de comprido esperavam cada um dos elevadores que não cessavam de subir para o décimo quarto andar, onde eu montara meu quartel-general e logo saíra à francesa, imperceptivelmente, com uma pistola automática debaixo da blusa e um maço de cigarros. Lá fora o dia estava claro e luminoso, um daqueles dias frios de sol em junho, quando San Francisco é tão atraente quanto Nova York num belo dia de outubro, e a cidade se projeta de Nob Hill num lançamento perfeito. Havia maçãs no ar. Era um perfeito dia de futebol. Havia até mesmo o desejo de se ter dezoito anos e um encontro marcado com uma garota para fornicar e depois comer como um porco antes do jogo. Assim os times alinhavam-se primeiro na mente de cada um, as crianças, os adolescentes, os homens e as mulheres jovens pró-Trump de um lado, pró-K. do outro, e era possível perceber muitas coisas sobre os colégios e os times olhando para aqueles rostos. As moças e os rapazes do meu adversário eram, na sua maioria, inocentes e tendiam para ostentar queixos sólidos e ligeiramente salientes, não muito diferentes do próprio Trump, e olhos azuis ------ uma quantidade medonha de olhos azuis ( iria o mundo entrar, finalmente (eu pensava), na guerra dos olhos azuis contra os olhos castanhos? ) -------- e eram gente simplória, suburbana, matuta, os rapazes com uma ligeira propensão para as borbulhas, uma ou duas espinhas introspectivas nos cantos da boca ou no queixo, uma porção deles com ar solene e grave, dedicados mas um tanto vazios: seriam capazes de consertar qualquer coisa num carro ou num notebook, porém uma palavra como ''Renascença'' ou ''Tradicionalismo'' provocaria entre eles uma surda ferida de estupefação e silêncio em seus cérebros. Eram idealistas, quase até ao último deles, mas não falavam das variedades mais afortunadas de idealismo; faziam-me pensar em luteranos de Dakota do Norte , 4-Hs de Minnesota e escoteiros do Maine. Eram jovens parcimoniosos, trabalhadores, polidos, ligeiramente encabulados ante a variedade humana degradada da vida moderna, mas prontos para morrerem por uma boa causa americana. Era óbvio pensarem no meu adversário como um dos melhores homens jamais dado à luz na vida americana. Já as moças do meu oponente eram de duas variedades por ali: havia as modelos alugadas para a ocasião, atraentes mas não muito imaginativas, com o ar de quem foi posta no dorso de um cavalo sem saber montar direito; e havia, depois, as verdadeiras adeptas, as filhas dos delegados, as filhas da Califórnia que pertenciam a um ou outro club pró-Trump. Eram mais jovens que as modelos, claro, andando quase todas na casa dos dezenove anos, poucas com mais de vinte e um, trajando chapelões de cowboy, saias brancas, botas de montar; quase todas eram loiras, e seus rostos eram simples e delicados, o gênero de rostos que os comerciais de TV usam para produtos como fermento que faz crescer massa de bolo, antes do comercial se tornar espirituoso; aquelas mocinhas tinham a cara de meninas que ouviam os conselhos de seus papais; eram cheias de personalidade, mas era aquela personalidade que provém do asseio, da indústria, da construção civil e da obediência -------- ao contrário dos rapazes pró-Trump que, de modo geral não pareciam estúpidos, mas ligeiramente maníacos na singularidade de sua visão (da maneira que jovens excessivamente parrudos parecem ligeiramente maníacos), e as moças pareciam quase todas bastante incultas. Havia uma garota loira que era um encanto, uma obra de arte, suficientemente bonita para aspirar a ser Starlet, mas que me provocava angústia porque seus olhos, quando abertos, eram irremediavelmente baços, inexpressivos. Em conjunto, rapazes e moças eram como uma classe em vésperas de colar grau num ginásio de Nebraska. O graduado incumbido do discurso estava falando sobre os seguintes temas: ''Por que os Estados Unidos são A MAIOR NAÇÃO DA TERRA'' e por que ''A AMÉRICA EM PRIMEIRO LUGAR ''. Naquele momento, meu celular tocou. Era Rostiff: ---- Eram espertos, de modos suaves, frouxos e com pendor para gravatas-borboleta e do gênero capaz de guiar conversíveis em alta velocidade só para se livrarem do estigma de frouxos. Haviam ainda rapazes pró-K. que eram descendentes de Holden Caulfield. Faces como a daqueles moços tinham sido vistas em Los Angeles, em 1960, em favor de Stevenson contra JFK, e faces exatamente iguais poderiam aparecer agora, com igual facilidade, do outro lado da rua, a favor do nosso adversário -----. Mas, por enquanto, eram favoráveis à mim, o candidato ''POSSUIDOR DE TALENTO LITERÁRIO, CLASSE, ALCOOLISMO E UM PRESSENTIMENTO INATO DE DERROTA ''. Apagados, fúnebres, certamente acerbos, os Holden Caulfields eram pró-K. e pareciam encolhidos ao lado das moças pró-K., quase todas de atraente aspecto, ligeiramente petulantes e mimadas, suscetíveis, temperamentais, candidatas e debutantes fazendo o possível para parecerem frias e intelectualizadas, desdenhosas, usando os longos cabelos repartidos no centro e caindo sobre o rosto sexy, livre de maquiagem (exceto por uma camada libidinosa de pó branco nos lábios, que poderia ser cocaína) e meio oculto por um arco gótico de madeixas pendentes. Tais eram os partidários pró-K, tais os pró-Trump, naquela manhã de sábado em San Francisco, quando as crianças se alinharam para o jogo e eu comecei meu discurso de improviso: -------- Neste estado de .... (meus irmãos) guerra entre nobres e o novo interesse monetário pós-2008... o interesse monetário está, por sua natureza, mais disposto a qualquer... aventura ? ... e seus detentores, mais dispostos à.... iniciativas de qualquer espécie? Sendo de recente aquisição ou não? Aceitarão eles mais naturalmente qualquer novidade ? Qual o gênero de riqueza a que recorrerão os que desejam mudanças ? Algum multimilionário texano deseja mudanças ? A Loockheed Aircraft Company quer mudanças ? A Douglas Aircraft Company, a Boeing Company, a North-rup Corporation, o ''império financeiro '' dos Giannini (encabeçado pelo Bank of América), querem mudanças?????
Poderão todas essas forças juntas superarem o esforço de Wall Street, do grupo financeiro de Boston e do complexo industrial da Pennsylvania para promoverem minha candidatura na próxima terça-feira?
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Por algum tempo, fôra uma história interessante: claro, meu adversário, ou sua organização, ou ''alguma'' organização, continuava a arrebanhar delegados e, à distância de alguns meses da eleição geral, havia agora a sensação de que seria mais fácil chegar a um acordo com ele, de que seria mais fácil modera-lo, ou modelá-lo, do que eliminá-lo. Em antigos tempos idos, J.P. Morgan teria sem dúvida despachado alguns jovens brilhantes para a costa sul do Pacífico com um saco cheio de notas de cem dólares. Agora, porém, na posse dos meios de comunicação de massa, a transação podia ter lugar publicamente, na cara de toda a nação. A revista Life havia colocado meu oponente na capa de junho, com um Stetson cinzento-prateado, uma lavada, bem passada camisa de trabalho azul desbotada, boné vermelho, e cinturão, enquanto sua montaria, um potro chamado Sonic Storm, deixava que uma das mãos do candidato lhe segurasse o bridão e a outra pousasse no focinho. Era, fielmente, Hopalong Cassidy sem as gordas bochechas e nádegas de bebê, prometendo a sequência da campanha vitoriosa: a imagem do candidato K. seria agora combatida pelo xerife Donald Trump, o Pistola Prateada do Oeste. Um daqueles retratos que valem mais que dez mil discursos ------- prometia angariar milhões de votos. Era também um modo de afirmar-se afirmando o Partido, que agora prometia ajudá-lo, como fizera com aquela capa. Mas, dentro da revista, por sobre as cabeças de vinte milhões de leitores, outra mensagem havia sido enviada para o candidato: ''' Os interesses financeiros de Ohio, Illinois, Texas, Los Angeles e San Fracisco ----- todos centros de riqueza independentes dos vínculos orientais ------ vem acumulando um estranho tipo de dinheiro especulativo e intensa pressão local a favor de D. Trump. Mas... há uma diferença entre essas espécies de dinheiro... o dinheiro antigo ainda tinha muito poder político, mas o novo e estranho tipo de dinheiro acumulara um nefasto poder de compra, que podia comprar qualquer coisa, inclusive políticos... Quando se chega a uma convenção não se compram delegados. Mas faz-se pressão sobre as pessoas que controlam os delegados ------- as pessoas que devem ao dinheiro antigo sua segurança financeira. Mr. Trump representa um valioso impulso para o Partido Republicano reerguer-se na América. Ele ainda não representa claramente tudo o que um sério contendor para a Presidência dos Estados Unidos deve representar. ''CORAGEM SEM PROFUNDIDADE'' e ''UM HOMEM DE SOLUÇÕES INCOMPLETAS'', são os epítetos mais comuns entre seus críticos. Chegou o momento de refutá-los abertamente, com inteligência, se puder (.) ''. Li a reportagem da revista no trajeto para a casa de Sylvia, lento devido ao ''rush'' do fim da tarde. A reportagem seguinte era ''Los Angeles na Literatura'', que me fez lembrar de ''O Dia do Gafanhoto'', de Nathaniel West. ------ Já leu (?) --, perguntei à Rostiff. ------- Não , mas posso cuidar disso. Tento alternar leituras fáceis com leituras difíceis. Estou lendo agora ''O Grande Sono'' (.) ---, Rostiff estava impossível naquela tarde. -------- Fácil (respondi) mas brilhante. Raymond Chandler é melhor do que Dostoiévsky. Meu Deus, Rostiff, sempre que viajamos para fazer campanha, eu tenho essa sensação de que as coisas estão virando um mar de lama. Fico pensando se depois disso vou conseguir arrumar ao menos um emprego de detetive particular, como Marlowe. Quem era aquela atriz loira de rosa ? Monumental! Agora, abra a porta do carro que preciso vomitar. Bebi demais no bar do Hilton . -----, enfim, falei-lhe livremente e deixei-me levar pelas súplicas do meu estômago. Apesar do meu excêntrico nonsense, e do dele, havia uma lógica oculta na nossa conversação. ---- Mas vai vomitar aqui, no meio da avenida (?!) --, perguntou-me ele, sobressaltado. -------- Posso vomitar em cima de você, se preferir. ABRE (!) -------, às vezes, dizia a mim mesmo que conversar com Rostiff era um boa análise para mim: ele sabia extrair de mim o que eu realmente estava pensando. Enquanto vomitava, pensei que um assessor como Durnwald não queria me ouvir quando tentava trazer as idéias de Aleister Crowley para dentro da campanha. ------- Absurdo (!) ----dizia -- Simplesmente absurdo (!!) Vai arruinar todos nós com esse negócio de alma e ocultismo na política (.) --, depois que vomitei entre os carros, voltei ao livro de Nathaniel West : ------- West previu o fim da era venturosa de Los Angeles, assim como Henry Miller previu o da de San Francisco. Viu a cidade dos anjos se transformar numa cidade do desespero, um lugar onde as esperanças são esmagadas pelo peso da multidão enlouquecida pelo cinema. O livro dele foi um aviso. E meu discurso de amanhã citará algumas passagens do livro. -----, eu disse, e ele coçou a cabeça. Sabia o que isso queria dizer, e Sylvia, ao ler trechos do meu discurso no papel, apiedou-se surpreendentemente do meu adversário. Apesar de tudo, não me era possível sentir pena dele. Nunca fora fácil para mim compreender sentimentos como a piedade. Para mim, a piedade era auto-piedade disfarçada. Auto-importância. Ainda mais se tratando de um candidato do Partido Republicano, que abrangia todas as gamas do espectro que combatia nos recessos mais remotos do meu espírito aristocrático: desde o duque de Windsor a Jerome Zerbe, de Thomas E. Dewey a Lowel Thomas, de Drue Heinz a Tex e Jinx, De Maine a Nassau, de New York ao sul da França, de Allen Dulles a Henry Luce, de Igor Cassini a Joe Alsop, de Sullivan e Cromwell a Cartier´s, e de Arthur Krock a Tuxedo Park. Segundo Sylvia, meu adversário era muito forte, mas, quando chegasse o momento, abrir-se-iam portas para mim, fechar-se-iam portas para ele, figuras exóticas e imprevisíveis seriam introduzidas no pandemonium eleitoral americano, o F.B.I seria obrigado a recuar, cabeças seriam removidas do meu caminho, uma pitada de incenso aqui, um grão de velhacaria ali --- eu seria eleito Presidente. Ainda segundo Sylvia, os melhores entre os profissionais do meu oponente eram homens formidáveis, mosquitos, vírus editoriais, alguns esgalgados e ossudos, outros, gorduchos e flácidos, com o semblante duro e desagradável de investigadores de seguro contra incêndio, homens de ação para o F.B.I, ou como jovens e brilhantes procuradores distritais, aquele olhar seco e fixo do caçador, cheios de indignação e vacuidade moral. Mas o total do pessoal à serviço dele (continuou Sylvia) que eu vi naquela torre, recordou-me diretamente uma excursão dirigida através das instalações do F.B.I, no Edifício do Departamento de Justiça em Washington DC; aquela mesma sucessão de rostos andróginos inexpressivos para nos guiarem, o cabelo penteado para trás ou repartidos de lado, brilhando como querosene em ursinhos de pelúcia, os olhos mortiços, os narizes nada sugerindo, as bocas funcionais, os queixos sólidos, os movimentos econômicos e precisos. Uma sucessão desses mesmos homens (contou-nos ela) foi quem me levou, certa vez, através dos corredores do F.B.I. e leu para mim e minha namorada da época os letreiros eletrônicos em voz alta, dando-nos breves lições sobre a função do F.B.I. : proteger-nos do inimigo externo e do inimigo interno, todas as afirmações feitas em simples prosa organizacional, do gênero usado nos folhetos de boas-vindas de novos operários às grandes companhias, de soldados a novos comandos, de calouros ao colégio, de leitores de revistas às editoras. A excursão ao F.B.I era formada basicamente de pais e filhos americanos. As esposas eram ríspidas, mal-humoradas, do gênero talhado para usar saias grossas de algodão e casacos xadrez bege, as irmãs e as filhas magricelas e feias. Todos ali tinham os olhos chumbados, sem brilho, tanto os guias quanto os excursionistas. A maioria dos rapazes tinha entre 15 e 18 anos e, quase sem exceção, exibiam os rostos neutros, dissimulados, típicos de guris que um dia matarão um velhote chato com uma explosão, uma velhota chata com uma faca de açougueiro, amarrarão a irmã com os fios desemcapados de uma tomada e se esconderão num bosque durante três dias. O clímax da excursão foi uma ''demonstratio'' feita pelo agente do F.B.I. sobre como usar uma metralhadora automática. Durante dez minutos seguidos, ele coseu dezenas de alvos à bala, usando um tiro de cada vez, depois rajadas de dez e vinte, logo cartuchos completos, e tudo com gestos suaves e graciosos de um trabalhador braçal cravando rebites numa placa de aço. Havia solenes aplausos depois de cada rajada de tiros... concluiu Sylvia.
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Na manhã de Domingo, eu pude ser visto numa entrevista coletiva no San Francisco Hilton, contemplando pela vidraça a cidade natal de Bruce Lee. O Salão Coríntio, no andar nobre (quartel-general da imprensa), era uma balsa toda branca, talvez de quinze metros por doze, com um teto baixo e o gigantesco tumor de um candelabro moderno feito de peças de plástico verde-elétrico, as cadeiras de repouso (umas duzentas) revestidas de um plástico da cor de aspirinas úmidas, e as paredes brancas ------ de um branco hospitalar. Eu, porém, era como uma mosca estonteada em torna da lâmpada elétrica. Baterias de luzes estavam assentadas sobre mim, luzes de cinema, luzes de tv, milhares de watts nos olhos é o preço médio que um político paga pela sua entrevista coletiva. Damos a todos eles um supremo instante de pátina, respondendo nossa pele ao apelo da natureza; há perigo , por que a entrevista cria o momento em que o ator deve caminhar para as engrenagens da máquina, meter-se nelas. Enquanto for apenas cem para um ou mil para um, sei que eu não cometerei erros, pois minha campanha pode acabar num tropeção. Apenas que eu seja notícia num determinado dia ----- que um importante pronunciamento esteja para ser feito ------ a entrevista coletiva é, assim, um preço convencionado a ser pago para se continuar no jogo, visto haver muitíssimos dias em que é do meu maior interesse, do meu partido e da minha ala partidária, não ser notícia de espécie alguma e, pelo contrário, reprimir toda e qualquer notícia. Apesar disso, não quis me tornar demasiado chato, ou acabaria prejudicando minha própria posição nas pesquisas com certos comentários. De modo que tentei me mostrar interessante sem revelar coisa alguma, recorrendo ao truque dos eventos passados, ao passo que o interesse da mídia estava em fazer-me revelar alguma coisa atual: ------ Vietnã político. Waltergates, Mansons, Amins, massacres, terroristas em Jogos Olímpicos. Mas passemos a assuntos mais contemporâneos: A maior parte dos convidados aqui concordam que as dificuldades internas da Rússia não são tão graves a ponto de lhe obrigar a se afastar da Síria. Ora, tenho ouvido conversas desse tipo por todo o país... são as mesmas conversas do mundo inteiro de um século atrás. As pessoas inteligentes, bem informadas, diziam nos últimos anos da República de Weimar, o que confidenciavam umas às outras nos primeiros dias em que Hildenburg chamou Hitler. Conversas de mesa dos tempos de Léon Blum e Edouard Daladier. Procurem saber o que eles diziam da aventura italiana na Etiópia e da Guerra Civil espanhola, e da Batalha da Inglaterra... essas discussões inteligentes não estavam sempre erradas. O que havia de errado com elas era que os participantes invariavelmente punham sua própria inteligência no que discutiam. Mais tarde, apareciam estudos históricos provando que aquilo que de fato aconteceu era destituído de qualquer inteligência: essa inteligência estava ausente dos Campos de Flanders e de Versalhes, ausente quando o Ruhr foi tomado, ausente de Teerã, Yalta e Postdam, ausente da política britânica ao tempo do Mandato Palestino, ausente antes, durante e depois do Holocausto. História e política não são absolutamente noções desenvolvidas por gente inteligente e bem informada. Tólstoi deixou isso claro nas primeiras páginas de Guerra e Paz. Já no salão de Anna Schérer, os convidados elegantes discutiam o escândalo de Napoleão e do duque de D´Enghien, e o príncipe Andrei comentava que, afinal de ocntas, havia uma grande diferença entre Napoleão Imperador e Napoleão pessoa privada. Havia ''raisons d´état''' e crimes particulares. ... ) -------, com isso, eu iniciei conscientemente um estranho jogo de forças metafóricas com a audiência, com cinco ou seis níveis simultâneos de significado: Nixon costumava ser bom nesse jogo, até o dia em que inguiçou. Eisenhower foi bastante bom, no seu tempo. Meu adversário não podia ser considerado mau nesse jogo: ele tentara convencer a mídia de que a plataforma republicana agora era forte a respeito do crescimento econômico e da criação de empregos, que escorria como uma baba vigorosa nas falas mansas dos egg-heads de sua campanha, capazes de aguentar pancadas ao vivo por meia hora, esquivando-se das perguntas esquisitas com a agilidade de um negro. De modo que meu adversário disse finalmente, na tv (assistíamos ao vivo) : ------- Trabalhamos arduamente na elaboração dessa plataforma. É uma bela plataforma. Estamos todos orgulhosos dela. -------, e isso fez com que metade da mídia liberal batesse em retirada e se reagrupasse para um novo ataque. Ora, mas minhas entrevistas eram diferentes das dele, claro ----- porque ninguém podia estar de antemão certo de que eu fazia parte do jogo que jogavam, ou era uma pista falsa para desviar todo o mundo da minha verdadeira caça. O sentimento foi a impaciência das perguntas, um sentimento de irritação, uma insinuação de ampla animosidade por parte da mídia; um repórter geralmente despreza um político que não seja profissional, como eu, pois o jogo tende a se tornar surrealista demais, e a função dos jogos políticos é manter o sonho, os pavores e o surrealismo no fundo da noite a que pertencem. O hoje político da mídia é um mecanismo de contenção linguística, por isso acossar-me-iam, tentariam cercar-me e imobilizar-me numa prosa funcional e coerente: ''Mr. K., Mr. K., poderia dar alguns nomes de delegados que passaram do outro lado para o seu (?) '', perguntavam. ------- Houve algum (?) ------, respondi, ironicamente. Risos abafados na audiência. Certamente... Alguns achavam que a preguiça era um dos meus maiores pecados como candidato, ao que eu respondia que a preguiça tinha a função aristocratizante de cobrir uma boa porção de desespero. A preguiça era realmente uma função aristocrática da tarefa hiper-ativa de auto-superação. Essa solene atividade (eu pensava) afugenta o magnífico repouso da mente ou o equilíbrio psico-social sem o qual não pode haver poesia, arte ou pensamento na prática política: nenhuma das mais altas funções do espírito humano. A filosofia antiga distinguia perfeitamente o conhecimento adquirido por esforço (ratio) e o conhecimento recebido (intellectus) pelo espírito atento que pode ouvir a essência das coisas.
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Ali estava eu de novo, sozinho no bar do Hilton, como uma espécie sumamente curiosa de santo. Se fosse ator de profissão, estaria interpretando o Delfim para a Joana d´Arc de de Ingrid Bergman. Num exame superficial, eu poderia parecer um homem simplesmente fraco e teimoso, reclamando da temperatura do licor com a bar-tender. Poderia, inclusive, passar a falsa impressão de me ter estragado, quando jovem, por falta de oportunidades em que fosse posto à prova. Nada mais distante da realidade. ------- Mas você não passa de um menino (.) ------, disse a bar-tender, passando um pano nos copos, com aquele sorriso de plástico que as pessoas usam quando na verdade estão se segurando para não falar demais. ------ É verdade que não escrevi muito até aqui, mas tudo que escrevi é maravilhoso. O bastante para me tornar Presidente. Meu fracasso como escritor dá o que pensar. Provavelmente sou o fracassado mais invejado do planeta. Scott Fitzgerald dizia que o fracasso é o único sucesso verdadeiro nos Estados Unidos e aquele que 'o faz'' estará para sempre no coração de seus compatriotas. ---- O Sr. costuma pensar em seus concidadãos de verdade (?) ------- , ela me perguntou, como uma arma que nunca falha numa negociação e é tão mortal quanto o espadim de um bravo ou o anel de veneno de Lucrécia. ------- Existem umas poucas coisas que preciso desabafar com você hoje, meu bem (.) -------, eu disse, fingindo não ter ouvido sua pergunta. ------- Tenha paciência... vou trazer uns aperitivos para o balcão (.) ------, ela era magra e alta, com um conjunto branco de linho branco, e lenço em volta do pescoço. Seu cabelo era de um dourado pálido de princesa de contos de fada; olhos azuis, profundos, sob pestanas longas e claras. Foi até a mesa do outro lado do bar e começou a tirar as luvas. Pensei nos três tipos de loiras encontradas na teoria do romance policial americano: as metálicas que são tão loiras quanto um zulu albino, com uma disposição tão macia quanto um pedaço de asfalto queimado; as loiras pequenas e engraçadinhas, que andam perto do chão e riem agitadas... Mas aquela do bar era do terceiro tipo: a loira imponente como uma estátua, que nos abraça à distância com um simples olhar azul-gelado. Quando ela voltou com mais bebida, recomecei a falar: ------- Eu sou um poeta maldito... Uma ''entidade''. Gertrude Stein costumava distinguir entre uma pessoa que é uma ''entidade'' e uma pessoa que tem uma ''identidade''. Um homem de valor, um raro, é uma ''entidade''. Identidade é só o que lhe dão socialmente, sabe (?) Seu cachorrinho, por exemplo, sempre lhe reconhece quando a Srta. chega no seu apartamento de noite: portanto, você tem uma identidade. Uma entidade, ao contrário, é um poder impessoal , místico e temível. É como T.S. Eliot dizia à propósito de William Blake. Um homem como Tennyson foi envolvido por seu meio ambiente ou incrustado de uma opinião parasitária, mas Blake estava nu da cabeça aos pés, e percebeu e revelou o homem nu, do centro de seu próprio cristal. Não havia nada de ''identidade'' nele e isso o tornou um artista terrível. Um maledetto. E isto é uma ''entidade''. Uma identidade, em si mesma, é mais fácil: pode servir-nos uma bebida, sorrir-nos um lindo sorriso, enfeitiçar-nos com um olhar, procurar prazeres humanos, esquivar-se às condições rigorosas de um puthuy. Mas Deus, diz o Livro de Jó, ''inspira cânticos durante à noite '' (.) -----, eu havia comentado com ela a teoria das loiras americanas, um pouco antes, e ela se mostrou bastante interessada: disse que havia também um tipo de loira-anêmica, com algum tipo não fatal mas incurável de palidez, que às vezes se torna charmoso e às vezes não. Achei curioso, comentei: ----Sei dose trata: ela é bem lânguida, bem sombria e fala macio sobre qualquer coisa. Você não pode tocar um dedo nela porque, em primeiro lugar, ela te deixa acuado, e, em segundo lugar, ela está lendo The Waste Land ou Dante no original, ou Kafka ou Kierkegaard, ou estudando provençal. Sim: ela adora música e quando a Filarmônica de Nova York toca Hindemith, ela é capaz de dizer qual dos seis contrabaixos vai aparecer num quarto de compasso depois. Toscanini também conseguia isso. Agora são dois. Essa talvez não conte, pois é uma entidade. Mas... deixe-me dizer-lhe: existe ainda aquela outra entidade loira maravilhosa que vai fazer hora com três gangsters da pesada e depois se casar com alguns multimilionários, vinte milhões por cabeça, e terminar a vida com uma ''villa'' rosa-pálido em Cap d´Antibes, uma limousine com piloto e co-piloto, e um rebanho de sólidos aristocratas, sendo que a cada um deles ela irá tratar com uma afeição distraída, como se fosse um velho duque dizendo boa-noite ao seu mordomo(.) ----e Quando notei que ela não conversaria mais comigo, naquela tarde, pareceu-me repentinamente uma criatura inclassificável, uma entidade: não se encaixava mais em nenhuma categoria de loira americana. Não era mais deste mundo: tão remota e clara quanto a água da montanha, tão ilusória como sua cor. Ainda olhava para ela quando reapareceu na beira da piscina, através da vidraça. Não é que eu tivesse me tornado excessivamente vaidoso; é que, por muito tempo, sofri da escassez de ocasiões para ser vaidoso e, agora, não estava tão empenhado numa ´seria luta política pela Presidência dos Estados Unidos quanto num rito de puberdade. Era inacreditável que eu, esse agradável jovem sem origem conhecida, tão satisfeito consigo próprio, tão civilizado, tão culto, tão razoável e verdadeiro, tão inocente das manhas, dos rancores, dos caprichos de humor barato e da audácia dos magarefes sobrepujados, fosse agora, de fato, o homem do Partido Democrata escolhido para ser seu candidato oficial. Mas havia uma lacuna fatal no meu estilo, era justamente culto demais em comparação com meu adversário, digamos, soberbo demais, à maneira que um jovem diretor da Madison Avenue parecerá petulante ao lado do vigor desabrido e grosseiro de um presidente de uma corporação do aço. Me faltava a veemência de um malabarista político como JFK; não, eu tinha , antes, a grande boca sem papas na língua do Cristo, palhaço em transe .
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------ Pois que procurem por mim mais tarde, Rostiff, mas com um papo ''melhorzinho'' (.) ------, a expressão de Rostiff mudou, e ele riu. ---- Você fala como se estivesse trabalhando num filme (.) ----, ele disse. ------- Pode ser, mas só trabalho em filme de bandido, tipo ''Procurado pela Justiça'' (.) ----, respondi, e ele se foi, rindo. Fui para o anexo e atravessei a entrada do hotel em direção à saída principal. Parei para colocar meus óculos escuros, por causa das olheiras, pensando : ''Última parada antes das primárias da Califórnia'', mas só quando entrei no carro lembrei de olhar o cartão da Srta. Lindsay Javits: ''Idle Valley Road, certo ?''; Certo: Idle Valley mudara muito desde o tempo em que existia um arco na entrada da minha propriedade, um cassino e as garotas de vida alegre por trezentos dólares a noite. Muito dinheiro devia ter sido desviado de lá depois de fecharem o cassino. Agora, meu clube era dono do lago e da entrada do lago, e se eu não quisesse que você entrasse lá, não adiantava se jogar na água gritando. Mas, espiritualmente, eu tinha tanto a ver com Idle Valley quanto uma rodela de cebola numa banana split. A sensação de prisão que eu sempre experimentava lá tinha origem na quantidade de seguranças particulares e na qualidade superior e aristocrática do meu estilo literário. Os seguranças eram duros e impassíveis com qualquer um, verdadeiros Pinkertons com uma tendência para lançarem-se sobre qualquer visitante não registrado no livro da portaria. Um desejo de ação violenta imediata se desprendia de seus vultos à distância. Jamais seriam felizes se não houvessem ordens a cumprir. Estavam ali para defenderem meu quartel-general provisório em Los Angeles do populacho e evitar que eu fosse assassinado por algum negro malvado. Fazia sentido até certo ponto: meu adversário político, por exemplo, estava em apuros maiores ainda que os meus, pelo menos enquanto eu não apresentasse sintomas de ''Já Ganhei ''' incuráveis. Justamente na teça-feira à tarde houve uma marcha anti-Trump em Los Angeles em defesa dos Direitos Civis que ele prometera abolir, enquanto eu bebia e conversava com a Srta. Lindsay . Ela me fazia sentir como se tivesse mordido alguém e fosse levado ao depósito municipal de cães, espumando de raiva, para ser abatido. Falei sobre isso com ela e ela pareceu achar que eu usava minha imaginação para estragar o divertimento de certas pessoas. Liguei um pouco a tv e ficamos assistindo os vts de algumas lutas do UFC. Mas não eram bons lutadores: o tempo de Mirko Crocop e Anderson Silva havia acabado e nenhum discípulo à altura surgiu, apenas um bando de dançarinos contorcionistas trabalhando sujo no chão... o público vaiava. A Srta. Lindsay se levantou com suas botas de cano alto, caminhando a passos largos sob o teto da sala; sobre a minissaia,vestia um longo casaco de camurça polonesa, arrematado com pele de carneiro. Seu lindo chapéu de veludo, flexível, inspirava-se em retratistas holandeses do ´seculo XVIII, e estava puxado para o alto da cabeça. O rosto, de um branco puro e uniforme, alargava-se na base. A garganta estava sempre levemente ressoando ou murmurando algum resíduo ornamental de feminilidade: essa ligeira ondulação observava-se também nos quadris e na parte interna das coxas; a primeira junta de seus dedos revelava, igualmente, os mesmos sinais de superabundância sensual. Definitivamente, a televisão era desnecessária, e os comerciais entre as lutas eram capazes de adoecer mentalmente até mesmo uma cabra criada entre arames farpados e cacos de garrafa de cerveja. Seguindo-a, admirando-a, pensando, introduzi o assunto principal: ------- Sabe, Victoria, a minha opinião nada significa. Certas coisas acontecem todo dia. As pessoas mais improváveis cometem os crimes mais improváveis. Adoráveis velhinhas envenenam famílias inteiras. Garotos bem comportados cometem vários assaltos e se metem em tiroteios. Gerentes de bancos de longa reputação ilibada são flagrados em desfalques monstruosos. Romancistas de sucesso, atores premiados, atletas consagrados, populares e supostamente felizes, se embebedam e mandam suas esposas e namoradas para o hospital. (.) ------, era excitante, para mim, observar a maneira como ela me ouvia atentamente, com uma intensidade de devoção religiosa. Ela ajeitou-se no sofá. um projetor sobre ela, uma película prateada de suor reforçando sua pátina intelectual própria, e os óculos, aqueles óculos de armação escura, assumiram uma estranha vida própria, aquela austeridade torturada, aquele idealismo ingênuo, ofendido e intransigente, que, naquele momento, a tornava momentaneamente a Irmã Maior de todos os carrancudos e solitários partidários do meu adversário político. ------ Encontrei esse bilhete na caixa de correios do meu edifício (ela disse). Está assinado por você. (.) ----, olhei para o pedaço de papel na mão dela, estava amassado e manchado de licor. Nele, havia um pequeno parágrafo escrito à lápis, e ela leu para mim: ''NÃO ME ENVERGONHO DE ESTAR APAIXONADO POR MIM MESMO. TALVEZ ISSO NÃO SEJA DEVIDO APENAS À AUSÊNCIA ABSOLUTA DE RIVAIS À MINHA ALTURA. Assinado: Scott Fitzgerald. P.S:. Eis porque nunca concluí o Grande Magnata (.) ''. ------ Isso lhe diz alguma coisa, Mr. K. (?) ------, perguntou-me ela. ------ Faço uma vaga idéia. Sempre fui um grande admirador de S. Fitzgerald. Antigamente costumava dizer que ele tinha sido o melhor escritor bêbado desde Coleridge, que se dopava com ópio. -----, falando com voz suave e humilde, eu irradiava a sinceridade superficial de um imaginário namorado dela, decidido a passar com ela alguns momentos agradáveis. Não deixei de recordar-lhe Arthur Miller: ---- A mesma mistura de vasta solenidade e juventude intacta, uma espécie altiva de ''Ora, bolas '' e ''Oh, que merda eu fiz dessa vez'(?)'' na voz (.) -------, ela disse. Realmente, a vista de Idle Valley, para quem gostasse de vistas, era admirável. E eu era muito bom em pôr os outros apreciando vistas para poder ausentar-me. Fiz tudo isso em menos de dois minutos, para poder atender o telefonema de Rostiff: ----- Mas porque hei de incomodar-me com pesquisas ? Já se enganaram sobre mim tantas vezes, e vão se enganar de novo. O homem é superior à máquina. .. o grande ponto a se recordar é que a América é um país espiritual, estamos todos (ainda que inconscientemente) afundados na crença em Deus. Estou pronto a declarar publicamente que essas eleições darão uma grande alegria ao Partido. -------, e segui bombardeando os ouvidos de Rostiff com meu desesperado otimismo cego do momento , ativado em mim unicamente pela presença de Victoria na sala de visitas, como se estivesse discursando entre fazendeiros idosos, agentes imobiliários do interior e estudantes ruivas com óculos de aro de prata. Aplausos imaginários no final do telefonema. Aclamações, zumbido no ouvido. ------- Estou jovem demais para desistir da Presidência e velho demais para voltar a trabalhar (.) -----,risos, aclamações alucinatórias, vibrantes dentro dos meus tímpanos. -----Sou um homem modesto e severo comigo mesmo... certo (?) ----, enquanto eu caminhava de volta para a sala, delegados imaginários davam-me tapinhas entusiásticos nos ombros. Ao reencontrar Victoria na sala, percebi que ela comportara-se como uma hábil ginasial que abiscoita todos os tentos antes que a bola volte . ----- Não é lindo lá fora (?) -----, comentou ela. Olhei, sim, era realmente lindo. Mas uma olhadela apenas era suficiente para mim, naquele momento. Assim eu economizava segundos preciosos. A questão era apenas saber o que fazer com os segundos ganhos por meio dessa economia. Aplausos. Aclamações imaginárias. Risos e enlêvo pela maneira como Victoria seguia despejando seus anátemas humanistas sobre mim.
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De volta à Los Angeles, meu séquito consistia em cinquenta ou sessenta pessoas excitadas: alguns delegados de outros estados que não desejavam perder seu homem-partido de vista, mais meia-dúzia de policiais radiantes por lhes tocar aquela missão. Os carros diminuíam a marcha na avenida para me ver; um deles parou. Uma mulher bonita saiu de dentro dele e me aplaudiu. Mas havia algo estranho na maneira como ela fez aquilo, que me fez lembrar dela imediatamente, numa noite perdida entre garrafas... em Denver. Sentado sem roupa na extremidade de uma cama de motel (recordava-me), eu discutia com aquela mulher também nua os julgamentos dela sobre mim: ------ Não percebo como alguém pode ser extremista (ela disse) e continuar acreditando na Constituição. E para aqueles poucos anarquistas ontológicos mal-orientados, que fingem acreditar na Constituição, mas, secretamente, não crêem, bom, talvez sejam extremistas a seu modo, porém eu não vejo qualquer necessidade de legislar contra eles, caso você vença as eleições.... apenas os lamento do ponto de vista filosófico. O mesmo posso dizer da Enciclopédia de Ciência Unificado, ou da Lei de Desenvolvimento Interaliado de Trotski, ou dos pontos de vista de Chiaramonte sobre Platão, ou e Lionel Abel sobre teatro, ou de Paul Goodman acerca de Proudhon, ou de quase todos em relação à Kafka ou Kierkegaard (.) --------, ela falava com uma piteira metálica de haxixe entre os dentes, e meu pênis, que jazia à sua frente no lençol amaciado pelo travesseiro, exprimia todas as flutuações do meu interesse; e enquanto ela bufava e expunha seus pontos de vista numa gagueira relinchante, meu membro seguia seu trajeto ascendente com uma ou outra interrupção motivada por algum autor mal abordado. Vendo-a novamente agora, na rua, eu tinha certeza que mulher alguma jamais sentiria animosidade em relação à um homem que havia se mostrado tão ''atencioso''. Mas ela parecia sem jeito comigo, ali na rua. Parecia pressentir as peculiaridades da minha perspectiva política momentânea. De repente, ela gritou: ------ Vá em frente, Mr K. (!!) ----, e, para minha surpresa, havia cólera e exultação na sua voz, como se estivesse declarando: ''NÓS TODOS TE AJUDAREMOS A FAZER O PAÍS ANDAR PARA TRÁS (!!) ''. Minha única reação foi desviar meu olhar do dela e sorrir modestamente, reatando minha marcha na avenida. Pareceu-me um pouco febril. Certamente não me admirava mais. Poderia ser o Presidente dos Estados Unidos em menos de seis meses, podia encaixar a bala de prata do atirador político de tocaia, não importava: agora eu era mais amado e mais detestado que qualquer outro homem na América, e por dentro de tudo isso eu era apenas eu, o homem que regulava os botões da torre de transmissão de manhã cedo para transmitir um pouco melhor minha ladainha, e agora era de se presumir que tivesse que fazer alguns ajustes a mais....
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Certamente fizemos progressos acerca da questão. Estamos mais prevenidos, mais atentos, inabaláveis como sempre. Sentimos que nossa obra literária, na qual parece animar-se uma vida simbólica da mídia, nos aproximará tanto mais do ''fora'' quanto mais nos deixarmos nos encerrar, profundamente, nela. Só ela pode nos dizer o que não pode ser dito, contanto que não diga nada que não seja ela mesma, ; e só nos conduz além do possível não nos conduzindo a lugar nenhum, não abrindo, mas fechando todas as saídas. Esfinge para além da qual não há nada a não ser o transporte. A narrativa, por seus movimentos de caráter labiríntico, ou pela ruptura de nível que produz em sua substância, parece atraída para fora dela mesma por uma luz cujo reflexo acreditamos surpreender aqui e ali, mas essa atração que a transporta para um ponto infinito exterior é o movimento que a traz de volta ao seu próprio segredo, seu centro, em direção à intimidade a partir da qual ela sempre gera e é seu próprio e eterno nascimento.
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Meu bom humor tornara-se uma ferramenta de tortura para muita gente: o mundo inteiro tinha medo da minha nomeação, e ela chegou tão prontamente quanto uma chuva ácida acompanhada de uma banda de gaita de foles. No hotel (aonde?) às quatro da madrugada: sempre tive mais pena dos que sonham com o provável, o profissional, o legítimo, o esperado e o fácil, do que os que devaneiam sobre o longínquo e o o estranho, pois os que sonham com o possível encontram apenas a possibilidade real da desilusão. Se os outros não estavam satisfeitos consigo mesmos ... Meu mal, até a nomeação oficial, foi apenas pensar que eu era mais inteligente que aqueles velhos entusiastas de 1789, 1848, 1870, 1917. Meu prazer ansioso e subjetivo era a certeza de que eu era mais esperto. Enfim: e era mesmo. Dear Chevalier, por um diabo de arranjo especial indescritível, os loucos sempre têm mais energia para queimar. E se William James estava certo, era porque William Blake estava certo, ERA PORQUE EU TAMBÉM SEMPRE ESTIVE CERTO. Felicidade nada mais é do que a busca no mais alto grau de ''energia psíquica'', e estamos neste mundo em busca de felicidade: então a loucura é pura felicidade e conta também com sanção política suprema. ------ Assim como o corpo é uma porção da alma dividida em cinco sentidos, um traje espiritual próprio havia se estabelecido no meu espelho (.) --------, eu disse para mim mesmo. Era uma advertência da febre de entusiasmo que lavrava meu coração naquele momento. Concordo, no entanto, que não era esse o aspecto mais tranquilo do meu pensamento: há pensamentos que parecem atravessar todos os portões protetores de nosso ouvido e atingir algum nervo onde a escatologia se armazena. Chamavam-me, sem delongas, de traidor, Judas, delator, puxa-saco, oportunista, alcoviteiro, golpista, mercenário, hipócrita e... adorava esse: DEMÔNIO. Estavam sentido-se humilhados, obviamente. Primeiro, minha reação era concentrar-me longamente na minha imagem refletida no espelho; segundo, um entusiasmo selvagem e explosivo. Ambos eram muito voluptuosos... mas, por fim, eu me perguntava como fôra capaz de adquirir tanta importância nas obsessões e fixações das pessoas, e, em alguns casos notórios, em seus ódios . Respondia-me que meu senso inato da Verdade deixava um rebanho de idiotas doente de inveja. Meu vôo vertiginoso pelos céus floridos da Verdade: uma carne semi-criada pela minha própria carne. Subitamente, eu revelava ao mundo que o conhecimento da semente é espiritual, e que meu espírito era um astro da Broadway. Outros, mais modestos, encontravam sua parcela de verdade escutando jazz no escuro; sonhos vagos, luzes confusas, paisagens perplexas... havia realmente algo de selvagem , marcial e sem fundo na minha relação com Deus, que remontava às origens do Universo: um orgulho que não podia ser exaurido, uma determinação inesgotável que talvez não pudesse mais ter fim, pois se alimentava apenas de si mesma. Felicidade, infelicidade da imagem ? Eu estava tentado a reconhecer nela, rigorosamente descritos, muitos dos meus sonhos, das minhas suspeitas e da minha obscenidade, e até o ingênuo e insinuante pensamento de que, se eu viesse a morrer por causa disso, faria passar muito da minha vida para as figuras eternamente animadas pela minha morte. E já que o devaneio de hoje deslizou nessa direção, lembremo-nos do Golem, aquela massa rudimentar que recebia vida e potência das letras que só seu criador sabia escrever, misteriosamente, em sua testa. Mas a tradição (eu pensava) engana-se ao atribuir-lhe uma existência permanente, semelhante a dos outros seres vivos. O Golem se animava e vivia com uma vida prodigiosa, superior à tudo o que o ser humano era capaz de conceber, mas somente durante o êxtase de seu criador . Era-lhe necessário esse êxtase, e a faísca raríssima da vida extática, pois ele mesmo era somente a realização instantânea da consciência do êxtase. Assim (concluía eu ), havia um amplo, ainda que secreto fascínio, em escutar as palavras que eu lançava no ar da América, estridentemente, o anúncio de uma nova cruzada, algo fanhosa, viking, que viria do Norte, uma sensação de quebra-gelos e escudos bárbaros, de caçadores à solta de novo na terra. E isso tudo possuía um fascínio que calava fundo nas pessoas, que excitou-as todo o tempo ao simples pensamento de que obteria a nomeação convencional, como se, agora, todas as mortes de alma acumuladas pelo passado, todos os fracassos, todos os terrores, pudessem ser agora expurgados numa situação nacional em que cada um de nós perder-se-ia numa avalanche de histeria belicosa coletiva. Havia no ar da América aquela excitação de que o fardo da alma de cada americano pudesse, finalmente, ser removido ----QUE ALÍVIO (!) A beleza era inspirada pela perspectiva da guerra. Pois se eu vencesse as eleições, e o poder de ferro da gente de ferro que me empurrava para adiante lançasse agora sobre a nação um regime de ferro, com o totalitarismo apossando-se da Televisão a cada jantar gelado, bom, então, uma verdadeira clandestinidade poderia finalmente formar-se; e também (consequentemente) a verdadeira liberdade, ao pensar-se em qualquer catalisador que pudesse dar-lhe origem. Sim, o movimento PRÓ-K. excitava as profundezas da psique americana porque o Apocalipse estava mais próximo e, como milhões de outros americanos brancos hiper-calóricos de temperamento violento, eu também levara uma vida sem nenhuma finalidade e demasiado encharcada de culpas, e a náusea afogava-me a garganta ao pensar nas transigências sem fim de um centro liberal e vazio. De modo que segui (vitorioso) para a Convenção com algo mais do que simples apreensão. O país estava dando uma guinada (perguntava-me), as cores definiam-se, as navalhas da noite eram empunhadas, algo do melhor na vida americana estava morrendo para sempre.. ? ; ou seria justamente o contrário ? , ou estaria o país começando, por fim, a transferir as tumefações de suas próprias contradições de uma pré-matura meia-noite de pesadelo para o terreno cirúrgico da ferida aberta na pele ? Estaríamos no princípio, ou dobrando o meio da nossa pior doença ? Não sabíamos mais, simplesmente, não era possível saber mais, embora uma coisa fosse certa: o país era agora uma preocupação cotidiana de todos os cidadãos. Aquilo lembrava-me Edmund Burke: '' ... Quando os homens estão confinados demais a hábitos de profissão e faculdade, e inveterados, por assim dizer, no emprego recorrente desse estreito círculo mental de especializações, encontram-se mais ineptos do que qualificados para tudo o que dependa do conhecimento da humanidade, da experiência em assuntos variados, de uma visão global e interligada dos diversos, complicados interesses externos e internos, que concorrem para formação e o desenvolvimento dessa coisa multímoda a que se chama Estado ''.
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Por maior que fosse minha apreensão, tecnicamente, eu não considerava a situação tão excitante quanto parecia . As pessoas careciam de força interior para suportar o peso das minhas palavras, e começaram a sucumbir à demência precoce. Eu era como uma mãe para elas. Para mim, no entanto, representar minhas idéias com mais suavidade também era uma fonte de prazer, de modo que o velho truque maçônico de ''bater e assoprar'' era de muita utilidade. William Blake estava certo ao dizer que o Prazer era o alimento do Intelecto. E, se por acaso o Intelecto não pode digerir a comida, você o cozinha em fogo lento com Zwieback e leite morno. Na verdade, houvera poucos momentos de sensação em todo este negócio: não tinha sido nada em comparação com a Convenção Democrata de 1960, e menos ainda com a demonstração em favor de Adlai Stevenson, quando Eugene McCarthy o levou à nomeação. Entretanto, esta Convenção restará como uma das mais importantes da história, pois , além de ter sido eu o nomeado, teve lugar com uma exaltação religiosa para alguns, com apreensão e temor para outras, e com puro trauma para a maioria da imprensa e da televisão que presenciaram as cenas que a envolveram ao redor do mundo. A finalidade da imprensa, na América, tem sido a de botar remendos na Máquina Republicana: ajustar, preparar a sede para novas válvulas e valores, lubrificá-la como a um ânus, desculpar, justificar, servir na conservação do Estabelecimento. Desde I. F. Stone, na esquerda, até a direita de Joseph Alsop, indo quase tão longe quanto David Lawrence, o entendimento essencial dos meios de comunicação em massa na América é que a Máquina Partidária é uma trapalhada infinitamente grata aos suprimentos intelectuais da mídia (quando os há); faz-se, assim, um jogo em que o Estabelecimento perdoa sempre os meios de comunicação pelos seus excessos, quando o que deveriam fazer é processá-los judicialmente, e operadores da mídia, por sua vez, põem seu sentido de civilização (ajustamento, psicanálise, Buda Body Yoga, equino-terapia, responsabilidade, ética profissional e as mais temperadas praias do amor) à serviço de uma idéia deprimente de familialismo pequeno-burguês, e não do alargamento do horizonte político . Virtualmente, tudo é perdoado de ambas as partes. Esquecem-se os comentários contraditórios dos políticos e candidatos: as revisões e vaticínios mais burros dos sabichões especializados vão sendo enterrados sucessivamente com exagerada piedade. Nenhum partido ou jornal seria capaz de recordar que, por exemplo, eu falara em público que: ''Nenhum político republicano sério, mesmo o mais próximo do tipo Neanderthal, toma ainda a sério meu adversário político ''. Não, a imprensa americana não seria censurada pelas suas limitações técnicas e intelectuais, porque metade de sua compreensão do país deriva, no fim das contas, do material fornecido pelos Partidos; a outra metade provém da conversação sustentada entre eles mesmos. Com muita frequência, a imprensa vive a situação investigativa do amante que realiza o ato em dois minutos e fica falando a respeito dele durante vinte das vinte e quatro horas diárias. Televisão? Uma cadeia diáfana e mimosa. Explicações? Ora, os que manejam o poder pensam que se mantém o Diabo à distância não lhe citando o o nome. Mas é justamente este procedimento que me oferece a formidável concha psico-acústica em que aprisiono o cérebro do mundo no bolso da minha calça. E ele está me olhando com olhos grandes, cegos, leitosos, ensanguentados olhos de parede.... Alguma esperança para essa operação humana de combinação selvagem chamada Estados Unidos ? Sim: As ''Cartas'', de Keats. O assunto aqui é tudo. Tudo o mais desaba, desmorona, resulta curto, vago, pobre. A geração clandestina da direita é um bando frustrado até aqui: uma convenção de algozes que subscrevem o princípio de que os carrascos também têm seus direitos. O espírito liberal desmorona-se ante essa noção, porém mais da metade da natureza pode conter-se na idéia de que os fracos são mais felizes quando a morte é rápida. É uma noção que, desde os nazistas, tem sido francamente detestável mas, então, o maior prejuízo intelectual que os nazistas podem ter causado foi tomarem alguns princípios da natureza e pervertê-los das raízes às nervuras. Em nome do barbarismo e de um regresso à saúde primitiva, eles aceleraram os aspectos mais surrealistas e totais da civilização. A câmara de gás foi um descendente inteiramente albino da Revolução Industrial. Voltemos ao assunto! Mas, qual é o assunto ? Um escritor tão refinado quanto Jorge Luís Borges afirmava que a literatura moderna só era superior, não quando apelava para o estudo dos caracteres e o aprofundamento da variedade psicológica, mas quando era capaz de inventar fábulas e ''assuntos''. E isso não acontece mais hoje: a literatura ficou totalmente en-merdecida, assim como o esoterismo. Só a performance virtual salva! Os leitores ingleses sempre desdenharam, por sua vez, as peripécias romanescas e preferiam escritores hábeis em escrever romances sem assunto. Ortega y Gasset, anos mais tarde, disse que era muito difícil inventar, hoje em dia, uma aventura capaz de interessar nossa sensibilidade De fato: é incrível como as imaginações luxuriantes embotam nossa delicadeza a ponto de se tornar vulgar e barata e só lidar com assuntos corriqueiros, como as correntes mais moderadas da Esquerda e da Direita na América. Ora, os primeiros americanos eram rodeados pela mata virgem, e depois rodeados por coisas corriqueiras, e essas, no entanto, eram exatamente como se fossem mistérios impenetráveis. Fé na soberania imparcial da imaginação, algo que sempre faltou à Beat Generation: uma ''revolução'' modesta, pouco atraente do ponto de vista intelectual, terrivelmente suicida no centro de sua paixão. No seu máximo de militantismo, desejou muito mais a auto-imolação do que o poder. Como respeitar algo assim? Todavia, no fim dos anos Cinquenta, os liberais reagiram à ela com um terror profundo, ridicularizando suas manifestações através da mídia. Mas, perante uma ''revolução'' de Direita, como será que reagiriam ?? Seu pesadelo pessoal poderia muito bem ser sua incapacidade para sustar os impulsos mais assassinos dessa ''revolução'', de um movimento de Direita cujo espectro é aquele sangue e hálito inapagáveis do nazismo, que pairaram durante todas essas décadas sobre o tradicionalismo, qual um espírito demoníaco que se alimentasse dos tecidos dilacerados, decrépitos, da civilização. ------- Fiquem do meu lado e estaremos todos em boas relações (eu dizia outro dia, numa rápida aparição da tv) ; em suma, não percam o bom humor por tão pouco.... agora que as paixões políticas maiores e mais ambiciosas estão-se anestesiando dentro de mim, eu tenho me apresentado em público com uma mesura cada vez mais antiquada, tirada à Moliere. Assistindo à televisão , nos últimos dias, com as Reflexões de Edmund Burke debaixo do braço, percebi que quando os homens de posição sacrificam todas as idéias de dignidade à uma ambição sem um objetivo nítido, e obram com instrumentos baixos, para fins baixos, toda a composição se torna baixa e vil (.) -----, mais tarde, continuei batendo naqueles mesmas teclas. Quanta mágica, quanta magia negra existe no subconsciente!! No restaurante, assistindo à tv, eu via os olhos da apresentadora indo da direita para a esquerda, enquanto eu lia o cardápio. Uma pausa aqui para um longo intervalo comercial: a alma deixa o corpo enquanto a gente come ?? Nessuno sa.... o espírito americano passou de Nathaniel Hawthorne e Emerson para The Walking dead e Game of Thrones e o cerebralismo estatístico no futebol, em que um quarterback devia agora ter não só coração, valentia, força e agilidade, mas também uma cabeça que funcionasse como um Big Data. E vocês acreditam em todo esse negócio. Tudo isso aconteceu enquanto as pessoas comiam.
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Impiedosa, bem-humorada, engraçadinha e gargalhante, Sarah ria na mesa do restaurante do Pierre, diante de mim, bebericando o Pouilly-Fussé, ciente do quanto eu admirava seu pescoço francês e a sutileza de seus colares brancos (eis o véu de Maia (eu pensava), mais vivo que nunca ! ) : ------ Aconteceu algo parecido com uma firma americana, há alguns anos (explicava-lhe: essa firma emprestou um de seus especialistas ao Departamento de Estado , que integrou o Comitê de Planejamento da Política para o Oriente Médio, cujo objetivo era, nas palavras desse homem: ''Descobrir meios de tirar vantagem da amizade que começava a surgir entre nós e ''eles'' (.) '' -----, bem, aceitando o fato de que a idéia corrente de felicidade consiste em fazer o que todo mundo faz, então deve-se assumir o que todo mundo assume ? Se forem preconceitos, que sejam preconceitos; se for raiva e avareza, que sejam raiva e avareza; e se for sexo ruim, fraco, bom, que seja... era o que eu pensava naquele momento: ''Mas nunca se atreva a contradizer sua própria época, a não ser que você seja do tipo K.M., sentindo que o lugar de honra, o Trono Todo-Poderoso, está do lado de fora. Porém saiba que o que é conquistado pelo saudável e vigoroso afastamento, por exemplo, num quarto em que cabe todo o conhecimento universal, não recebe honras exteriores. E dê Graças à Deus por isso... e saiba que você não será o primeiro a constatar a impossibilidade concreta de conciliar o sucesso mundano com a integridade espiritual, crestado pelo sentido da própria superioridade, e, consequentemente, inapto para bajular a Lei de um Estado e um Sociedade em ruínas. -------- Seu roteiro até aqui dá um belo testemunho sobre você (Sarah disse: Loucura, intrincamento, sutilezas desperdiçadas com ouvidos em transe, uma espécie de gênio aparentemente desorganizado (Espera: estão me chamando pelo telefone. Um momento só (.) --------, mas eu seguia pensando no quarto: havia de fato um espaço cósmico infinito dentro dele: cabia tanta gente morta que estava viva e atuante, que se você estava mesmo dentro dele, de corpo e alma, não importava onde, você era de fato um americano. E o pior: um americano enviado para Damasco ( por ''quem'', não era mencionado no documento da CIA), a fim de ''estabelecer contatos oficiosos'' com ''líderes sírios'' e ''achar meios de persuadi-los a liberalizar, por iniciativa própria, o seu ''sistema político''. Uma pausa : ---- De onde você roubou esses documentos (?) ----, Sarah perguntou. ------- Não roubei, apenas copiei.... faça as malas, você vem comigo. . Meu Deus, como você se sairia bem com algumas senhoras que conheço em Washington (.) -------, é claro que ela própria (pensava eu) pertencia àquela categoria: todo o encanto, o ''glamour'' fervilhante, a agitação quase insuportável que provinha do fato de se poder dizer americano no século XXI eram acessíveis somente às mulheres: para os homens há muito tempo não havia encanto nenhum em ser americano.
Enquanto falava, pensava comigo que, nesta vida, a gente não tem que subornar outra criatura para que nos ouça enquanto explicamos no que estamos ocupado secretamente, em horas suspeitas da madrugada: todas as pessoas que eu conhecia tinham olhos para ler os jornais ou ver a televisão, todos compartilhavam do êxtase coletivo de notícias, crises e poder. Mas apenas eu, naquele momento, no restaurante do Pierre, estava tendo um rápido vislumbre da situação real, acompanhado de um sensação levemente extra-terrestre e um princípio de ereção. Meu sistema de referência era de fato único e egoísta, fazendo estremecer tudo ao meu redor. ------- Cada qual conforme sua própria excitabilidade (.) -----, eu disse à Sarah. Mas, talvez, minha ereção se tratasse de alguma coisa mais profunda: ela testemunhava e encarnava as viradas do destino da humanidade. ------- O documento descreve ainda encontros com vários oficiais envolvidos no plano de uma conspiração vindoura que não é de todo elucidada no texto, para criar... (vejamos: ''.... uma vasta classe-média estável.... suficientemente identificada com os ideais e valores locais, para permitir o desenvolvimento de instituições democráticas verdadeiramente nacionais''. Ora, insinuando-se, dessa forma, em uma nova esfera política, os americanos providenciariam empréstimos para a nova democracia a caminho. Nesse ponto, um cientista político do Departamento de Estado e ex-executivo de uma firma de contabilidade, uma das maiores do mundo de publicidade e relações públicas, seria ''mandado ao Cairo para produzir uma série de relatórios identificando os problemas e pessoas do novo governo sírio e recomendando soluções políticas envolvendo sequestro de bens privados e assassinatos estratégicos ''(.) -------, àquela altura, até mesmo Sarah, quem eu jamais havia tocado sexualmente, estava sujeita à atividade astral da minha ereção subreptícia: vivendo dela enquanto dormia, através do sangue bombeado para a minha glande, ou afogando-se na grande noite vaginal das poluções noturnas, ela mesma objeto, vista em seu transmutar ou em seu sucumbir, sentindo no próprio corpo meus acessos de força tântrica e estopins de transmutações -----
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O Claw Palace oferecia ecos: bons pesos-penas e pesos-médios ali tinham lutado. Havia crueldade no ar. O Partido Republicano tinha instalado a plataforma do orador numa extremidade do oval; os delegados sentavam-se, portanto, numa fila que era consideravelmente mais longa do que larga. Disse para Sarah que eu estava levando aquilo tudo muito a sério. Pretendia dar um salto singular e mergulhar de cabeça na Verdade. O orador estava instalado no punho da espada. Era a reunião mais dos pais republicanos do que das mães democratas. Se alguns delegados não percebessem o efeito psíquico daquela decisão espacial, um gigantesco estandarte ali estaria, por garantia, içado por detrás do orador, com a seguinte legenda defronte dele: '' DO POVO, PELO POVO, PARA O POVO ''. Observação: ''DO POVO'', talvez não por acaso, estava quase invisível. ''PELO POVO'', era um tanto mais nítido. ''PARA O POVO '' era em letras garrafais e bem destacadas. Resumindo: era uma reunião mais ''PARA O POVO'', do que ''DO POVO''. Isso eu presumira utilizando a maioria dos meios contemporâneos de se filosofar... lendo The Sound and The Fury na noite anterior, eu tinha me deparado com as palavras de Quentin Compson, que não pertenciam originalmente ao seu pensamento mas à E.E. Cummings e à década de 1930, e não ao ano de 1910, como indicava o romance de Faulkner. Estava escrito ali: ''Terra do judeu safado, do carcamano podre, do negro violento (.) ''. Isso Compson dizia consigo mesmo ao comprar um pãozinho doce de uma menina italiana. Isso, também, eu teria lembrado sem ter ficado muito chocado se estivesse em casa, mas entre os jornalistas presentes à reunião do Partido haviam vários judeus. No entanto, eu eximia Faulkner de culpa. E, de fato, essa sempre fôra a escassa e solitária força do meu adversário político como orador: ele parecia ter certeza do que era bom para o povo e mergulhava sem nenhuma culpa no próprio discurso: ''Aqui estou com um grande orgulho por que sou republicano '', e ''A minha profunda dedicação ao republicanismo ------ ainda não passavam cinco minutos quando os jornalistas começaram a bocejar. Meu oponente sempre fôra um chato, mas havia um certo fascínio naquela chatice ante a perspectiva de que ela poderia leva-lo à Presidência ------ no fim das contas, agora ele era o homem. Mais cinco minutos e o lacaio da retórica pendurou mais algumas frases na sua voz clara e decidida, e algumas frases penduraram-se nele. Usualmente, quando estava sob a mira de alguma acusação da mídia, ele esforçava-se por levar seu discurso ao empate técnico. Quando decidia que ''o empate era um bom resultado'', tornava-se difícil ouvi-lo falar: toda a expectativa terminava derivando para paragens nauseantes e irrisórias. .. não significava nada. Os moderados tentavam vaiá-lo, e os delegados olhavam-no fixamente, em filas compactas de apreensivo silêncio. Mas o velho homem prosseguia: ------ A polícia deve ser ''politizada'', ''convertida'' (.) ------, de uma vez por todas (pensei), agora eu ia descobrir se havia de fato algo por trás dos incessantes indícios que pingavam sobre minha mente: ----Leninismo de Direita (?) ----, perguntava à Sarah, rindo. ------- Sem gelo nem bitters (.) ----, de fato: o centro nervoso de qualquer Estado reside sempre num organismo secreto. ------- Foi Thomas Jefferson quem disse que a árvore da liberdade tem de ser ocasionalmente regada pelo sangue de patriotas e tiranos (eudisse) Mas eu me pergunto se, a esta altura, no mundo, ainda há algum acordo tácito oficial com respeito à ''revoluções'', à organizações de massa, quadros, regime de polícia e organismos executivos secretos.... é uma suspeita revoltante: mas revoltante pela possibilidade de que não exista mais nada disso, ou que tudo isso tenha se tornado esquizofrenico e inoperante (.) -------, para mim, essa era a verdadeira essência das instituições humanas: um excerto que assumimos a propósito da morte, seja em escala individual ou institucional. Subitamente, no alto da plataforma, o velho tornou-se furioso, arrogante e vingativo sobre tudo o que lhe parecia fabricação da mídia. Os jornalistas, amedrontados, acompanharam-no, contagiados pelo pânico de que uma tempestade de idéias fascistas se abatesse sobre eles. Eu dizia à Sarah que , ouvindo aqueles mesmos jornalistas, sempre estaríamos perdendo nosso tempo, e que era mais saudável, para mim e para eles, que fossem esmagados e espezinhados. ------- Possivelmente sim (ela disse), embora voce esteja exagerando o poder da violência. Servirá apenas para resolver problemas de relacionamento, ajudar, limpar, higienizar, favorecer, ampliar o horizonte intelectual. Para fortalecer a posição americana e, ao mesmo tempo, fazer o bem ------- ou (quem sabe: ela ria) , talvez, rendendo-se a fantasias de onipotência, ser o plenipotenciário americano fazedor de nações, a operar nos bastidores da polícia política mundial (.) ------, naquele momento, ela fazia o gênero de discurso que, levado à sério, ocupa quatro ou cinco colunas do New York Times e serve para forrar as naves da História de pânico e desespero. O velho prosseguia seu discurso, no palco. Eu simplesmente duvidava que ele fosse apelar para os recursos da ciência política americana para dar essas lições de tirania. Em meses da campanha, ele certamente amolara mais de uma multidão, mas nunca as amolava completamente ------ sempre soubera como captar alguns indícios no populacho. Desde 2015 que vinha entregando pedacinhos módicos de sua alma para atrair demonstrações de afeto na massa. Eu , particularmente, já o conhecia tão profundamente que podia dizer quando chegavam tais momentos: Sua voz mudava. Sempre que estava disposto a amaciar a audiência, advertia-as disso começando a falar com uma colerazinha efervescente. Cutuquei Sarah e disse: --- Chegou o tal momento (!) --- : O velho mudou de voz , e disse : ------- REPUDIEMOS PARTICULARMENTE OS ESFORÇOS DIVISIVOS DOS ESTRANHOS À NOSSA FAMÍLIA, AO NOSSO SENTIMENTO AMERICANO, INCLUINDO OS COLUNISTAS, ANALISTAS E COMENTARISTAS ÁVIDOS DE SENSACIONALISMO (aqui, surgiram os primeiros sinais de apoio do público), PORQUE (prosseguiu ele, a voz revelando um requebro de soberbo desprezo) EU GARANTO QUE ESSA GENTE IGNORANTE E IRRESPONSÁVEL É A QUE MENOS SE IMPORTA COM O PARTIDO E O POVO ''. E o pior de tudo, era que ele tinha razão. Mas não foi por isso que ele falou aquilo. Foi para retribuir à imprensa o que ela vinha falando a seu respeito, para criar formigueiros elétricos no corpo balofo de um velho homem sedento de poder. Ele disse o que disse para vingar-se. Disse para agradar a multidão vingativa que o apoiava. Soaram trombetas, gritos, palavrões, arautos da nova cruzada: ''EXTERMINEM AS BARATAS, OS JORNALISTAS, OS COMUNAS, OS BUNDAS-MOLE (!)''. ... ''Essa era a terra do judeu safado, do carcamano podre, do negro violento ''. No dia seguinte, noticiavam-se nos jornais que os delegados tinham brandido os punhos violentamente para os jornalistas que circulavam no recinto e os repórteres de TV com seus microfones. Os meios de comunicação de massa não estavam, evidentemente, equipados com recursos físicos ou intelectuais suficientes para semelhante guerra. Aos delegados, pareciam todos insetos que se tivessem tornado de repente do tamanho de homens. Inacreditavelmente, aquele homem continuava falando no palco: ------- Não tem nada a ver (eu disse à Sarah). Multiplique por dois as complexidades da personalidade humana... pense em duas pessoas completamente diferentes, dentro de cada um de nós. Difícil de compreender é que cada uma possui sua complexidade, sendo tão completas quanto uma personalidade inteira. Muito bem, afirmo então que uma delas originou-se no óvulo, e portanto conhece mais os mistérios da existência ------ concepção, nascimento, morte, noite, lua, eternidade, carma, assombrações, iniciações, divindade, mitos, magia, carisma, fascinação, nosso passado primordial e assim por diante. A outra, resulta apenas das energias que levaram o esperma a nadar adiante, cego à tudo fora seu próprio objetivo; ela revela a tendência de ser mais dedicada à estratégia política republicana, à empreendimentos do tipo ''moer o milho'' , ''consertar moinhos '', ''construir o muro '', fazer ''pontes entre o dinheiro e o poder '', und so weiter.... (.)
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Oh, rostos enrugados, olhos chorosos, ausência de espírito, conjuntamente com panças grandes e pernas finas, saindo do ar, num andar de caranguejo, diretamente para dentro do jogo de cabra-cega: assim os moderados do Partido Republicano partiram moderadamente para o ataque mais uma vez. Não eram, porém, oradores vigorosos e animados, não naquela noite. Aquela noite era só minha, e eu estava infiltrado no intelecto dos grupos profissionais de liberais; devotado sarcasticamente à assuntos pormenorizados, eu falava racionalmente, como um tímido professor de colégio , mas sempre terminava os tópicos dizendo que Hamlet talvez tivesse sobre aquilo um ponto de vista próprio (de modo que essa última qualidade do meu discurso não tinha como ser medida nem pelo New York Times nem pelo Wall Street Journal ). Bem, acho que exatamente naquela altura pensei que poderia ser uma boa idéia parecer um pouquinho mais americano, como um rapaz do interior, e mudei meu tom para o de um próspero dono de lanchonete. Achei que podia insinuar que, na verdade, não tinha nada a ver com os meios liberais , e tampouco com as instituições do Oriente. ------- Sempre fingi, por uma questão de comodidade, levar a sério os acordos econômicos com o Terceiro Mundo nos meus discursos, mas em conversas privadas segui descrevendo-os como governos vulgares, imbecis, chantagistas e corruptos. Mas há um aspecto sério nisso tudo. Digo: pretendo evitar a sátira total. Hoje quero examiná-los não apenas como líderes demagogos e bufões corruptos, mas também como entidade que desafiam a saúde econômica da América. Quero dizer algo sobre o ressentimento deles relativo à falência da civilização dos sonhos em liderar o mundo além da modorra tecnológica e dos meios financeiros parasitários. Quero falar da crise de valores (....) ------, enquanto eu discursava, parecia uma versão elegante de Boris Karloff, todo feito de uma suposta honestidade ''nua e crua'', os olhos vazios e profundos de um marinheiro após oito dias no mar mergulhado numa paixão turva e sem sentido. Agora, minha voz tornara-se possante e timbrada; contudo, a mídia pressentia uma lacuna perigosa no meio do meu cérebro, o que tornava minha atividade mental, naquele momento, tão perdida quanto a insignificante e perdida voz de Karloff. De fato, a excitação intelectual limitara-se ao início do meu discurso, que prometera mais do que se mostrou capaz de cumprir. Normalmente, eu não era um homem que inspirasse calor, mas frio e desolação: tinha um rosto forte e decente de vampiro aristocrático, algo duro, como se usasse para minha maquiagem o couro de uma bola de futebol. Mesmo quando me mostrava comunicativo e contagiante, dava a impressão que meu íntimo estava tão remoto dentro de mim quanto um astronauta numa órbita perdida. ---- Senhores (prosseguia eu, intimista) eu nunca fiz nada em matéria de política senão sonhar perigosamente. Tem sido esse, e apenas esse, o sentido da ''minha luta''. Nunca tive outra preocupação verdadeira na vida senão a prática do ocultismo. Abrindo uma janela secreta dentro de mim, em poucos minutos dissolvo-me poderosamente no Inconsciente Coletivo, e dele arranco todo tipo de quimeras incendiárias. E, arrastando uns para dentro dos outros, blocos inteiros de realidades. A quem alguma vez me veio falar de viver uma vida normal nunca prestei nenhuma atenção. Nunca amei nesta vida senão coisa nenhuma. Nunca desejei para mim senão aquilo que não podia nem sequer ser imaginado. À vida nunca pedi nada senão que passasse por mim sem me encher o saco. Do amor apenas exigi que nunca deixasse de ser senão um sonho longínquo e idiota. A única coisa que me atrai no Espírito são paisagens que se esfumam na distância ininteligivelmente. Meu olhar, naquele momento, tinha um ar de leve reprovação à massa, tanto quanto de receptividade às suas críticas. As vaias eram, no fundo, a colherada de lêvedo nutritivo que se metia nos meus negócios sempre que eles pareciam estar por um fio: um produto primário do público, derivado de seu consenso neanderthal, dissolvido depois na minha mente até atingir um estado espumoso e cor de rosa, como batida de frutas, mantendo minhas faces coradas e frescas. O principal resultado disse era um divertimento quase divino. A platéia não parou de manifestar-se até eu terminar meu discurso, mas, em casa, eu experimentara aquilo como entretenimento. Ali eu tivera um de meus momentos históricos, mas em casa seguia repetindo-me: ''Fique longe de temas como ''A Crise de Valores'' nessa campanha, K... Diga apenas algumas palavras ininteligíveis de advertência, e passe para assuntos mais amenos. Permaneça alheio à jogos competitivos gratuitos. Atenha-se silenciosamente aos Livros Santos. Suporte com firmeza impessoal os embaraços da alma coletiva: seja paciente com a estupidez do poder e a fraude nos grandes negócios (.) ''. No dia seguinte, às seis da manhã, acordei na minha cobertura em Manhattan tentando descobrir um meio de dominar a situação. Esse era o meu objetivo: mostrar à América, através apenas do meu comportamento indiferente, uma concepção silenciosa do meu adversário político: que ele era um homem de poucas idéias, e que nenhuma delas era própria; que possuía uma personalidade inapropriada para o primeiro plano do poder (no sentido em que Bobby Kennedy e Jimmy Hoffa tinham personalidades apropriadas para o primeiro plano do poder) . No entanto, era preciso admitir que ele extraía força do fato de desafiar a inteligência da Nação. Um milhão de anos atrás (eu pensava, vendo-o discursar na tv) algum gorila deve ter enfrentado uma tribo enraivecida, gritou mais alto do que ela e saiu vivo da experiência, dando início à sociedade humana.
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Eu sempre achava que a próxima seria sempre minha única oportunidade de provocar uma explosão no eleitorado que produzisse certas emoções petrificadas, certa mágica. E dizia para mim mesmo haver um vínculo umbilical entre um conservador disfarçado de liberal e o mitômano psicopático. Então, eu me moderava diante do espelho e acabava parecendo, sob os holofotes da mídia, um lutador de segunda ordem em meio a mais um combate perdido. Meu modelo imaginário era um casamento intelectual interno: em poucos minutos, eu acomodava o pé contra mi mesmo, incessantemente sensual, egoísta e perverso, incessantemente fazendo amor comigo mesmo ----- ou comigo mesmo através de mim. Como eu fazia, então, parecerem naturais e fáceis todas as coisas: bondade, maldade, lascívia. O povo da América via em mim a possibilidade de uma vida política mais interessante . Pouco ou nada do meu Ômega se envolvia nos meus atos públicos. Quando escrevia para os jornais, eu era como um homem tentando não cheirar os dedos depois de tocar no cocô do cachorro. Depois, tornava-me crasso a ponto de discorrer sobre meu Alfa e todos seus envolvimentos. Meu Deus, eu era um farsante (!) Na semana passada, numa de minhas muitas colunas semanais, recomendara aos meus leitores lerem Rudolf Steiner e eles o acharam fascinante. Uma leitora inteligente me respondeu que esperava algo como Madame Blavatsky, mas que Steiner se mostrara um místico bastante racional. Escrevi de volta à ela, dizendo que não há força mais poderosa no mundo quanto a de uma idéia cujo o momento tenha chegado : ------- Perdoe-me (continuei) se estou sendo arrogante, mas você aumentou minha consciência gradativa do quanto os imperativos territoriais são importantes num cabo de guerra (.) --------, mas, espera aí (pensava depois: porque desperdiçar tanto papel para levar as leitoras de um lugar para o outro ?? Mas eu triunfava nas formas sofisticadas do engano e da dureza de coração, consideradas por qualquer ordem política, diga-se de passagem, como fatores de alta produtividade. Diversos modos de achacar ou lograr ou (na melhor das hipóteses) desperdiçar o talento do público. Para isso, muitas vezes eu procurava negar em mim o privilégio do intelectual de alto padrão moral que havia de aplicar os mais puros preceitos, enquanto puxava as orelhas dos restantes dos meus discípulos. Em casa, ainda pela metade da garrafa de licor, eu tentava imaginar uma ordem social justa e possível, mas não conseguia. Uma sociedade que não fosse corrupta ?? Não conseguia isso. Quando dizia para mim mesmo, por exemplo, que meu Ômega não participava dos meus atos públicos, revelava apenas que, em questões sexuais, meu Alfa estava tocando o barco com mão de ferro. Meu Alfa não dava ouvidos às interpretações diferentes que meu Ômega fazia da experiência. E, para mim, isso era algo análogo ao fascismo: o fato de aceitar que metade do meu ser permanecia sexualmente indiferente durante o ato revelava que eu era um fascista. ------ Se você quiser falar sobre isso comigo, doçura, serei toda ouvidos (.) ---, a leitora disse. E assim eu comprava uma passagem, chamava um táxi, colocava uma garrafa na mala, entrava num avião. No bar do aeroporto, fui fotografado jogando conversa mole para cima de uma jovem de olhos de gazela. Imagens de tratamentos parecidos, passados e futuros, iam e voltavam através de minha matéria espectral, vibrando com os ventos silenciosos do Tempo acelerado. Duas horas depois: --- Escolha uma dose de alguma outra coisa... qualquer coisa. Isso ainda não é misticismo. Goethe simplesmente não desejava parar nos limites traçados pelo método indutivo. Deixava sua imaginação passar por cima dos objetos e desprezava profundamente o ensino universitário: ----- Um artista tenta, às vezes, ver quão ligado ele pode chegar a estar a um rio ou uma estrela, pondo-se na pele de uma ou outra: inserindo-se nos aspectos dos fenômenos pintados ou descritos. Alguém chegou mesmo a escrever a respeito de um astrônomo que guardava manadas de estrelas, o gado de seu espírito, nas campinas de seu espaço. A alma imaginativa trabalha nesse sentido. A propaganda oficial quer te convencer de que a poesia deveria deixar de ser fonte de conhecimento. -------, naquele momento, impressões falhas e titubeantes se dissolviam na luz, bolsões de ectoplasma varridos para longe por dois olhos que me escarravam em meio à aurora do alcoolismo. ------- Agora penso em você com carinho novamente, K (.)---, a leitora disse, dando-me o melhor de seus seios temperamentais, e parecendo gostar do que comecei afazer com ele. Ao longo daquela noite, nos aproximamos mais e mais, e no final já conseguíamos compartilhar pequenos universos de metáforas . Meus dedos esfregavam seu seio como um gordo esfrega a barriga depois de um boa refeição, e isso nunca tinha me acontecido antes. Mas minha consciência não se mostrava, naquele momento, capaz de ultrapassar o superficial e o relativo, então eu disse: ---- Acho que ainda estou em débito com você, moça. Estou tentando agora ser meigo como um bebê , porque dias atrás libertei toda minha raiva escrevendo-lhe aquela carta que feriu-a em todos os seus pontos fracos. Está na hora de amadurecer, certo (?) ----, eu seguia, assim engolindo tudinho, por medo de perder alguma coisa muito preciosa. De algum modo, alcancei uma posição que me permitia antecipar qualquer movimento psicológico mal calculado, meu ou dela. Tal patrulhamento era naquele instante minha principal ocupação. Agora, ela falava-me friamente, ressentida, magoada, enquanto introduzia sua nudez na nossa conversação. ------- Tenho um verdadeiro interesse na sua maneira de pensar, K (.) Sua forma de misturar combinações que ninguém é capaz de imaginar: a maneira como, por exemplo, o Congresso americano cuida de seus assuntos, Emmanuel Kant, os arquipélagos Gulag, fotografias de mulheres em pose intimista, a fome na África, feitiçaria, sono, morte e poesia (.) ------, mas aquilo que ela dizia não serviu muito para temperar minha excitação, que misturava acidentalmente amor físico com pragas, e me fez murmurar, sem querer, a palavra ''cadela'' em seus ouvidos, e ela começou a rir, exatamente quando cheguei ao fundo do seu útero, com todas suas carnes em movimento ------ coxas, cadeiras, seios oferecidos numa certa inocência fingida. Ela supostamente enlouquecera-me ao sugar-me para dentro do seu corpo. Não importava quão rígida era minha avareza e segurança interior, eu estava sempre em algum ponto ''fora'' dela , dando ordens para mim mesmo, e também ''dentro'' dela, como numa camisa de força de geléia vaginal , que cedia e esticava, mas sempre voltava à forma original, antes e depois de cada movimento, idéia ou impulso físico meu, marcando cada estocada minha com o selo da inspeção sexual alienígena. Quando terminou, foi como se a luz do sol se dissolvesse em jatos espessos e doces. Havia uma inegável beleza no conjunto, como se um arcoíris visitasse um campo de batalha, ou os gôdos, em volta de uma fogueira, percebessem visões místicas numa caverna. O coração da Grande Besta do Apocalipse soltara um grito primitivo do fundo do universo. Agora era certo (eu pensava), para além de toda certeza, que o coração da América disparara numa corrida que terminaria... só o Diabo saberiam dizer onde. ---- As pessoas de intelecto descomunal e poderoso (eu disse para a leitora, esmagada sob meu corpo ) nunca estão absolutamente certas de que a realidade que percebem é ou não um sonho. -------, mas ela estava prevenida, conhecia bem minhas artimanhas : ------- Minha teoria momentânea é de que você está querendo é me castigar com sua antroposofia. Sabe o que quero dizer, K: se tem mesmo que ser meu guru, faça a coisa direito. Ponha uma veste de seda roxa, um turbante, deixe crescer a barba. Acho que tomei cinquenta pílulas de Valium e estou ouvindo coisas. -------, ela disse. Eu nunca tive barba. E reações mais animalescas do que essa dela permitiam-me usar um segundo inteiro para tomar uma decisão antes de falar qualquer coisa. Saltei direto da cama para a janela, como uma estrela cadente, minhas asas de vidro resplandecendo à luz do luar... quebrei o tornozelo e desloquei o ombro... vestido com a diáfana cortina cor de rosa, manquei até o banheiro usando o trilho da cortina como apoio. Como sempre, diante do espelho, o escritor enxergava-se lendo para si mesmo.... naquele momento, certifiquei-me de que o Crime da ação Isolada não tinha acontecido, não estava acontecendo e não viria a acontecer. Mas usar um aparato vocal comum e completo, nestas ocasiões, com todos seus auxílios metabólicos --- isto é, ser a mesma pessoa ---, é uma maneira deveras inexata de expressar ''reconhecimento''diante da própria imagem. Qualquer pessoa que tenha enxergado o próprio reflexo no espelho sabe qual crime está cometendo e qual seu peso em termos de perda de controle quando o reflexo pára de obedecer...
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Meu papel no momento era perfeito para meu tipo particular de talento: eu jamais iria descer plenamente do muro sem saber o que havia exatamente do outro lado, todos os pontos delicados no universo do ocultismo aplicado à política. Mas talvez eu devesse (pensava mais tarde) ser um pouco mais cauteloso e limitar um pouco as demonstrações públicas do meu verdadeiro senso de humor. O maior problema era que a civilidade hipócrita me era tão atraente quanto uma crise de desinteria. A PESSOA SÁBIA NÃO SE CONFUNDE. A PESSOA HUMANA NÃO DESANIMA. A PESSOA CORAJOSA NÃO TEM MEDO. Palavras aparentemente óbvias no meu último banner eleitoral, mas que faziam lembrar a paginação do The New Yorker, com suas vastas margens brancas e o reduzido texto. Na tv, muitos analistas prosseguiam seu discurso de apoio à minha candidatura, hora após hora, como o tempo entre as quatro da madrugada e o café da manhã numa maratona de dança. Com tais discursos, as demonstrações injetadas entre os ocupantes do tempo televisionado me traziam a reminescência de rechonchudos e idosos turistas fazendo a hula-hula no Havaí. Se fosse considerado anormal um candidato à Presidência dos Estados Unidos desaparecer esquecido do noticiário por uns dias, e contente de assim o ser ------ embora meu desaparecimento tivesse o sentido mais importante ------- eu pareceria ao público telespectador então algo muito clássico. Eu julgava frequentemente, com uma severidade quase agressiva, os grandes políticos do meu tempo dos quais me considerava um igual, mas que ainda não igualava em renome. Talvez quase. Aliás, eu não fui de modo algum ignorado durante meu desaparecimento. Meu renome era o de um grande político profissional, mas que só tinha tido até então pequenas participações em grandes eventos partidários. Faltava-me o número, o peso da Máquina Administrativa no meu passado. Na minha última aparição pública, expliquei-me aos repórteres que me criticavam que o conhecimento que se tinha de mim era proporcional à ignorância: ------- Tanto conhecido como desconhecido, o que não quer dizer meio conhecido, mas produz uma mistura esquisita (.) ------, depois disso , havia sido a vez da turma de oradores que secundaram os votos dos patrocinadores da minha nomeação, as carpideiras e os aflitos, os que espremem, retorcem, distorcem e metem o nariz onde não foram chamados; os que protestam e reclamam, os chatos ministeriais e os parasitas rabínicos, os auto-satisfeitos, os narcisistas que me usavam como espelho, a turma dos ''estou contente que você tenha vindo, visto e vencido '', os auto-ungidos, os untuosos, os sebosos, os aproveitadores e os hesitantes. O dinheiro é que marcava a distância entre o sucesso e o fracasso na política. Mas, neste caso, eu não conseguia compreender porque. Respondia-me, confuso, que, talvez, quando se obtinha dinheiro sofria-se uma metamorfose e era preciso lutar contra poderes terríveis, dentro e fora de nós. Não havia mais, nos nossos dias, mais quase nada de pessoal no sucesso político. E tampouco nos outros setores da sociedade. O sucesso era sempre o sucesso do próprio dinheiro. Na TV, eu poderia ter confessado ter confessado que não queria mais levar à sério perguntas feitas em tom sério, perguntas sobre metafísica, meta-política ou política nua e crua, mas que eram formuladas de maneira errada. Eu almejava agora, para a reta final da campanha, apenas uma ternura pessoal. Estava quase resolvido a abrir meu coração na TV. Senti, na ocasião, que poderíamos ter discutido montes de assuntos fascinantes ---- por exemplo, porque o cochilo da tarde aparentemente matava o espírito dentro das pessoas, ao invés de expandí-lo; ou porque o despertar da população em geral era tão convulsivo; ou mesmo se a TV acreditava realmente que o espírito podia mover-se independentemente do corpo; ou se sentia que podia de fato existir uma espécie de consciência que não necessitasse de qualquer base biológica: Pois eu estava tentado a confessar publicamente que (no auge da minha campanha presidencial) havia adquirido uma, e que isso me ensinava, a cada noite, um sem número de noções esotéricas sobre o problema da morte. Por fim, ponderei comigo mesmo se discutiria seriamente com a TV a`famosa atribuição feita à Walt Whitman, que estava convencido de que a democracia americana fracassaria, a menos que seus poetas lhe dessem grandiosos poemas sobre a morte.
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Era isso: metade da minha delegação parecia composta de soturnos conspiradores disfarçados de red-necks que, assim que terminado o conluio eleitoral, estariam dispostos a lançar fogo à tudo que aparecesse pela frente. A impressão que tinham de mim era a de um paredão humano que sempre aparecia em público muito polidamente, as mãos conservadas atrás das costas. Eu tinha, na verdade, o ar de um general cujos pensamentos estão sempre acompanhando um batalhão nas suas lutas sangrentas, logo ali, além daquela montanha em chamas. De fato, eu não tinha nada para dizer à você, caso você fosse apenas um civil importuno, surgindo no meu caminho no momento errado. Minha fisionomia se destacava, pois era a mais adequada para um líder, sempre oferecendo aos meus observadores ocasionais a honra duvidosa de uma batalha nas planícies (olhos vazios como uma imensa planície ), advertindo a todos de coisas como: ------ Não olhem demais para o passado. Vocês podem se tornar uma pedra de sal e acabar sendo lambidos por uma vaca (.) ----, mas, com essas palavras, eu pretendia apenas reduzir Satã à Obediência Automática, para sublimar qualquer inimigo subsidiário. ------- Banirei os candirus de suas piscinas. Caçarei os Marajás em seus resorts (.) -------, mas, claro, eu não tinha exatamente o ar de um chefe de salteadores, o orgulho dos Pikertons e chefão político tudo junto; não: nem lembrava um amálgama político de Wallace Beery e do gordo Hermann Goering; não: apenas empunhava uma bandeira de seda branca com um frasco de Dilaudid roxo desenhado no centro, que drapejava no ar como se empunhada por um cavaleiro montado num corcel. Na ocasião , eu trajava meu colete negro, enquanto datilografava mais uma sentença de morte: ''Façam tudo parecer legítimo, pessoal. '' K.M. P.S:. ''Nada a ver com narcóticos ''. Assim, eu obtinha mais um orgasmo por meio de uma fraude. Motel: um arabesco de neon defeituoso. Meus bagos espremidos até o bagaço na área onde as coxas dela se encontravam com as nádegas. ---- Você vai indo bem, estamos progredindo (.) ----, ela murmurou nos meus ouvidos. Eu me sentida humildemente agradecido por poder fazer aquilo pela América. A Carolina do Sul estava toda dentro do meu domínio imediato. O Motel era nossa ducha íntima, após uma maratona pelo país inteiro. Brincando com minha ereção angelical a noite toda, consegui não ejacular sobre os pântanos salgados dela. Mas quando a contagem foi concluída, e os delírios apaziguados em nossos ventres, um ''ooooohhhh'' de prazer subiu de dentro dos meus pulmões, como o ''ooooohhhhh'' dos pulmões dela, semelhante ao ''ooooohhhhh'' de uma acrobata sobre o trapézio. A única maneira de sobreviver àquele tipo de vida era cercando-ze de certezas insólitas à bordo de um vôo noturna nas asas do Dilaudid, a água do lavabo queimando meus olhos como ácido.... Nua, ela saiu da cama. Pegou a droga escondida no abajur. Deitou-se de novo. Virou de bruços, rolou, rolou a cama inteira. Minha ereção se dissolvendo aos poucos na gosma cinzenta de seus olhos. Em um vale de morfina desidratada, os olhos dela eram tristes o suficiente para me inspirarem um rápido discurso naquele momento. Levantei-me e percorri o quarto com um passo medido e lento, como um rapaz que carregasse um vaso litúrgico contra o peito. Fiz um discurso límpido, numa voz infantil e algo vibrante: era o que eu sabia fazer de melhor, e estava dando à ela a impressão desejada, calmante, de alguém que faz propaganda de si mesmo com fé e paixão: -------- Democracia é propaganda. Por parte do governo a propaganda penetra todos os aspectos da vida... divide-se em partes que formam uma unidade e assim deve ser encarado, mas tais partes podem ser abordadas em qualquer ordem cronológica, jogadas de um lado para o outro e exploradas de frente e sobretudo de costas: é exatamente isso que a mídia faz com governantes e candidatos, tratando-os como um objeto sexual côncavo especialmente interessante.
Sorria-me, simpatizava muito comigo; havia até um certo ar de família no espaço vazio entre nossos olhares. ------- Perigosamente impulsivo, K (ela disse), espalhando a destruição na paisagem mundial para colher especulações injuriosas, arrogantes (caos e tumulto: leviano em tudo aquilo que diz; ''A hipocrisia '', diz seu amado Edmund Burke '' Compraz-se nas especulações mais sublimes; pois não tenciona jamais ultrapassar os limites da especulação, nada custa fazer com que seja magnífica (.) ''. ------, concluiu ela. Mas em qualquer parte do meu pensamento, menos na política, a rapidez com que minha posição fôra alterada momentaneamente por suas palavras era sintoma de uma instabilidade monumental. A política era o lugar onde ninguém, afinal , pensa realmente aquilo que diz ------ é um mundo de pesadelo, onde os psicopatas vagueiam livremente. Os profundos e candentes conflitos dos políticos são como as brigas de prostitutas num puteiro ----- arrancarão os cabelos umas das outras esta noite, mas amanhã estarão fazendo algum truque juntas. Naquele momento, ela olhava para mim com o ar de quem está sonhando, sob o efeito do Dilaudid. Eu era manhoso como um gato, e fiquei com vontade de discutir a questão. Edmundo Burke me era tão caro, que citá-lo diante de mim me deixava febril. ---- ''Somos ensinados por algum sábio preconceito a olhar com horror para aqueles filhos de seus países que estão prontos, irrefletidamente, para retalhar seus maiores em pedaços e metê-los no caldeirão dos mágicos, na esperança de que, por suas decantações e encantações selvagens, consigam regenerar a constituição paternal e renovar a vida de seus pais '', Edmund Burke (declamei à ela, e acrescentei sensatamente: ''Reflexions on The Revolution in France (.) ----, e senti que, apesar de tudo, tinha conseguido colocá-la à prova, com este trecho. Além do mais, vali-me teatralmente da minha testa de intelectual, mesmo que ela fosse um pouco infantil, do meu nariz torto, do meu olhar vazio traindo um incrível poder mental, virilidade, nobreza, conhecimento alquímico, acesso à informações privilegiadas, tudo, porém, traindo também um toque de menino mimado.
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Eu estava tentado a convencer-me: não sei nada sobre isso. Extrair artistas de capitalistas é uma idéia humorística de certa profundidade. Os Estados Unidos decidiram testar as pretensões da estética mundial julgando-a em termos de dólar. Talvez a imprensa não tenha lido corretamente a transcrição dos meus primeiros discursos, onde digo que não tenho qualquer participação nessa merda de arte e literatura. Talvez eu não estivesse no meu juízo perfeito ? (perguntaram-se) Minha personalidade, tal como relatada pela autoridade dos melhores bisbilhoteiros, era muito diferente da minha presença pública. Ao vivo, eu não era, pelo que diziam , muito diferente do Broderick Crawford de All The King´s Men: rugindo, adulando, berrando, enfiando o indicador no peito dos republicanos, abraçando suas filhas pelos cantos, exigindo comida de primeira na mesa, mesquinho e rancoroso, vingativo - encarniçado - cruel - generoso - inquieto - vaidoso - subitamente ensimesmado ou deprimido, então distante, dissolvente, depois arrogante e prepotente, bruscamente humilde de novo, para logo depois me exaltar e gritar mais um pouco nos ouvidos estraçalhados da audiência. Eu transigira em demasiadas contradições, e agora as contradições estavam expressas na minha cara. Quando eu sorria, dos cantos da minha boca escorriam frieza; quando eu era compassivo , meus olhos rebrilhavam de ironia; quando falava num tom justo, parecia um corrupto; quando gracejava, meu pescoço latejava estranhamente. Há dois dias, aquele auditório do Texas tinha rido como se eu fosse William Faulkner falando sobre a família Snopes. Mas o quê aquilo causava nas pessoas ? Retraía-lhes o diafrágma ou coisa parecida?? Ora, eu sempre fora um rapaz atlético, desde os tempos doquartel: fazendo barras, brandindo tacos e punhais, levantando alteres, chutando o saco de boxe e dependurando-me em coqueiros como o Tarzan dos Macacos. Mas o que sucedia com a platéia ?? Nada demais: deviam apenas fazer uma má idéia do que acontecia quando eu me trancava no toalete. Eu era um filho da puta egocêntrico, dono de uma prosa dura como um cacetete, envenenada pelo pressentimento de uma avalanche de más consequências. Meus textos tinham pedaços horríveis: ''Num daqueles dias, quando eu estava retornado de outro almoço, do s que passam rapidamente da boca para o cu, perguntando-me quanto sal era preciso para se digerir o Ocidente Indigesto. ------- O que você está pensando, K (?) --, perguntou o Turista Brasileiro . -------Que cacos de assassinato desabam lentos, como lascas de opala atravessando glicerina (.) -----, eu disse, e fiquei observando ele cantarolar ''Johnny´s So Long at The Fair '' sem parar, com aquele sotaque subdesenvolvido. ----- Quem diabos você pensa que é (?) --, perguntou-me de repente, irritado. --- Um desses escritores que misturam Dilaudid com álcool, em horas insuspeitadas da noite, e conseguem aquilo que você nunca conseguirá (.) --- , irritou-se mais ainda. Ficou histérico, ventos em carne viva traziam ódio e infortúnio para dentro de seus olhos, enquanto a ampulheta escorria seus últimos grãos negros para dentro do seu ânus. ----Você vive perdido entre pequenos cacos de prazer e pergaminhos flamejantes, e chama isso de arte (.) ----, ele disse. Era o cadáver de um homem derrotado falando, seus recursos haviam acabado. - Sem mais conferências choronas pra cima de mim. Vocês estão sempre tirando alguma teoria extravagante sobre mim de dentro do rabo(.) - ''. De fato: um dos desgostos daquela gente era não poder mais me alcançar. Não conseguiam nem ao menos se fazer ouvir entre si. Mas nas alturas do Grande Capital americano haviam também coisas que não me despertavam confiança alguma: eu tinha percebido que a América caminhava para dificuldades econômicas há décadas, quando começaram a disponibilizar dinheiro demais para patrocinar artistas em escala industrial. Julgava-me pelos padrões correntes: tinha tentado ser fotógrafo de modelos, lembra ? - Eu ?? Quando foi isso ?? --, naquele momento, as almas de um bilhão de leitoras no mundo todo adejavam como fantasmas sobre o verniz da grande capota negra do meu maverick. Logo mais, haveria um programa recreativo para todas elas, com oferecimento gratuito de exercícios calistênicos em massa, num estádio com ar condicionado e zimbórios envidraçados. Ali, sob a supervisão de uma velha de óculos escuros, elas poderiam se recuperar do contato com minha prosa abominável...
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Não havia dúvidas de que meu instrumental de informação era tremendo, opressivo, assustador: muito mais poderoso que o deles. ------ Mas estar bem informado (eu dizia à ela) não é a mesma coisa de entender o que se passa (.) ------, o mundo mais externo era agora o meu mais íntimo segredo, que eu revelava à conta gotas. Em vez de observar o mundo visível como normalmente a gente comum faz com os sentidos e o intelecto, o iniciado superior enxerga o eu circunscrito de fora. Alma e espírito são expelidos por sobre o mundo que normalmente apreendemos de dentro. ----- Clarividente (retrucou ela, afoita), você está no espaço que antigamente contemplou, lembra ?? (!) ------, aquilo indicava que o dinheiro não podia mais marcar o tempo. Ninguém mais sabia dizer com certeza como era feito o zoneamento daquilo: nem que dados eram aqueles, nem como tinham sido obtidos. Adoecer psicologicamente o Espetáculo era agora a única forma de limita-lo com carinho, sem traumas. A vida do pensamento que voa ia tornando=se visível dentro da minha radiação. Meus pensamentos podiam ser vistos como ondas escuras passando dentro dos olhos das pessoas, espetando divertidamente seus flancos, bombeando fortes rajadas-relâmpagos de adrenalina até a altura de seus pescoços, que latejavam depois de engolir em seco.
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Eu aprendera a ser cuidadoso nos caminhos da vida pública de Nova York, que estavam muitas vezes sujos. Por dentro das cercas de ferro, a grama quase sumira, queimada pela sujeira dos cães. Mas as sicômoras, à véspera de cobrirem-se com nova folhagem, os troncos sustentando as suas características manchas brancas e castanhas, constituíam uma visão bastante agradável em meio àquela desolação. Mais além, as pedras vermelhas do Friends Seminary, e as pedras grosseiras e quentes, largas, mal talhadas mas sólidas , da Igreja Episcopal St. George. Outro dia, Sarah me contou que o próprio J. Pierpont Morgan fôra porteiro lá. ------ Na antiga Cracóvia do tempo da Polônia austro-húngara (ela disse) os velhos que liam a respeito de Morgan nos jornais, falavam dele com muito respeito como Piepernotter-Morgan. Na St. George, aos domingos, o deus dos agentes e corretores de câmbio podia respirar aliviado, por algum tempo, em meio à cidade barulhenta (.) ----, nos meus pensamentos, não sentia nenhuma indulgência para com os protestantes brancos da América, incapazes de manter uma ordem perfeita. Tratava-se de uma rendição de covardes: hoje em dia, os únicos que conseguem ganhar dinheiro com fundos de hedge são os gestores, que cobram uma fortuna por um trabalho medíocre. Não são mais uma classe forte governando: a aposta mais corajosa de Wall Street dos últimos anos foram os duzentos milhões de dólares para minha campanha. Mas isso, aparentemente, não os estava fazendo mais fortes. Pelo contrário, estavam sempre prontos, de uma maneira secreta e humilhante, a descer de suas alturas especulativas, misturando-se ao populacho minoritário, e a gritar com eles. O encanto acabara no ano passado. ------- Jacob Burckhart dizia que povos atrasados deviam ser conhecidos de cima de um cavalo (.) ------, eu disse à Sarah, rindo: ---- Os Pikertons eram assim. O primeiro Pikerton foi escolhido pelo próprio Abraham Lincoln para organizar o serviço secreto no país (.) -------, mas, para mim, ler os jornais no meio da minha campanha presidencial era um pesadelo de amor não correspondido com o eleitorado: meu adversário político prometera acabar com o IRS e eu não tinha sido capaz de retrucar nada além de que aquilo jamais prosperaria. ------- Se o país de cada um vive como uma mulher nalguma parte da vida onírica inconsciente de cada um de nós (eu disse à Sarah) , se por baixo de todas as nossas críticas e repugnância pela vulgaridade da América, mau uso do poder e pomposa estupidez, existe ainda algum caso amoroso otimista com as potencialidades secretas desta nação, alguma fé profunda e muda de que a natureza da América é fundamentalmente boa,, e não má, bem, diria que essa fé foi alvejada a tiros na último mês de campanha (.) -------, entretanto, sugeri à ela que havia ainda algum interesse em tentar ser racional, mesmo que fosse apenas para descobrir a inexistência de lógica na situação: ---- Nos últimos vinte anos o mundo financiou um défict comercial crescente dos Estados Unidos. Países emergentes acumularam trilhões de dólares em reservas internacionais e fundos soberanos enquanto a América mergulhava num défict nunca antes visto. Importamos com tanta volúpia que um leigo qualquer pensaria que estávamos possuídos por um assomo de astúcia econômica. E agora, quando muitos propagandearam estarmos sonhando nosso bom desempenho, alguém veio bater à porta: O Menino Carrasco de Pollock (.) ---, pelo menos, na ausência de pessoas capazes de explicar o assunto, aquilo era uma tentativa direta de compreender sobre o quê o problema transpirava. ----- Insisto, porém (continuei) que a lógica que eu emprego aqui aproxima-se muito da argumentação teológica, pois estou tentando falar racionalmente sobre um mistério. A abertura comercial nos fez perder muitos empregos qualificados na indústria em benefício da elite financeira do país. Portanto, é possível imaginar o tipo de Paraíso que Wall Street enxerga nesse terreno baldio: torres envidraçadas na névoa marinha, a relva importada do Japão coberta pelo sereno da manhã, as piscinas rodeadas de gardênias onde as garotas de programa expõem seus belos corpos ao sol; e todos os escuros serventes mexicanos bordando camisas turísticas enquanto murmuram ''Sí, Señor '' : montes de ''wetbacks'' cruzando a fronteira em busca da nossa crescente desigualdade de renda e achatamento salarial progressivo. O Paraíso...
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Há muito que se estabelecera que a cabeça pensante do Universo era eu, armado com um bracelete de Ulick. Os maiores meios de comunicação em massas da América, da Europa e do resto do mundo liam-me como ao Omer de Chapman: páginas iluminadas em reinos de ouro. E se por acaso regulamentos restritivos viessem a interferir na minha chance de alcançar a Presidência dos Estados Unidos, eu já estava preparado para desembolsar quinhentos milhões de dólares em suborno. Os analistas políticos mais astuciosos percebiam-no no meu rosto. Os reguladores eram o pecador negativo, e eu o positivo. ------ É uma questão que dá pano para mangas (eu disse à Sarah) : faz parte de um vasto mistério de magia negra. Posso deixar as partes maiores da explicação para o final da campanha, quando já não for possível neutralizarem meu veneno, mas de começo o que nos interessa são os argumentos e complexos de argumentos que giram em torno da teoria do dominó: 65% da população americana apoiam as restrições às importações e a adoção de uma tarifa punitiva de 45% contra produtos chineses é o alvo principal do sentimento protecionista da nação; querem uma guerra comercial contra a maior potência econômica do mundo, e este é um argumento protegido por uma poderosa metáfora. ''UMA 'IMAGEM VALE MAIS DO QUE MIL PALAVRAS '' é provavelmente o provérbio chinês mais famoso da história. Mas as metáforas possuem uma mecânica curiosa. Discute-se muito, hoje em dia, a respeito de suas propriedades psíquicas na técnica publicitária. Wall Street, por exemplo, vem argumentando que o dominó chinês está caindo. E na medida em que são pedras de dominó, o Japão e a Europa já caíram. Agora querem espremer a China para obrigá-la a rever suas posições econômicas. O fato é que negociamos muito mal na última década ----, com isso, Sarah se entusiasmou; sentia que eu estava usando cores pesadas e majestosas para descrever o problema enquanto meu adversário político se limitava a aparecer na TV abotoado num terno dos Dorminhocos do Dr. Denton. --- É claro que você tem uma boa razão para estar alerta (ela disse) : é um desafio bem grande (.) --, mas, no momento, ardia apenas um fogo lento, quieto, quase especulativo, nas gargantas dos jornalistas, e seria preciso ainda chegar ao máximo de fervura. Eu possuía negócios gigantescos na China que considerava do interesse de toda a raça humana : ------- Na China, eles exigem que minhas empresas tenham que ter um parceiro local para podermos investir e produzir: assim, o parceiro local, após um ou dois anos, ou até antes, copia a tecnologia, o produto e passa a concorrer diretamente conosco (.) ----, minhas pontas dos dedos ensaiavam, ante os olhos de Sarah, como se estivessem mexendo no gatilho destravado de uma metralhadora: o clangor da minha metralhadora deveria ser ouvido inclusive além da Terra, além do próprio Universo. Quando o Messias e suas rajadas de aptidão redentora estivessem completamente despertos, todos poderíamos olhar de novo o metal resplandescente de sua metralhadora sem borrarmos as calças; e de olhos bem abertos, mais uma vez: a Terra toda brilhante. -- Ipso Facto : o comércio com a China teve um impacto considerável no aumento da desigualdade na América. Só o aumento de U$ 25 bilhões do défict comercial com a China em 2015 custou aos americanos mais de duzentos mil empregos. UMA IMAGEM VALE MAIS DE MIL PALAVRAS. E é uma curiosa política externa usar metáforas em defesa de uma guerra. quando tais metáforas são criticamente inexatas, mesmo tratando-se de um mínimo de inexatidão, o argumento se aproxima muito de uma fraude publicitária. O que você acha (?) --, perguntei à ela. Em sua resposta, ela parecia levar em conta, antes de tudo, a maneira como eu mesmo me via. ------- Acho que é bem pior do que isso (respondeu-me ela); mas já que estamos nadando numa maré de metáforas, é como se você e eu tivéssemos uma pequena briga de rua num quarteirão do nosso bairro. Por exemplo: você me pega de surpresa, derruba-me, ganha a briga, e eu prefiro não reagir no momento, e voltar depois com a minha gangue e jogar uma bomba de plástico e pregos enferrujados dentro de sua casa. Sua empregada perde uma das mãos na explosão, e o seu melhor amigo, que só estava de passagem na casa, voa pelos ares em pedaços. Depois, eu lhe envio flores para os funerais e um cartão oferecendo meus préstimos como cobradora de seguros contra incêndio. Será possível que pretendamos opor-nos à ideologia dos Comunistas com o espírito da Cosa Nostra (?) ---
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As necessidades das crianças sempre superam qualquer consideração de ordem estética. Como agora podemos ver claramente, eu represento uma ameaça para o mundo. Óbvio: gosto do som que a a palavra ''ameaça'' produz nos ouvidos da audiência, até porque se trata de uma ameaça generalizada, não apenas para este ou aquele lado do conflito. Segue-se a inevitável especulação: ------ Quem é esse K. (?) ------ , pois tanto os israelitas quanto os muçulmanos, tanto os americanos quanto os russos, estavam agora profunda (e amargamente) intrigados comigo. ------- Como ele conseguiu seu poder, afinal de contas (?) ---, as perguntas, no geral, cobriam todos esses pontos rotineiros. E a única resposta que fazia sentido era que eu estava metido numa guerra mental imaginária para empurrar as coisas do mundo para um clímax militar real. A ampliação mental progressiva me levava até ao cume e ao abismo de tal momento, e então as probabilidades tornavam-se muito fortes no sentido da guerra nuclear total. ------ A civilização tal como nós a conhecemos (eu disse à Sarah) desaparecerá (.) É possível que toda a vida, tal como a conhecemos, também desapareça. E assim, minha cara, estaremos todos de volta ao seio do mistério primordial, sem margem para distrações burlescas. Os dirigentes chineses têm muitos desafios pela frente e melhorar a comunicação com os mercados é a pior coisa que podem fazer. Felizmente, tudo indica que estão apenas tripudiando com o Ocidente quando afirmam ser esse o atual imperativo do governo e que farão tudo para atendê-lo. A atual turbulência cambial se intensificará a tal ponto que a expressão ''compromisso chinês '' se tornará uma das maiores piadas da história entre os formuladores de políticas públicas do mundo (.) -----, Sarah ria. . -------- Mas por que motivo a vida na terra seria destruída por causa de uma guerra para a qual nós, americanos, ainda não estamos nem ligando (? ) E mesmo que venhamos a obter alguma coisa com o sentimento anti-comércio global, a ânsia de fazer dinheiro fácil cuidará para que o bom torpor liberal da infância americana dure ainda mais meio século (.) --------,ela disse. Traços de perfume dela interromperam meu sonho de Armagedon. Justo no instante em que a face dela se voltava para o sol derradeiro das minhas quimeras, senti que ainda queria algo dela. ------ O mal da civilização é que está muito distanciada da natureza (observei calmamente ) : as desproporções multiplicaram - se por todos os lados. A guerra nuclear total será apenas o sintoma capital dessas monstruosas desproporções. A humanidade será colocada diante do mistério debaixo de ferros, pois toda desproporção esconde um grande mistério ou uma grande loucura. Se um homem que sofre de uma febre insuportável decide curá-la caminhando através das chamas, devemos dizer que ele tem um grande motivo secreto para agir assim, ou simplesmente que enlouqueceu. E talvez eu tenha um motivo secreto para eleger-me Presidente dos Estados Unidos. O BC chinês tem se empenhado energicamente em enganar o mundo dizendo estar comprometida em preservar a estabilidade cambial, mas se recusa a baixar a taxa de depósito para liberar liquidez, contrariando as expectativas do mercado. Há mais de cinquenta anos que o Pentágono é obcecado com a idéia de bombardear a China com armas nucleares: na verdade, esse desejo jamais se extinguiu, desde 1946. Somos uma nação conservadora e amante da propriedade privada, que deseja destruir a propriedade das outras nações. Operações de liquidez de curto prazo, linhas de empréstimo permanente e acordos de recompensa reversa para elevar a base monetária de maneira não-convencional, o que empurrou a taxa de recompra para uma baixa recorde. Desconheço um mecanismo mais ostensivo de magia negra (.) ------, no quarto de hotel onde estávamos, havia um umidificador que agravava o odor da cola e dos recortes de jornal que eu ia pregando no mural da parede. Sarah estava pálida e enjoada, a respiração temperada de chocolate e cola, enquanto eu permanecia completamente absorvido numa tira de recortes de jornais colados que dava duas voltas e meia no quarto e fôra amarrada com barbante no lustre. Procurava ficar tranquilo e ser o mais agradável possível, porém de vez em quando meus pensamentos faziam tamanho marulho (que desagradável !) como a água num barco a vapor quando as pás largas e talhadas empurram para dentro e as máquinas fazem espumar o bagaço e lançam fora cascas de laranjas e toneladas de batatas podres. Apesar de tudo, eu vinha cobrindo todos os potos rotineiros de forma sistemática. Sem ter uma base verdadeiramente segura, no entanto, eu tinha adquirido sozinho a mágica aura do judeu esperto, o Judeu Suss: o administrador financeiro e agente de negócios dos antigos principados alemães. ---- Eu tenho audácia (confessei à Sarah, enjoada no sofá ), sou matreiro, faço parte do jet-set, sou um CasaNova e um especialista em publicidade. Falam de mim nos jornais como de um ego que tem a voracidade de um animal feroz. Parecem haver compreendido que, uma vez que a televisão criou uma opressiva cultura do Espetáculo na América, foi preciso que eu mesmo entrasse para o mundo do Espetáculo quando, na verdade, não tinha nenhuma outra base de sustentação.
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Na reunião seguinte com os jornalistas houve mais pistas para o mistério da minha personalidade. Era evidente que eu desenvolvera um profundo afeto pelos poderes mágicos da televisão, um afeto tão imenso que se sobrepunha a qualquer pretexto que pudesse haver para sentir um afeto igualmente grande pelos meus eleitores. Estes ficavam ocultos num canto da minha mente enquanto eu discursava por uma gigantesca torre de televisão. Dois terços dos meus delegados talvez estivessem sentados diante daquela torre, contemplando-me humildemente. O resto da humanidade não era visível da tribuna. A reunião prometia ser tão ordeira quanto um ''rodeo'', mas em comparação com a reunião do meu adversário , parecia um pouco menos cancerosa: as máquinas eram mais decisivas que os homens, concluía-se. Era evidente que o Establishment estava (naquele momento) a serviço do mais sutil, do mais ardiloso e sofisticado dos tiranos: eu era um imperador a que todas as máfias legítimas e ilegítimas, todos os sindicatos, uniões, corporações e instituições podiam curvar o joelho. Reiteradamente, durante meu discurso, eu prometera unificar a nação contra o medo da morte (meu estímulo ao medo era assustador e recorrente), mas em momento algum parecia estar-me referindo à república baseada nas tradições estabelecidas por George Washington, Abraham Lincoln e Teddy e Frank Roosevelt; pois se minha ideologia era liberal, minha metodologia era totalitária: para minha igreja política entrariam apenas Adlai Stevenson e Frank Sinatra, a União dos Operários Siderúrgicos, a CIA, os ossos de Martin Luther King e o Pentágono. ------ Aí está a interrogação, meu povo (!) ----- bradei ao microfone ------ A alienação dos americanos tem sido usada pelo meu adversário em referência à uma extraordinária variedade de perturbações sociais (incluindo a perda mística do eu ), os estados de angústia, a anomia, desespero, despersonalização esquizofrênica, excesso de maquiagem, desenraizamento, apatia, desorganização emocional, solidão, atomização lírica, nirvana bio-tecnológico, isolacionismo, pessimismo, perdas de verão, etc... entre os grupos (descritos por ele como alienados) estão as mulheres, os trabalhadores industriais, os trabalhadores de gravata, os trabalhadores migratórios, os artistas, os suicidas, os drogados, a gente idosa mentalmente perturbada, os veteranos sem perna, a jovem geração de negros como um todo, os delinquentes armados de faca, as audiências dos programas de auditório, os viados vítimas de preconceitos e massacres, os crioulos vítimas de racismo, os muçulmanos fanáticos, os burocratas, os políticos radicais, os deficientes físicos, os reclusos, os vagabundos profissionais e os hackers... mas o que é ainda mais inquietante é a realidade política que essa retórica reflete: a estagnação da renda dos trabalhadores e da classe-média americana; a pressão de Wall Street para que as empresas terceirizassem os valiosos empregos da base industrial; mexicanos, chineses e a sensação de que o corpo do americano médio está ficando cada vez mais vazio por dentro, que que sua psique está sendo varada por uma ferida intelectual cujas dimensões se alastram como um incêndio florestal incontrolável. No mínimo, o saldo é a convicção de que somos todos falsos, pois os republicanos também apoiaram a desregulamentação financeira e os acordos comerciais que minaram a economia americana. E agora querem culpar o lavador de pratos no Hilton de Estambul ? Acreditamos que o problema da América seria resolvido permitindo aos ricos conservarem uma porção maior do seu próprio dinheiro. Mas para promover um crescimento equitativo é necessário implementar políticas que administrem os efeitos da globalização. Não se pode comportar-se como um alienado à frente da nação, à menos que você esteja querendo levar uma parte do bolo para casa. Neste caso, sua mente presidencial se converterá num consórcio de monstruosas desproporções, de retratos galantes de si mesmo duplicados em um milhão de eventos, de vinte metros de altura cada um (.) ----, naquele momento, a atividade da mais alta inteligência política da América não melhorava em nada (inevitavelmente) o entendimento da audiência. E eu me perguntava por dentro , lastimoso, o que poderia vir a ser na meia hora imediatamente após meu discurso, senão uma pessoa bem comportada que janta no restaurante do hotel. Seria atendido por serviçais e chefes e maitres e criadas, e garçons e os pequenos ''botones'' que se vestiam como recepcionistas de hotéis europeus e enchiam meus copos de água gelada e cristalina e tiravam as migalhas do linho com uma larga lâmina prateada. E não haveria nada que eu pudesse fazer a respeito do meu desejo de redistribuir os supostos benefícios do livre-comércio senão soltar um débil soluço, simbolizando que o mercado sempre canalizava os ganhos para quem de fato os merecia. Cânceres e aneurismas, coronárias e hemorragias cerebrais, infartos e epidemias exóticas logo viriam em socorro dos operadores de planos de saúde que lucravam com a atividade de gerenciamento em vez de basear sua rentabilidade na prestação de cuidados médicos reais para os doentes. Assim , sentei-me naquele cenário de talheres de prata e chamas de brandy, e contemplei longamente a soberba cintilação dos recaldeiros.
30
Deixe-me agora explicar: sou o membro de um grupo minoritário, e como tal, quando quero falar existencialmente, falo não como um homem que faz parte de uma determinada categoria, como um negro ou como um judeu, mas como um homem que concebe sua existência de ''certa maneira''. Portanto, é próprio do contexto da minha existência viver com duas noções opostas de mim mesmo, ao contrário dos hipócritas: uma maravilhosa e outra horrorosa; uma excepcional, outra insignificante; uma boa e outra má; E o único processo de que disponho para aliviar a insuportável tensão que cerca qualquer sentido da minha própria identidade, é definir minha natureza através dos meus próprios atos: descobrir minha coragem ou minha covardia por ações que envolvam coragem; descobrir meu discernimento julgando minha própria imparcialidade; minha lealdade, sendo posto à prova; minha originalidade, criando ali onde ninguém jamais criou. Um negro ou um texano, um candidato à presidência ou uma dona de casa ninfomaníaca são, desde que em si contenham duas noções opostas de si mesmos, membros de um grupo minoritário. O que caracteriza esta definição é estarem as emoções próprias enclausuradas para sempre nas cadeias de ambivalência ----- a expansão de uma emoção libertando eternamente seu oposto ------ , o ego em trânsito perpétuo de uma torre de marfim para uma feira-livre e desta para aquela. Hoje nos deparamos com o perigo de que a distância entre as elites econômicas e tecnocráticas e a massa da população torne-se demasiado grande para que possa ser superada. Uma eminente morte do espírito público paira sobre a vida da América, e há um vazio tecnocrático canceroso no centro que exige a vibração de um circo elétrico. No limite, o centro de nosso motivo permanece um enigma: o vago sentimento de que as elites são corruptas, incompetentes e complacentes deve ser capitalizado pelo nosso discurso, mesmo que ele soe um pouco leviano no começo. Algo do animal enterrado da vida moderna cresceu bestialmente na América enquanto a expansão da atividade financeira não trouxe nenhuma melhoria proporcional ao desempenho econômico , facilitando, pelo contrário, uma imensa desterritorialização de riquezas. A doutrina da primazia dos acionistas será contestada com veemência, a qualquer custo, pois essa não é a vida americana que eu imaginei no pequeno assento de pelúcia do meu jato particular, quando tinha 33 anos, voando velozmente sobre a corrente do Atlântico profundo.
fim
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